Eles já não são apenas chineses. Sentem-se portugueses e adoram

Estudaram cá e até se casaram com portugueses. Das lojas e restaurantes dos pais saltaram para as profissões qualificadas.

Quando chegou a Portugal, em 2004, era um rapaz de 7 anos e chamava-se Feng Ji. Os pais tinham chegado a Lisboa, onde ainda hoje residem, três anos antes. O filho único viajou mais tarde para estudar em Portugal. Já mudou a nacionalidade e no Cartão de Cidadão optou por incluir um nome português. Hoje, com 22 anos, é Filipe Ji, diretor comercial de uma empresa de fabrico de calçado em Santa Maria da Feira, a Orso Sandles, cuja dona é a chinesa Feng Feng, mais velha e hoje residente em Portugal após décadas fixada em Espanha.

Filipe Ji é um exemplo da integração dos descendentes da segunda vaga de imigração chinesa, com milhares a chegar a partir das décadas de 1990 e, sobretudo, de 2000 da província de Zhejiang, a região chinesa de onde partiram famílias inteiras com destino a Portugal. Em Vila do Conde, na zona industrial da Varziela há uma grande comunidade que resulta desta fase e que está virada para o comércio. Feng Feng, mais velha, é também desta província mas o destino inicial foi Espanha e Portugal é a sua casa há menos de dois anos. Na maioria dos casos o comércio e a restauração foram as atividades que estes imigrantes abraçaram em solo europeu. Foi assim também na primeira vaga de chineses, em meados do século XX. Hoje já não é assim. A imigração recente, numa terceira vaga, é diferente, já não chega de Zhejiang, é mais centrada em pessoas com dinheiro que recorrem aos vistos gold e procuram investimentos. São quase 30 mil chineses, ou descendentes, a viver em Portugal.

Tanto Filipe como Feng são exemplos dos chineses que cresceram na Europa. Com uma educação ocidentalizada e uma vivência social diferente da percorrida pelos pais, são mais qualificados. Filipe Ji concluiu o 12.º ano e preferiu entrar logo no mercado de trabalho. "Muitos amigos chineses foram para a universidade. Estudam ou até já são médicos, contabilistas, várias profissões. Grande parte nasceu cá", conta o jovem.

A educação dos filhos é a prioridade das famílias chinesas e, como os amigos de Filipe, há muitos licenciados nos descendentes dos imigrantes que abriram lojas e restaurantes. É o caso de Lin Man, 43 anos, advogada da PLMJ, filha de donos de um restaurante no Cais do Sodré, que já tem duas filhas com nomes portugueses. Também a família de Ping Chow (ver texto em baixo), do Porto, vai já na quinta geração em Portugal e tem duas médicas, entre outros descendentes licenciados, no mercado de trabalho.

Quando Filipe Ji chegou a Lisboa não sabia uma palavra de português. Foi na escola primária que uma professora um dia lhe disse que ele era o Filipe, em jeito de brincadeira. "Achei piada e o nome ficou. Quando pedi a nacionalidade portuguesa deram a opção de escolher um nome português. E por isso sou Filipe", conta, sorridente. Foi tudo fácil depois. "Nunca senti discriminação em Portugal. Tive sempre amigos portugueses e chineses, fui sempre bem tratado."

Feng Feng entra na conversa. Há ano e meio em Santa Maria da Feira a produzir calçado, quase tudo em plástico para exportar para países europeus, adquiriu a antiga Basilius e projeta-se agora na indústria a partir de Portugal. Foi "uma boa oportunidade de negócio" e hoje emprega 60 portugueses e cerca de dez chineses. No momento da foto quis ter os trabalhadores que saíam do turno da manhã ao seu lado. O ambiente parece ser descontraído e familiar. "Ó Fafa, vamos ficar todos lindos", gracejava um dos funcionários perante uma divertida patroa que tem o marido a trabalhar com ela na fábrica localizada num dos concelhos onde se produz mais calçado em Portugal. "Nos negócios não é muito diferente nem é melhor do que Espanha. Há menos concorrência, sim. A nível social, Portugal é mais fácil, mais simpático, mais amigo", resume Feng Feng.

Em casa, com os pais - que mantêm a nacionalidade chinesa -, o filho único Filipe sempre falou em mandarim. "Foi a forma de nunca perder o contacto com a língua. Mais tarde fui mesmo para uma escola em Lisboa aperfeiçoar o mandarim." Domina bem a língua portuguesa e vê-se como um cidadão entre dois países. "Sou português... e chinês." Mas acaba por confessar que pensa "mais como um português". E diz que quando vai à China, de férias, sente-se como um emigrante. "São muitos anos fora, desde pequeno. Sinto-me quase um estrangeiro. E sempre que lá vou parece que tudo mudou. De um ano para o outro a mesma cidade está diferente, mais moderna", revela. Regressar à China é hipótese futura? "Não", é a resposta imediata e perentória. "Nem os meus pais pensam nisso."

