Costa é o principal problema de Rio? 7 desafios do líder do PSD

O PSD tem por hábito cilindrar líderes quando o cheiro a poder está longe. Agora, a geringonça que não dá sinais de avaria, o efeito Santana e um líder que teima numa estratégia low profile estão a deixar o partido à beira de um ataque de nervos

Paula Sá
Rui Rio na festa do Pontal, o piquenique que serviu para convívio com as bases.  | foto Tiago Vidigal/Global Imagens
Rio com Miguel Poiares Maduro, David Justino e Fernando Negrão.  | foto Tiago Vidigal/ Global Imagens
A oposição interna no PSD pode exigir a Rio que vença António Costa, todos sabem que a tarefa é ciclópica | foto Álvaro Isidoro / Global Imagens

Rui Rio mostra-se impávido e sereno, mas tem desafios complexos pela frente nesta rentrée. Primeiro convencer os militantes de que está no trilho certo - para mobilizar as bases para os combates eleitorais. Uma vitória nas europeias, dizem os que lhe são próximos, ajudaria muito a dar um empurrão nas legislativas. A oposição interna vai-lhe exigir que vença António Costa, mas todos sabem que a tarefa é ciclópica. Mas se pelo menos conseguir impedir uma eventual maioria absoluta do PS em outubro do próximo ano, o líder social-democrata sobreviverá ao ímpeto dos que o querem arredar do poder? A maratona do ano político começa agora.

Nas conversas que teve com algumas figuras do partido Rui Rio foi claro, depois de Costa ter reconfigurado o xadrez político em Portugal, com o apoio dos partidos à esquerda do PS, PCP e BE, o poder só cairá no colo do PSD (ou melhor do centro-direita) em três circunstâncias: uma crise de Estado (por exemplo, uma tragédia como a dos incêndios no ano passado); uma crise internacional que atinja financeira e economicamente Portugal; e uma crise na estabilidade da geringonça.

"O poder perde-se, não se ganha", terá dito numa reunião do grupo parlamentar. Sem controlo sobre nenhuma daquelas variáveis, o líder social-democrata prefere jogar no que tem como seguro: o património da "seriedade" que ganhou enquanto autarca no Porto e na ideia de que é um político que está acima do interesse partidário. É por isso que fez os acordos com o governo de descentralização e fundos comunitários e agora quer um para a reforma da Justiça. O desafio neste ano de combate eleitoral, e que se prevê feroz, será o de convencer o PSD de que esta é a estratégia certa. Mesmo os que lhe são próximos admitem não ser fácil.

"Ele [Rio] quer mudar comportamentos e atitudes, moralizar a política, mas seria mais fácil se estivesse no poder. Assim é muito difícil para o partido e os eleitores entenderem", admite uma fonte do PSD.

Sobretudo porque Rui Rio é avesso a uma grande exposição mediática. "Um partido na oposição obviamente tem de arriscar uma presença comunicacional forte", diz o politólogo António Costa Pinto, que considera que a imagem de seriedade e rigor tem peso político, mas "não chega só por si" quando há outros líderes fortes no espaço público, a começar por António Costa e a passar por Assunção Cristas (CDS) e Catarina Martins (BE).

Poucos acreditam que antes das europeias algum dos putativos candidatos à liderança do PSD desafie Rui Rio

Ainda assim, Carlos Jalali, outro politólogo, diz que um excesso de exposição de Rio não seria "consistente com a persona política" que construiu ao longo do tempo. "Era como Marcelo deixar de aparecer", afirma em tom irónico. Mas admite que o líder social-democrata tem de afirmar o seu projeto político alternativo no espaço público. É isso que lhe exigem vozes críticas como a de Carlos Carreiras, presidente da Câmara de Cascais e ex-coordenador autárquico do PSD: "A solução governativa das esquerdas está a atabafar o desenvolvimento do país. Cabe ao PSD apresentar um projeto nacional mobilizador no mais curto espaço de tempo. O PSD tem de acordar rapidamente porque está em estado de letargia e isso até é perigoso para o sistema político!"

E é assim, nos próximos tempos irá em crescendo o número de vozes críticas à liderança. Nos bastidores as tendências opositoras a Rio estão a mover-se e a preparar-se para o dia em que o líder fraquejar. Poucos acreditam que antes das europeias algum dos putativos candidatos à liderança o desafie. E mesmo depois "o tempo é curto", diz uma fonte social-democrata, mas "se o resultado for catastrófico, as coisas podem mudar".

