Marcas aceleram nas promoções para tirar travão das vendas

As vendas de carros caíram 71,6% em maio mesmo com stands de portas abertas. Foi o terceiro mês de fortes quebras na procura por causa da covid-19 e da quebra do rendimento das famílias e das empresas. Concessionários vão apostar nos descontos para tentar contornar a crise.

A viseira, a máscara e o desinfetante estão à mão. Os carros estão já apontados para a saída, só que João Luís praticamente não tem recebido ninguém interessado em comprar. "Foi a primeira pessoa a aparecer hoje. Temos tudo, só falta virem os clientes", lamenta ao DN/Dinheiro Vivo o funcionário de um stand no Carregado, às portas de Lisboa.

Este é retrato das vendas de automóveis em Portugal, que caíram 71,6% só em maio, segundo os dados divulgados ontem pela associação automóvel ACAP. Foi o terceiro mês consecutivo de fortes quebras para o comércio automóvel. Em março, as matrículas caíram 56,6%; em abril, o mercado nacional recuou 84,6%, superando o registo negativo de fevereiro de 2012, em pleno período da troika.

Os concessionários estão agora a acelerar as campanhas de promoções para evitar mais estragos com a crise gerada pela pandemia de covid-19, que levou à quebra nos rendimentos de muitos milhares de famílias e deixou praticamente paralisado o negócio do rent-a-car, até agora um dos grandes compradores de carros novos.

André Matos, ainda assim, mostra-se otimista. "Sofremos uma quebra na procura mas agora só temos clientes de maior qualidade, que aparecem e compram um carro a pronto pagamento. Deixámos de ter as pessoas que só vinham espreitar", explica este comercial de outro stand.

Os concessionários foram os primeiros estabelecimentos que reabriram em Portugal. Desde 4 de maio, é possível visitar estes espaços, independentemente da dimensão. A única obrigação dos clientes é comprar máscara; nos concessionários, os carros são limpos de cada vez que são testados.

Só que há pouca gente a querer entrar, garante o comercial de um outro stand, na Castanheira do Ribatejo. "O mercado está muito calmo. As pessoas não têm confiança e recebem constantemente notícias negativas", lamenta Carlos Vitorino.

Noutro local, Filipe Vicente só trabalha duas horas por dia e é o retrato de um dos milhares de trabalhadores deste ramo que ainda estão em lay-off parcial. A ACAP lembra que o comércio (em que se inclui o automóvel) é um dos setores em que esta medida de suspensão de contrato mais tem sido utilizada: abrangia mais de 242 mil trabalhadores no final de maio, segundo dados do Ministério do Trabalho e da Segurança Social.

Mais promoções

Com apenas 756 matrículas, a Mercedes foi a marca que liderou a tabela de vendas nos ligeiros de passageiros. A Renault ficou na segunda posição (601 unidades) e a Peugeot no terceiro posto (576 unidades). Nos automóveis mais virados para os particulares, a quebra de vendas foi de 74,7%. Apesar de poucas marcas quererem falar em descontos, quem visita os concessionários já começa a notar mais promoções do que era habitual para evitar maior travagem nas vendas.

"Num período de redução global do poder de compra, iremos dar ênfase especial nas ofertas de financiamento com mensalidades acessíveis", admite a Renault Portugal. Na Ford, os concessionários têm uma promoção para os carros em stock há mais de 60 dias. Algumas destas unidades ficaram sem dono por causa do cancelamento das ordens de compra das rent-a-car, antecipando menos turistas neste verão.

Na comparação com o estrangeiro, Portugal fez melhor figura do que a Espanha - onde as vendas globais caíram 73% -, mas portou-se pior do que a França, onde o mercado travou 50% no último mês. Em França, aliás, antevê-se uma recuperação mais acelerada do mercado muito por conta dos incentivos para a compra de veículos híbridos e elétricos, que podem atingir os 7 mil euros. Em Portugal, ainda não há qualquer plano deste género em estudo. Aos concessionários resta esperar pelo regresso dos clientes.

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