Premium Ingrid defende acordo de paz dez anos após ser resgatada às FARC

Passou mais de seis anos como refém das FARC, mas nas últimas presidenciais apoiou o mesmo candidato que a ex-guerrilha colombiana. A viver em França, dedica-se à defesa dos Direitos Humanos e é rosto habitual nos encontros da dissidência iraniana.

"Num sequestro, ao final de um certo tempo, já nada há a dizer", contava a franco-colombiana Ingrid Betancourt poucos dias após ter sido resgatada das mãos das FARC, lembrando o silêncio dos reféns nos acampamentos da guerrilha.

Dez anos depois de ter recuperado a liberdade, a ex-candidata presidencial, com 56 anos, usa a sua voz na defesa do processo de paz do seu país natal, onde já não vive, mas também dos Direitos Humanos em todo o mundo, em especial no apoio à dissidência iraniana.

Ingrid Betancourt era candidata dos Verdes às presidenciais colombianas quando, a 23 de fevereiro de 2002, a caminho de San Vicente del Caguán, foi sequestrada pela guerrilha das FARC, junto com a assessora Clara Rojas.

Passariam 2323 dias até ser resgatada pelo exército colombiano, a 2 de julho de 2008. Quase seis meses antes, as FARC tinham libertado Rojas, que tivera um filho com um guerrilheiro durante o seu tempo em cativeiro.

Em lados opostos

Na segunda volta das presidenciais colombianas, no passado dia 17 de junho, as duas antigas amigas que ficaram separadas durante o cativeiro e acabaram por se afastar, estiveram em lados opostos.

Ingrid Betancourt viajou para a Colômbia para apoiar o candidato da esquerda, Gustavo Petro, porque não queria pôr em perigo os acordos de paz. Também as FARC, transformadas em partido político, apoiaram Petro, o que valeu muitas críticas à franco-colombiana (tem a nacionalidade francesa através do casamento, tendo-se divorciado após a libertação).

Já Clara Rojas, deputada eleita pelo Partido Liberal Colombiano para o período 2014-2018, apoiou o adversário, Iván Duque (delfim do ex-presidente Álvaro Uribe, em cujo mandato foi libertada). Duque ganhou com 54% dos votos.

"Parece-me que Iván Duque é um grande candidato, mas aqui há duas visões de país que estão em disputa. Uma visão de país que não acredita na paz, que quer alcançar pela força o que não se conseguiu militarmente, e essa é a que podia ter Iván Duque", disse Betancourt quando anunciou o apoio a Petro.

A ex-candidata presidencial admite que são necessárias mudanças ao acordo assinado em 2016, mas que isso deve acontecer num marco de "diálogo e respeito frente ao que já foi feito". Defende que as mudanças "não podem servir para alimentar o ódio e a vingança", referiu.

Em defesa da paz na Colômbia

Este fim de semana, Ingrid Betancourt reiterou que não há "acordo de paz perfeito". Contudo, apelou à defesa do existente e à sua consolidação para que não haja impunidade. "Não à custa de destruí-lo e que se acaba a paz e voltemos à guerra, que é no que muitos estão a apostar", disse a antiga refém à agência EFE.

As declarações foram feitas à margem de uma manifestação de dissidentes iranianos, uma causa que tem apoiado em inúmeras ocasiões "por uma questão de princípios", visto que "são opositores a uma ditadura muito cruel e misógina".

Desde a libertação, Ingrid vive em França, mas viaja pelo mundo em palestras e conferências. Escreveu um livro, editado em português pela Objetiva em 2011, intitulado "Até o Silêncio Tem Um Fim". Em 2008 recebeu o prémio Príncipe das Astúrias da Concórdia, tendo também recebido a Legião de Honra francesa.

"Sem derramar uma gota de sangue"

Há dez anos, aproveitando a falta de comunicação na guerrilha, o exército colombiano conseguiu que as FARC reunissem 15 reféns numa mesma zona, alegando que o líder Alfonso Cano queria que fossem transportados para o sul da Colômbia. Os guerrilheiros foram informados que um helicóptero de uma organização não-governamental iria efetuar o transporte e que César, que os mantinha cativos, devia acompanhá-los. O helicóptero era na realidade do exército. Entre os reféns, além de Betancourt, havia três norte-americanos (um deles o lusodescendente Marc Gonsalvez) e 11 militares.

"Sem derramar uma gota de sangue conseguimos uma das operações militares mais bem-sucedidas e engenhosas da história recente", escreveu o presidente colombiano, Juan Manuel Santos, no Twitter. Há dez anos, o então ministro da Defesa, falava que a operação ficaria na história pela sua "audácia e eficácia".

Na altura, Santos era o rosto da política de mão dura do governo do presidente Álvaro Uribe contra as FARC. Mas dois anos depois chegaria ao poder e acabaria por dar uma volta de 180 graus na política do antecessor, abrindo o diálogo com a guerrilha. O acordo de paz valeu-lhe o Nobel em 2016.

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