Seu nome é Luca

Conheci há dias um italiano, encantador como são todos os italianos, que há quatro ou cinco anos tinha vivido em Lisboa de Erasmus, como todos os italianos. Amava Lisboa, como todos os que vieram a Lisboa, e queixava-se da turistificação. Ia apostar que vi uma lágrima, ou pelo menos a humidificação do vítreo, quando me explicava os problemas da perda de identidade, da necessidade de uma luta para protegermos a autenticidade. Não tendo tido logo de mim o reflexo pavloviano de alimentar a torrente choramentosa, o Luca, vamos chamar-lhe Luca com um cê, deu dois exemplos. Um exemplo foi o clássico "é impossível morar em Alfama", não liguei porque há muito liguei a anestesia para o "é impossível morar em Alfama". Mas o outro foi menos comum no chorrilho de banalidade antiturismo e foi mais cinematográfico. Talvez porque o Luca é do cinema, é realizador de documentários, e quando ele disse o que fazia, a russa da nossa mesa, que já tinha desligado da conversa a partir do momento em que tinha percebido que Alfama não era um enclave tomado por rebeldes onde morriam pessoas, que lá no país dela têm problemas sérios, quando ele disse que era realizador de documentários, sorriu, o gelo Leste derreteu um pouco, como derrete sempre que um italiano jovem e bem parecido tem um emprego e não vive com a mãe, ainda para mais é realizador de cinema, quem não sonhou já com um realizador de cinema, ainda para mais documentários, ele no meio de guerra a mostrar ao mundo o mal para que se faça o bem, arriscando a própria vida, cuidado Luca, seu pai morreu nesse número.

Para Luca, no seu momento cinematográfico, o grande problema eram os magotes de gente no Miradouro da Senhora do Monte. Isso para ele não era admissível, que quando ele vivia em Lisboa - relembro há quatro ou cinco anos, mas que naquelas idades quatro ou cinco são quarenta ou cinquenta, anos, mulheres, cidades - eram apenas dez pessoas lá no miradouro, jurava ele, e agora são centenas, centenas, jurava ele agora com a boca e com as mãos, que os italianos tornam difícil renegar a caricatura da tradução simultânea em linguagem gestual.

Em condições normais eu nada diria, sorriria, poderia até concordar com a cabeça e arquivar o rapaz na gaveta dos imbecis, que por esta altura da vida já é um gavetão cheio, que já não fecha bem. Mas o sol estava a bater na montanha, e ele falava com uma convicção irritante, e lá tive de lhe dizer que estava a repetir um discurso que é usado sobretudo contra pessoas como ele, além de se basear em factos errados. Ele disse-me que eu não amava Lisboa, a Lisboa verdadeira, a Lisboa bonita, dos edifícios mais lindos que ele tinha visto, as mulheres mais lindas também (sim, Luca, eu também se tivesse feito Erasmus em Verona, na era do Tinder, seria mais veronista do que os veronistas, ou como quer que se diga).

E relembrei-me agora do Luca, de regresso a casa, a folhear uma Monocle e a ler o caso da casa de Amin Taha, um arquiteto londrino, discípulo de Zaha Hadid no número 15 à Clerkenwell Close. E, mais em concreto, e se eu tivesse uma fanzine de arquitetura brutalista, chamava-lhe mais em concreto, sobre esta questão do que é autêntico e bonito, ou feio, e quem é que sabe o que é o quê. O arquiteto construiu um prédio com um exoesqueleto estrutural em calcário com fósseis, onde vive e trabalha. A obra recebeu vários prémios de arquitetura, mas agora tem ordem de demolição, dizem os senhores lá da câmara, e os vizinhos, que fica mal, que aquelas pedras em volta da janela não é o que estava no projeto e, sobretudo, que choca à vista. E ele lá segue a sua luta contra a burocracia, pela arte de criar e de ousar, que claro está vai ganhar. Se eu tivesse lido isto antes, não tinha discordado do Luca. Ao ouvir os lugares-comuns do rapaz tinha mudado de assunto perguntando o que ele achava do caso Amin Taha. Ele não ia saber e eu ia explicar, enfatizando esta tensão entre beleza e novidade, mas explicava não explicava ao Luca, explicava a ela.

Advogado

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