Filhos de algo

Esta não foi uma semana amiga da família, em especial das mulheres. Ouviram de tudo. Ou não ouviram, porque tinham os tímpanos rebentados pelos companheiros. Graças a Deus o juiz Neto de Moura preocupou-se e mandou tirar a pulseira eletrónica ao agressor, porque só quem nunca viu uma pulseira eletrónica é que acha que um murro nos tímpanos com pulseira eletrónica dói menos do que um murro nos tímpanos sem pulseira eletrónica. Talvez por essa razão no Brasil é tornozeleira eletrónica, que só com muitas artes de capoeira se consegue rebentar um tímpano com um tornozelo, ou então é preciso recuar a 2001 e ao pontapé do Marco à Sónia, no Big Brother, ou na casa do Big Brother. Se ficarem marcas, é pôr mais maquilhagem (não esquecer o workshop de maquilhagem organizado pela Associação Sindical dos Juízes Portugueses para assinalar o Dia da Mulher, já no dia 8 de março, true story).

Por falar em casa, as mulheres ouviram, ou melhor leram, que a sua natureza é casar-se bem e estar em casa, e ter filhos. O badalado artigo do Observador tem uma posição inenarrável que muito claramente ofende, não apenas o bom gosto (o excesso de pontos de exclamação, o estilo fofi, livro da terceira classe do antigamente), mas também o bom senso, e ofende mulheres que investem numa carreira profissional, em graus variados de conjugação de escolha e necessidade, reforça (e repesca) um estereótipo social, transforma a banalidade cultural em verdade universal. Quero voltar um dia a esta ideia, mas fui bem aconselhado a esperar por outro momento, que um texto daqueles não merece gastar uma ideia potencialmente válida e menos comum sobre a liberdade da mulher que é ela fazer o que lhe apetece, mesmo que o que lhe apetece seja ficar em casa. Fica para outras núpcias, salvo seja.

Foi também uma semana em que as famílias no governo foram badaladas. Sendo eu filho de alguém que teve um longo e relevante percurso político é assunto que não me é indiferente. Disse numa entrevista há seis anos (podia dizer na entrevista, porque só dei uma e não tenciono dar mais) que tinha a clara sensação de ter sido várias vezes beneficiado e várias vezes prejudicado por ser filho de quem sou, e que isso era o que era, nem bom nem mau. Mas também sei que é prato forte minorar o mérito de alguém por ser filho de quem é. Escrevi de certo modo sobre isto há quatro anos, aqui no DN, nos Filhos da PT. Mas sempre que o tema volta não consigo deixar de me colocar ao lado de quem é metido nesses sacos, em diagramas com fotos e setas, este marido daquela, aquele irmão daquela, este pai, esta filha. O único argumento contra a presença de familiares num governo (tal como numa empresa) veio no texto do Miguel Poiares Maduro no JN, o facto de as decisões de um governo serem tomadas em confronto entre ministros (e não em kumabaiá como pensa muita gente), e as relações familiares adicionarem uma camada a esse confronto (de facilitação ou dificultação, pouco importa). Mas quanto ao resto, instalou-se um histerismo inusitado. O estilo de liderança de Costa é o contrário ao de Passos (e este juízo é puramente fáctico e acrítico, é uma constatação, um rodeia-se apenas dos seus, outro não se importava com isso). Os estilos de liderança variam com as pessoas e isso, por si, não é nem bom nem mau. Qual a relevância de António Mendes, secretário de Estado, ser irmão de Ana Catarina Mendes, dirigente do PS? Achar que Eduardo Paz Ferreira foi nomeado para uma comissão de renegociação dos portos por ser marido da ministra da Justiça é não perceber, ou não querer perceber, nada de nada (e quem me conheça sabe que sou insuspeito na sua defesa), tal como ir buscar a amizade do primeiro-ministro com este ou aquele ministro é não querer discutir o que interessa. E é quando discutimos isto e não discutimos o que interessa, porque isto dá mais cliques, mais ratings, que os populismos alastram.

Advogado