Filipe Ji ainda não tinha nascido quando Sun Lam, natural de Pequim, chegou a Portugal, em 1989, mercê de uma bolsa da Fundação Oriente para fazer um mestrado. Foi para Braga. "Estava em Macau numa conferência e ouvi o antigo reitor da Universidade do Minho (UM) a descrever as características da cidade. Calma, com muito verde. Gostei e aquilo ficou no imaginário. E fiquei por cá. No início foi uma grande aventura para uma jovem que nunca tinha saído da China", contou ao DN na Biblioteca Fernão Mendes Pinto, dedicada a estudos orientais, que ajudou a criar na UM.

De resto, Sun Lam, 57 anos, está ligada ao primeiro curso livre de chinês, em 1991, ao lançamento da primeira licenciatura em Estudos Orientais, em 2004, e ao mestrado de estudos interculturais, em 2008. Pelo meio fez o doutoramento, também no Minho, onde se mantém. No sentido inverso, ajudou duas universidades chinesas a criar cursos de língua portuguesa.

Casada com um português, também professor na UM ligado aos estudos orientais, Sun Lam, que reside em Terras do Bouro "no meio da natureza", trocou a nacionalidade de origem pela portuguesa. "Quando vou à China preciso de visto." E são duas vezes por ano, para estar com os pais e o irmão, que já cá vieram e "adoraram". "Sinto-me muito realizada aqui, e gosto de fazer a ponte entre os dois países na área da educação", diz quem já formou mais de 300 licenciados, mais de cem mestres e quatro doutores. "As saídas profissionais são muito boas. A nível de tradução há muita procura. O Estado português devia investir mais para trazer chineses para fazer cá investigação."

Ao longo dos anos, assistiu ao crescimento chinês. "Quando cheguei, havia um restaurante em Braga e nem sei se havia alguma loja. Tudo mudou. Em 20 anos, houve crescimento rápido, com muitos chineses a chegarem, mesmo de outros países da Europa. Havia muita falta de comunicação mas hoje os filhos são bilingues, estudaram cá e muitos casaram-se com portugueses."

Agora, sente-se portuguesa ou chinesa? "Boa pergunta. Se não olhar para o espelho, não me lembro de que sou da China", graceja. De Portugal aprecia "a maneira como se abre a povos e culturas diferentes e como funciona em democracia". Mas admite, até pela sua área profissional, que nunca perdeu uma abordagem "confucionista, na cultura e nos valores morais".

A família Chow chegou nos anos 30 para vender gravatas

O avô de Y Ping Chow criou o primeiro negócio, o pai abriu o primeiro restaurante. As filhas casaram-se com portugueses. As netas já são a quinta geração.

Falar de chineses em Portugal obriga a recordar a família Chow, instalada no país há mais de 80 anos e que já vai na quinta geração em solo nacional. Hoje, Y Ping Chow (na foto) é o rosto da ligação entre os dois países, uma espécie de porta - voz da comunidade e presidente da Liga dos Chineses em Portugal.

Chegou ao Porto com 7 anos em 1962, na companhia dos tios, para se juntar ao pai, que tinha viajado em 1958. Por cá já andava, desde 1934, o seu avô, um dos primeiros imigrantes chineses em Portugal. Criou uma fábrica de gravatas no Porto que terá sido um dos primeiros negócios criados por chineses no país. Depois, o pai de Chow montou o primeiro restaurante chinês da cidade, depois outro que ainda hoje funciona e, com os anos e sobretudo com a ação de Y Ping Chow, houve uma diversificação na atividade comercial nas décadas seguintes.

O casamento de Ping Chow com uma chinesa de Taiwan fez a família crescer e reforçar os laços com os portugueses e com a Europa, como o empresário já contou ao DN, num retrato sobre a vivência de um chinês em Portugal. "A família está cá toda. Tenho três irmãs, e uma já nasceu cá, que mal falam mandarim, duas são médicas. As minhas filhas casaram-se com portugueses, as minhas netas são portuguesas. O meu filho vai casar-se com uma alemã - estudou lá e trabalha lá."

Estes exemplos servem para contrariar uma certa ideia de comunidade fechada, muitas vezes associada aos chineses. "É normal quando estás muito longe da tua terra. Hoje há muitos casamentos entre chineses e portugueses. Estamos bem integrados."

Por isso, o cidadão português, que também tem nacionalidade da República da China, recomenda sempre o nosso país. "Aconselho chineses a vir para Portugal. Mas para as pessoas virem trabalhar aqui não é muito bom. Não ganham tão bem como noutros países, mas para viver é muito melhor. Não há discriminação."

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