Rui Rio ainda não falou com Paulo Rangel, mas o DN sabe que voltará a apostar nele para encabeçar a lista ao Parlamento Europeu

Rio vai desvalorizar os ataques internos, mas terá de estar atento. Luís Montenegro está na pole position para avançar e conta com o apoio de Miguel Relvas, um fazedor de líderes e até de primeiros-ministros (Durão Barroso e Pedro Passos Coelho). Mas há outros que avançarão se se desencadear uma investida contra à liderança. É o caso do antigo líder da JSD Pedro Duarte (que já o anunciou no Expresso), mas também de Miguel Pinto Luz, ex-líder da distrital de Lisboa do PSD. Por ora, o também vice-presidente da Câmara de Cascais diz ao DN: "Temos um líder legitimamente eleito, está a fazer o seu percurso e tem de apresentar de forma clara o seu programa e dizer ao que vem. Contará comigo como um soldado militante do PSD há 20 anos para fazer campanha pelo partido".

Vencer as europeias pode ser mesmo a chave para aquietar o partido, mas é um desafio estas eleições num contexto em que o governo goza de índices de grande popularidade. Rui Rio ainda não falou com Paulo Rangel, mas o DN sabe que voltará a apostar nele para encabeçar a lista ao Parlamento Europeu. No seu núcleo duro acredita-se que "se houver uma vitória pode mudar a ideia no país de que Costa está invencível". Acreditam que se o cabeça de lista for o agora ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, Rangel tem muitas hipóteses de vencer. Talvez não tantas como quando foi opositor de Vital Moreira, em 2009, e deu uma "abada" ao cabeça de lista do PS ao Parlamento Europeu.

Dizem que joga também a favor do PSD o facto de Pedro Santana Lopes, que saiu do partido com grande estrondo, não ser o candidato da futura Aliança nas eleições europeias, o que poderia dividir algum eleitorado de centro-direita. Na direção de Rio desvaloriza-se igualmente o papel que terá nas legislativas. Mas a "dissidência" de Santana, como lhe chama o politólogo António Costa Pinto, dá motivos de preocupação a Rio. "Estamos na presença do principal opositor de Rui Rio nas eleições internas e, mesmo que tenha pouco sucesso na atração de quadros do PSD, é um veterano da política muito associado ao partido, e a sua candidatura atingirá fundamentalmente o PSD." Carlos Jalali relativiza: "É um desafio adicional para Rio, mas se a Aliança tiver maus resultados nas europeias vai diminuir o impacto nas legislativas." E lembra que historicamente as cisões nos partidos "têm valido muito pouco eleitoralmente".

Não estando no Parlamento, onde vai decorrer muito do debate político, já a começar pelo Orçamento do Estado para 2019, o líder social-democrata tem de afinar mesmo as agulhas com o presidente do grupo parlamentar, numa bancada que foi construída por Passos Coelho. Novas fricções como aconteceu com a taxa sobre os combustíveis só irão criar ruído na mensagem do partido. Acresce que Rio já deu a entender que não conta com muitos dos atuais deputados na constituição das listas às eleições legislativas. Os "descartáveis" sabem que o são e não irão colaborar. Fonte do PSD frisou ao DN que joga a favor de Rui Rio o facto de os principais líderes distritais surgirem sempre nos lugares cimeiros dos candidatos à Assembleia da República. "Isso faz que mesmo os que não o apoiaram nas diretas não se mobilizem para levantar as bases contra ele", assegurou ao DN um ex-dirigentes distrital. O desafio é pois desenhar uma bancada à sua medida.

Ninguém internamente considera que a discussão do Orçamento do Estado para 2019 seja um momento crítico para Rio. Mesmo que continue a não assumir como votará o documento, a verdade é que já deu sinais de que a bancada se levantará para o "não" às propostas do governo. "Costa terá de ser enfrentado em continuidade" no caminho para as legislativas, argumenta um membro destacado do partido, "porque não se vislumbra nenhuma crise na geringonça até lá".

Rio vai desvalorizar os ataques internos, mas terá que estar atento. Luís Montenegro está na pole position para avançar

E este é outro dos grandes desafios do líder do PSD, conseguir estancar o sucesso do hábil António Costa, "conjuntura económica e social" que lhe é muito favorável", diz António Costa Pinto. E remata: "Não é tarefa nada fácil." Quem conheceu por dentro a ação de Rio no Porto diz que ele "é um ótimo gestor de timings". Os timings que o partido não está a compreender. A prova dos nove se a estratégia funciona talvez se comece a tirar nas europeias.

E voltando ao início sobre as variáveis que na política não se controlam. Marcelo Rebelo de Sousa, quando liderou o partido, entre 1996 e 1999, teve tudo para dar certo contra o governo minoritário de António Guterres. E não deu por causa de uma alternativa democrática com o CDS de Paulo Portas que borregou. Durão Barroso, que lhe sucedeu, tinha tudo para dar errado. E não deu. Perdeu europeias e legislativas (ambas em 1999) antes de o mesmo Guterres ter atirado a toalha ao chão na sequência da derrota das autárquicas de 2001 e com isso abrir espaço para o PSD voltar ao poder, coligado com o CDS. Voltas e reviravoltas que Rio conhece bem, mas que hoje têm curvas mais apertadas desde que Costa reescreveu a história da política nacional e fez nascer uma geringonça à esquerda.