O mercado fechou. Quem ficou mais forte?

Janela de verão encerrou na sexta-feira. A I Liga foi a sétima da Europa que mais dinheiro investiu e recebeu. Campeão FC Porto gastou e lucrou mais do que os rivais.

David Pereira
Chancel Mbemba (FC Porto): oito milhões de euros. | foto FERNANDO ARAUJO/LUSA
Gabriel (Benfica): dez milhões de euros. | foto SL Benfica
Raphinha (Sporting): 6,5 milhões de euros. | foto Álvaro Isidoro/Global Imagens
Bruno Viana (Sp. Braga): tr~es milhões de euros. | foto Paulo Jorge Magalhães/Global Imagens

As 12 badaladas que soaram à meia-noite de sexta-feira para sábado puseram um ponto final na janela de verão do mercado de transferências em Portugal. No total, segundo contas do portal Transfermarkt, os clubes da I Liga gastaram 88,18 milhões de euros (ME) e receberam 197,44 ME, confirmando o estatuto de país exportador no que ao futebol diz respeito, pois o saldo foi positivo em 109,26 ME.

Apesar dessa tendência vendedora, o campeonato português surge em sétimo lugar no ranking europeu de despesas, sendo apenas superado pelos big five (inglês, italiano, espanhol, francês e alemão) e pela II Liga de Inglaterra, o Championship, sexto na hierarquia, com 172,68 ME em gastos. Quanto a receitas, a I Liga também ocupa a sétima posição, atrás dos mesmos seis.

Olhando para o bolo dos 88,18 milhões investidos pelos clubes portugueses, saltam à vista três grandes fatias. A maior pertence ao FC Porto (33,8 ME), mas as de Benfica (26,08 ME) e Sporting (22,4 ME) também destoam das restantes. O Sp. Braga surge a um nível intermédio (5,8 ME), enquanto os restantes 14 clubes apenas têm direito a... migalhas.

Contudo, mesmo essas quatro equipas acabaram por lucrar no defeso, o que significa que tiveram de se desfazer de ativos valiosos. Assim sendo, quem ficou mais forte?

"É difícil de dizer. Se olharmos para o Benfica, que contratou um número elevadíssimo de jogadores, só o guarda-redes Vlachodimos está a afirmar-se. O setor defensivo é o mesmo, Fejsa e Pizzi continuam no meio-campo, Salvio e Cervi nas alas e até Seferovic, que esteve para ser dispensado, foi titular na Grécia [frente ao PAOK, no playoff da Liga dos Campeões]. O FC Porto manteve o Marega e não contratou por aí além, o plantel é quase o mesmo. Quem contratou alguns mas talvez sem a qualidade desejada foi o Sporting. O Sp. Braga tem-se mostrado muito inconstante", analisou ao DN o veterano treinador Manuel José, que vê como posições deficitárias o lado esquerdo da defesa benfiquista e o eixo do ataque leonino.

"O Benfica claramente construiu um plantel e sobretudo tem qualidade para fazer um onze inicial mais forte. A chegada de Gabriel é um grande upgrade e o próprio Odysseas vem resolver um problema. O Sporting está a reconstruir-se e, embora tenha chegado o Nani, individualmente está menos capaz do que antes. O FC Porto sentirá a perda de Marcano no imediato, mas tem assim porta aberta para o crescimento de Diogo Leite, que me parece ter todas as condições para chegar ao topo. O Sp. Braga perdeu dois médios de imensa qualidade, o André Horta e o Vukcevic, mas a chegada de Palhinha ajudará muito no modelo de jogo do Abel", considerou ao DN o antigo treinador e analista de futebol no blogue Lateral Esquerdo, Pedro Bouças.

Desfalcado pelas saídas a custo zero de Iván Marcano e de Diego Reyes, o FC Porto canalizou boa parte do seu orçamento para reforço do plantel na contratação de um defesa central. O escolhido foi Chancel Mbemba, contratado ao Newcastle por oito milhões de euros. No entanto, o congolês lesionou-se durante a pré-época, tendo por isso sido contratado Éder Militão ao São Paulo, por quatro milhões de euros, mas tem sido a solução interna Diogo Leite a dar conta do recado ao lado de Felipe no eixo defensivo azul e branco. Outro elemento que já fazia parte dos quadros portistas, Chidozie, voltou após um ano de empréstimo aos franceses do Nantes e constitui uma alternativa para assumir o posto.

Sérgio Conceição também viu partir a título definitivo três jogadores capazes de atuar no lado direito da defesa: Ricardo Pereira, Diogo Dalot e Miguel Layún. Para essa posição foram contratados João Pedro, ao Palmeiras (quatro milhões), e Éder Militão, que também pode jogar nesta posição, mas é o veterano Maxi Pereira que está a ocupar o posto. Para o lado esquerdo chegou Jorge (por empréstimo do Mónaco) para fazer sombra a Alex Telles.

Do meio-campo para a frente ficou quase tudo na mesma. O holandês Riechedly Bazoer foi cedido pelo Wolfsburgo para reforçar o leque de opções.

