500 anos depois de Magalhães, há outro português a preparar uma volta ao mundo

O velejador Ricardo Diniz quer seguir trajeto da primeira circum-navegação ao globo. Uma viagem de três anos, vegana, ecológica, com yoga e convidados a bordo para homenagear Fernão de Magalhães, "um herói esquecido em Portugal".

20 de setembro de 1519. O navegador português Fernão de Magalhães, financiado pela coroa espanhola, parte de Sanlúcar de Barrameda, em Cádis, para uma viagem que entraria na história: a primeira circum-navegação da Terra, que haveria de ser concluída em 1522 pelo espanhol Sebastián Elcano, após a morte de Magalhães (1521), nas Filipinas, aos 41 anos.

20 de setembro de 2019, exatamente 500 anos depois do início da epopeia de Magalhães. É esta a data que o velejador português Ricardo Diniz aponta para iniciar, em Sevilha, ao comando de um moderno catamarã, uma volta ao mundo que terá como principais objetivos "dar a conhecer a história de Magalhães, promover Portugal e alertar para a importância de cuidar do mar".

O projeto começou a ser idealizado por Ricardo Diniz há muito tempo. Em agosto de 2017, em entrevista ao DN, já o velejador mostrava o desejo de assinalar os 500 anos da viagem de Magalhães apontando 2019 como o ano certo para fazer uma volta ao mundo. Mas esta será uma viagem com características especiais. Desde logo porque, ao contrário de outros projetos que abraçou, Ricardo Diniz não vai navegar em solitário mas sim com uma tripulação internacional (nem sempre de velejadores) e com convés aberto à entrada de convidados que vão poder cumprir etapas da viagem. É também um projeto que tem nos seus alicerces uma mensagem de sustentabilidade ecológica.

Se Magalhães partisse hoje qual seria a sua mensagem? "Estou convicto de que seria por um futuro mais sustentável e harmonioso. Por isso, esta viagem vai ser o mais vegana possível, com pequenas exceções culturais em alguns pontos do globo, mas não se vai comer animais a bordo. Vamos viajar em harmonia com o ambiente pois seguimos num barco à vela. Vamos ter uma horta, para servir comida fresca, dezenas de painéis solares e dois geradores eólicos para que o barco seja o mais ecológico possível. Vamos fazer mergulho, praticar meditação e yoga todos os dias, estar sempre em contacto com escolas de todo o mundo para divulgar boas práticas de sustentabilidade. Queremos que as pessoas se apaixonem pelo mar e que cuidem dele. Será um barco que representa aquilo que acredito serem valores essenciais e urgentes para que exista um futuro sustentável", explica ao DN.

Será também um barco "grande, inovador, capaz de gerar a sua energia e a sua água, com autonomia para poder navegar três anos sem vir a terra" e que deverá ser preparado num estaleiro espanhol para "que possa transportar com segurança e conforto cientistas, secretários de Estado, embaixadores, primeiros-ministros, chefes de Estado, e não só".

"Obcecados com Vasco da Gama"

Dar a conhecer a história de Magalhães é outra prioridade. "Sinto que ele é uma espécie de herói esquecido em Portugal. O mundo reconhece-o e aprecia-o muito mais. Magalhães é nome de marcas de roupa, de fundos de investimentos, de inúmeros barcos, de marcas de GPS e até de crateras na Lua e programas espaciais da NASA. Nós, em Portugal, vivemos muito obcecados com Vasco da Gama. Só em Lisboa tem o seu nome numa ponte, num centro comercial, num aquário, num jardim... Claro que o que ele conseguiu [descoberta da rota marítima para a Índia] foi muito importante e trouxe imensa riqueza ao país, mas por outro lado Magalhães provou muita coisa, abrindo novos caminhos, e mostrou coragem, liderança, visão e determinação até ao final da sua vida. Esses são valores essenciais ao mundo de hoje. E o exemplo de Magalhães ajuda a transmiti-los", frisa Ricardo Diniz.

De momento, o velejador/orador/empresário está empenhado em reunir os apoios necessários para organizar a Missão Magalhães, que considera ser o seu "maior desafio até agora". A viagem terá a duração de três anos e, tal como a expedição de 1519, irá terminar em Espanha. Com 70% do itinerário já definido, tentando ser "o mais fiel possível" ao roteiro original - embora estejam previstos pequenos desvios até destinos por onde Magalhães não passou -, Ricardo Diniz procura agora que Portugal se associe ao projeto.

"Já nos reunimos com o governo português, por uma questão de respeito e oportunidade, para serem os primeiros a conhecer as nossas intenções, mas também estamos a reunir-nos com o mundo. O meu cenário ideal seria que esta missão fosse uma enorme expedição para promover Portugal, os nossos produtos, as nossas marcas, e ser, ao contrário de há 500 anos, um projeto muito português. Gostava muito que a história não se repetisse e poder encontrar apoio suficiente no meu país, pois esta será uma oportunidade para Portugal se comunicar ainda mais e criar novas oportunidades."

