Premium O ano em que Saramago esteve em Cabo Verde

Estava o embaixador Fernandes Fafe no exercício dessas funções quando Saramago visitou a cidade da Praia e depois Mindelo. Na realidade não foi só ele. Nesse tempo, um considerável número de escritores e outros artistas portugueses vieram até nós, dizia-se que por mérito do embaixador que muito se preocupava com o intercâmbio entre intelectuais dos dois países. Estou a lembrar-me da Isabel Barreno, da Maria Velho da Costa e de tantos outros, embora me lembre particularmente da pintora Graça Morais, com quem acabamos estabelecendo relações de grande amizade.

Fafe era um homem de letras culto, bem-humorado e de fácil convívio. Vinha muitas vezes a São Vicente e, certa vez, creio que por indicação do cônsul, procurou-me como advogado a favor de um português encrencado. Nesse tempo era cônsul de Portugal um engenheiro cabo-verdiano casado com uma portuguesa, mas que entretanto ficou doente, pelo que muito naturalmente a esposa passou a exercer as funções de cônsul e a assumir-se como consulesa. Ela e Fafe pareciam manter relações de muita cordialidade. Ela gostava de exprimir opiniões ousadas mas de que se arrependia imediatamente. E então exclamava, Ah, senhor embaixador, se calhar acabo de dizer uma grande asneira! E o embaixador, sorrindo bonacheirão, tranquilizava-a, Não, minha cara senhora, uma consulesa nunca diz uma grande asneira.

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