No ataque, Gonçalo Paciência saiu para os alemães do Eintracht Frankfurt, por três milhões de euros. Em sentido contrário, André Pereira regressou do empréstimo ao V. Setúbal e até tem sido titular. Quem também voltou após cedência é Adrián López, que estava no Deportivo. Em sentido contrário, Waris foi emprestado ao Nantes.

Depois de uma temporada em que foi muito criticada a falta de investimento no reforço do plantel, o Benfica optou por manter as principais unidades, vendendo os excedentários para conseguir folga financeira para investir em reforços. Os 15 milhões de euros recebidos por João Carvalho (Nottingham Forest), os 5,7 ME por André Horta (Los Angeles FC), os 5 ME por Cristante (Atalanta), os 3 ME por Jiménez (emprestado ao Wolverhampton) e os 1,5 ME por João Amaral (Lech Poznan) garantiram receitas na ordem dos 30,2 milhões de euros, um valor superior aos 26,08 ME investidos na compra de reforços. Isto além de Anderson Talisca, que foi emprestado ao Guangzhou Evergrande por cerca de três milhões de euros, podendo no final deste ano render uma verba superior a 20 milhões.

O reforço mais caro foi o brasileiro Gabriel, que pertencia aos espanhóis do Leganés e custou, segundo o Transfermarkt, dez milhões de euros. Tal como Alfa Semedo, jogador pelo qual o Benfica pagou 2 ME ao Moreirense, vem aumentar o número de opções para o meio-campo, juntando-se a Fejsa, Samaris, Pizzi, Gedson e Krovinovic - João Félix, Zivkovic e Keaton Parks são outros que podem atuar nesta zona.

No ataque, os encarnados viram sair Raúl Jiménez mas contrataram o chileno Castillo aos mexicanos do Pumas (6,85 ME) e asseguraram Ferreyra (ex-Shakhtar) a custo zero.

A defesa foi, porém, o setor mais remendado. Saíram Eliseu e Douglas, mas voltou Yuri Ribeiro (ex-Rio Ave) para o lado esquerdo, foram contratados Ebuehi (custo zero, ex-Den Haag) e Corchia (cedido pelo Sevilha por 700 mil euros) para a direita e chegaram Conti (3,5 ME ao Colón) e Lema (custo zero, ex-Belgrano) para o eixo defensivo. Para a baliza, Paulo Lopes retirou-se e há um novo titular: Odysseas Vlachodimos, contratado ao Panathinaikos por 2,43 ME.

Em relação ao Sporting, é mais fácil falar do que não mudou. Manteve-se a dupla de centrais composta por Coates e Mathieu, Battaglia à frente da defesa, Bruno Fernandes como maestro do meio-campo e Bas Dost como matador de serviço. De resto, uma autêntica revolução.

Na baliza, saiu Rui Patrício e chegaram Viviano (2 ME, ex-Sampdoria) e Renan (emprestado pelo Estoril), mas é Salin que vai, para já, assumindo a titularidade. O setor defensivo perdeu os laterais Piccini e Fábio Coentrão. A saída do português foi compensada internamente pelo regressado Jefferson, mas a do italiano implicou uma ida ao mercado para recrutar Bruno Gaspar (4,5 ME, ex-Fiorentina), embora o titular seja Ristovski.

O meio-campo perdeu William Carvalho, mas foi reforçado pelos empréstimos de Gudelj (Guangzhou Evergrande) e Sturaro (Juventus), embora o italiano esteja lesionado. O reforço mais caro e o mais sonante, porém, moram nas alas e vieram render Gelson Martins: Raphinha, contratado ainda por Bruno de Carvalho ao V. Guimarães por 6,5 ME; e Nani, de regresso após rescindir com o Valência. Para jogar perto de Bas Dost, há agora Diaby (5 ME, ex-Club Brugge).

Depois de uma campanha sensacional em 2017-18, com recorde de pontos na I Liga, o mais arriscado é não incluir o Sp. Braga no lote de candidatos ao título. Pela primeira vez em oito anos, os bracarenses mantiveram o treinador que fez toda a época anterior e ainda retiveram grande parte do núcleo duro do plantel.

Sem necessidade de promoverem uma revolução, os bracarenses procuraram reforçar a equipa de forma cirúrgica e aproveitar algumas oportunidades de mercado. O setor que sofreu mais mexidas foi o meio-campo, uma vez que André Horta terminou o empréstimo e Danilo e Vukcevic geraram os maiores encaixes financeiros do verão: 10 ME que saíram dos cofres do Lille pelo brasileiro e 8,9 ME oriundos do Levante pelo montenegrino. Para os seus lugares chegaram Claudemir (custo zero, ex-Al Ahli), Eduardo Teixeira (1,2 ME, ex-Estoril), João Novais (1,5 ME, ex-Rio Ave) e João Palhinha (emprestado pelo Sporting).

O regresso a Alvalade do lateral esquerdo Jefferson foi reposto por Aílton (emprestado pelo Estugarda) e ainda chegaram o extremo Murilo (ex-Nacional) e o central Pablo Santos (ex-Marítimo). Ainda assim, foi Bruno Viana, que na época passada jogou no Sp. Braga por empréstimo do Olympiacos, o reforço mais caro: três milhões de euros.