Faltam 70 mil casas novas para os preços pararem de subir

A estimativa é do setor da construção e da mediação imobiliária, que considera que é necessária construção nova para travar a subida do preço das casas

Arrendar casa nos grandes centros urbanos em Portugal é cada vez mais uma dor de cabeça. Comprar pode também não ser a solução. Os preços das casas estão altos por causa da elevada procura, mas não só. Há outro fator que, embora menos visível, está a ter efeitos no mercado imobiliário: a falta de construção nova. É esta a análise que faz o setor da construção e da mediação imobiliária. "Já apresentámos um estudo ao Estado [que diz] que faltam à volta de 70 mil casas novas para haver um equilíbrio de mercado. Os preços estão a crescer porque há muita procura e pouca oferta", diz ao Dinheiro Vivo Luís Lima, presidente da Associação dos Profissionais e Empresas de Mediação Imobiliária de Portugal (APEMIP). Estas cerca de 70 mil casas em falta são ao nível nacional, mas "mais de metade são em Lisboa e Porto, onde se concentra mais de 50% da procura".

Defendendo que a falta de casas só pode ser solucionada com um aumento da oferta, Luís Lima não tem dúvidas de que é necessário apostar "na construção nova urgentemente". "Há uma série de zonas, que às vezes estão à beira de áreas que necessitam de alguma reabilitação, mas têm bolsas de terrenos onde se pode construir dentro daquilo que precisamos, que é para a classe média e para os jovens".

Reis Campos, presidente da Associação dos Industriais da Construção Civil e Obras Públicas (AICCOPN), partilha desta estimativa, assumindo que "estamos a falar de números da ordem dos 60 mil a 70 mil". Apesar de haver indícios de que há uma recuperação da construção nova, os valores deverão ficar bem abaixo das necessidades estimadas pelos dois organismos. Reis Campos recorda que no início deste século se construíam mais de 100 mil habitações por ano, mas aquando do resgate, em 2011, esse número estava já em queda acentuada.

"Em 2011, já só se construíram 17 mil habitações. Durante 2013/2014/2015 andámos à volta das sete, oito mil habitações por ano de construção nova. Em 2016 e 2017 houve um crescimento em número de fogos mais significativo", nota. Em 2015, foram construídas mais de oito mil casas, tendo esse número quase duplicado em 2017, ano em que, refere, se construíram cerca de 14 mil habitações. "Em 2018, no primeiro quadrimestre [quatro primeiros meses do ano] tivemos já 21% [a mais que em] 2017. Ou seja, se isto se mantivesse, poderíamos estar a falar [entre] 17 a 20 mil habitações" novas neste ano, salienta.

Estrangeiros apostam na classe média

A Associação Portuguesa de Promotores e Investidores em Imobiliário (APPII) considera que a "grande janela de oportunidade a que os promotores imobiliários devem estar atentos é a procura de habitação pela classe média portuguesa". Hugo Santos Ferreira, vice-presidente executivo da APPII, não tem dúvidas de que uma das "grandes tendências" deste ano é a construção nova fora dos centros urbanos e para a classe média.

"Desengane-se quem pensa que é só a classe média portuguesa que anda no mercado à procura de imóveis para habitação. Temos registado uma nova vaga de investidores estrangeiros de classe média, os quais, imbuídos e contagiados por segmentos sociais mais elevados, ou mesmo por figuras públicas (...) agora procuram também uma residência permanente ou temporária em Portugal", diz. "Entre estes cidadãos da classe média estrangeira encontram-se muitos franceses, mas também nórdicos, como os islandeses, escandinavos ou noruegueses".

O responsável acredita que se está a verificar um regresso aos projetos fora dos centros urbanos, afirmando que "tem sido comum, nos últimos meses" o interesse de "vários promotores e investidores imobiliários, nacionais e até estrangeiros, por novas localizações que não apenas nas zonas prime".

Há assim, por exemplo, interesse por áreas como a Alta de Lisboa, Telheiras e Lumiar, bem como Carnaxide e Seixal. "2018 vai ficar marcado pelo regresso de alguns projetos fora do segmento alto, pretendendo apanhar um público mais abrangente. Esta tendência é da maior importância e em muito contribuirá para construirmos um mercado em equilíbrio, que é para todos e que, se assim for, certamente nos trará um mercado mais sustentável e de longo prazo", remata.

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