A beleza para lá

Foi há um ano que falei aqui da minha paixão por Piet. Piet Oudolf, um holandês de 74 anos, cabelo branco, enigmático, profundo, revolucionário, o mestre do design de jardins, dos infinitos tons de verde, mas muito mais do que isso. Falei da minha paixão por ele, da minha espera. Falei dos nossos desencontros. Quero falar outra vez dele, de mais desencontros mas também de um encontro, mas sobretudo da razão da paixão que agora se tornou clara.

Quando vi a obra de Piet pela primeira vez, em 2010, em Nova Iorque, senti imediatamente que estava ali alguém diferente. Nunca tinha ligado a parques ou jardins (como qualquer português cresci num credo de naturofobia não assumida) e nada percebia da poda. Mas bastou ver, estar ali no Battery Park, na Highline, e ter percebido que estava ali o caminho, aconteceu uma reconciliação imediata com a natureza. Pouco tempo depois, percebi que havia ali mão de alguém, e que esse alguém era Piet, e que eu era dos poucos que não o conheciam. Era um jardim, mas não era um jardim. Eram ervas nunca vistas, numa distribuição sensorial perfeita. Voltei a ver-lhe o trabalho em Chicago, a confirmar que era por ali. Depois os desencontros, um contacto não respondido para um pequeno projeto (fui merecidamente ignorado, como se alguém tentasse abordar o Glenn Gould para ensinar o filho a tocar a Parabéns a Você no órgão Casio lá de casa) e um desencontro em Londres.

Em Londres há uns meses tentei ir ver o seu jardim no Pavilhão da Serpentine Gallery, nos Kensington Gardens. O problema é que já não estava nada lá. Tinha estado, em 2011, todos os anos um arquiteto desenha uma estrutura e a de 2011 coube ao suíço Peter Zumthor, mas os louros couberam a Piet, que desenhou o jardim que ficava dentro da moldura de Peter. Os projetos ficam por três meses, todos os verões vem um novo. A menina da receção hesitou em explicar-me isto, mas explicou e eu agradeci, como dizer a alguém que bate à porta que já lá não mora a coisa amada. As termas de Zumthor (que começou como carpinteiro), a cozinha da casa dele em Haldenstein, a ideia de perenes numa estrutura efémera, a dupla Peter and Piet, o grau de simbiose, os egos. Tanta coisa por explorar. Um dia.

Foi há dois dias o encontro. Piet e Anja têm a sua casa e escritório em Hummelo, uma pequena vila no leste da Holanda, junto da fronteira com a Alemanha. Tinha uma reunião em Düsseldorf, tirei parte do dia e fui de carro até Hummelo. Aí tinham um viveiro de plantas, que destruíram e substituíram por um jardim em 2011, e um jardim privado que se pode visitar. Pode, ou podia, porque em outubro fecha. Para sempre. Um jardim onde experimentaram coisas novas desde 1982. Oudolf revolucionou os jardins quando, tarde na vida, na carreira, percebeu que o sentido de tudo é o equilíbrio entre controlo e selvagem, entre o homem e o natural, e que as pessoas não sentiam os jardins desenhados de outro modo. E que esse controle tem de dar máxima liberdade e duração ao que é selvagem. Não deviam ser assim as nossas vidas? Daí que baseie a sua prática em ervas, plantas perenes, e que veja os seus projetos como algo vivo, cíclico. A beleza das plantas na sua totalidade, nas várias fases. Até em mortas, secas, caídas, o pesadelo da jardinagem convencional. Piet e Anja são uns velhotes bonitos.

Anja, além disso, é excêntrica. Recebe os visitantes com cara de poucos amigos (os reviews na internet são demolidores). À minha amiga que foi comigo pediu para rearrumar o carro duas vezes, a mim pediu-me logo o preço da entrada. Três euros e meio. Uma quantia sem qualquer ligação ao valor de ali estar, que bem podia ser zero (não me parece que os Oudolfs passem dificuldades, estamos a falar do George Clooney dos jardins), mas podiam ser 35 euros, que as pessoas pagariam na mesma. Vendo o revirar de olhos de Anja com o aproximar de mais um conjunto de visitantes, disse-lhe "não se preocupe, está quase a acabar, em outubro acaba". Ela riu-se, surpreendida, e disse bem alto: "É verdade, e só há uma palavra, só uma palavra - LIBERDADE!"

Neste momento Piet sai discreto do escritório, avança por entre os visitantes. Não podia perder a oportunidade. Sob o olhar de Anja abordei-o. Tinha quatro coisas para lhe dizer. Que não ligasse ao pedido para a minha varanda, que já tinha encontrado a Diana Noronha Feio, a arquiteta ideal para tratar dela; que ele me tinha reconciliado com a natureza; que o admirava muito; e que queria comprar um esquisso de um projeto seu (obras de arte abstrata, de círculos coloridos, com letras e números, das coisas mais bonitas que vi). Constrangimentos da ocasião fizeram que me ficasse apenas pelos dois últimos pontos da minha agenda. Riu-se com simpatia, e que não, que não vendia os desenhos que eram dele ou dos clientes, mas com um ar de nunca lhe terem perguntado tal coisa, e percebendo que estava perante um stalker (em inglês dava aqui uma boa piada, stalks são talos, caules), despediu-se, agradecendo e pedindo desculpa, dizendo que tinha de ir, que tinha uma consulta no dentista. Fechar para sempre um jardim, dizer que se vai tratar dos dentes, um grau de liberdade invejável.

Queria ter-lhe dito muito mais, que é uma alegoria para várias partes da vida fazer jardins que não parecem jardins mas são os jardins que as pessoas gostam; que é sabedoria rara perceber que apenas se consegue tocar os outros fazendo da liberdade a regra e relegar o controlo a um esquadro invisível. Que o admiro como o revolucionário que ousou ir lá depois do convencional, ver se também aí estava beleza que os outros achassem bela. E foi muito para lá da convenção, e aí onde chegou as pessoas acharam belo. Mas foi mais do que isso. Porque o que realmente conseguiu foi que esse belo que lhes mostrou, e onde se sentem bem e reconciliadas, é para elas ainda um jardim. E um jardim passou a ser uma coisa que não era. E é esse o maior uso do dom da liberdade, redefinir completamente uma coisa sem que esta, porém, deixe de o ser.

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