"Isto é Portugal"

De facto, há 500 anos, com Magalhães revoltado com o rei português D. Manuel I, foi a coroa espanhola (Carlos V) quem aceitou financiar a expedição. O objetivo era encontrar uma nova rota até às Molucas (situadas na atual Indonésia) através do Ocidente e provar que essas cobiçadas ilhas, ricas em especiarias, encontravam-se do lado espanhol do mundo, isto de acordo com o Tratado de Tordesilhas, que, em 1494, dividiu o mundo em duas áreas de influência: uma portuguesa e outra espanhola. Impedido de navegar em águas sob o domínio de Portugal, o plano obrigava a rumar para sul do continente americano, onde o navegador português acabou por encontrar passagem para o oceano Pacífico (o qual batizou) através de um estreito que também viria a ser batizado com o seu nome.

A missão, iniciada por um português e concluída por um espanhol (que continuou a navegar para ocidente até atingir Espanha, completando, assim, a circum-navegação, tendo para isso desobedecido a diretivas de Carlos V e atravessado domínios port ugueses pela rota do cabo da Boa Esperança), acabaria por ficar historicamente ligada a Espanha, mesmo que, mais tarde, se tenha provado que as Molucas estavam no lado português do mundo.

Agora, Ricardo Diniz quer que seja Portugal o foco de atenção. "Adorava ter um cunho diplomático português para que quem olhe diga "isto é Portugal". O barco vai ser uma embaixada flutuante. Desejo que o projeto seja o mais português possível, mas isso não significa que o financiamento tenha de ser unicamente português. E nesse sentido tenho-me reunido com vários empresários. Em breve, estarei com o líder da Tesla, Ellon Musk, para explicar este projeto e como ele faz sentido para uma empresa como a dele, que aposta na energia elétrica, mais amiga do ambiente."

Para reforçar a ligação ao país, o velejador garante que todos os cabos e as velas vão ser construídos em Portugal e que um dos principais materiais a utilizar no barco é cortiça, "um produto premium português", que ajuda, por exemplo, a tornar o barco mais leve ou a controlar a temperatura a bordo, assim como a sua insonorização.

Depois há ainda a ideia de transportar produtos portugueses e divulgá-los em vários portos e junto das pessoas que possam seguir a bordo em algumas etapas. Uma mistura de idiomas que, de resto, já acontecia nos navios comandados por Fernão de Magalhães, que quando partiu de Espanha ia "acompanhado de 239 homens de seis nacionalidades, em que 10% eram portugueses", como explicou ao DN o historiador José Manuel Garcia, acrescentando que o navegador português, mesmo tendo morrido antes do final da expedição, foi de facto o primeiro a completar uma volta ao mundo, ainda que em duas partes, pois "já tinha ido com os portugueses de Lisboa até às Molucas".

"A maior de sempre"

As principais expedições (ou "missões", como faz questão de dizer) de Ricardo Diniz tiveram sempre como pano de fundo a divulgação de Portugal e da sua cultura além-fronteiras, como aconteceu, por exemplo, em 2012, com a Mare Nostrum, em que circum-navegou a Zona Económica Exclusiva portuguesa para mostrar que a sua dimensão é vinte vezes superior à da superfície terrestre (na altura fora distribuídos por centenas de escolas mapas que mostravam os limites da ZEE), ou, mais recentemente, na Fé Paz Amor em que levou de Peniche ao Brasil uma imagem de Nossa Senhora de Fátima para assinalar, simultaneamente, o centenário das aparições em Fátima e os 300 anos de Nossa Senhora Aparecida.

Contudo, não hesita em afirmar que a Missão Magalhães "será a maior de sempre" e que chegou no momento ideal da sua vida. "Lanço o projeto com 41 anos, a mesma idade que Magalhães tinha quando morreu. É um alinhamento que me faz sentir a responsabilidade de abraçar esta aventura. Podia ter nascido em qualquer outro ano, mas fui nascer num timing que me permite estar pronto, ter a experiência e os contactos certos para saber que, precisamente no ano dos 500 anos de Magalhães, sou mesmo capaz de fazer uma coisa destas".

Comemorações oficiais até 2022

Para assinalar os 500 anos da viagem de circum-navegação, foi apresentado na semana passada um programa de comemorações que se estende até 2022. A partir de setembro, no site www.magalhaes500.pt será possível acompanhar de forma virtual a viagem iniciada em Espanha, a 20 de setembro de 1519. Outra iniciativa é o lançamento, a 17 de abril, de uma moeda de coleção com o valor facial de 7,5 euros, seguindo-se a 8 de maio a moeda corrente de dois euros.

O ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, anunciou também que até final de março será apresentado "em Espanha, com a presença dos portugueses, e em Portugal, com a presença dos espanhóis", um programa de atividades conjuntas luso-espanholas para celebrar a circum-navegação, que foi concluída por Sebastián Elcano.

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