China de Xi é ambiciosa e está na rota para ser a nova superpotência

Líder chinês chega hoje a Lisboa, vindo da cimeira do G20, e traz na bagagem a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota. "Portugal é importante", diz presidente Xi Jinping.

São poucos os quilómetros que separam o sofisticado laboratório da Huawei em Pequim do Palácio de Verão que servia a dinastia Qing, mas não existe melhor contraste entre aquilo que a China encabeçada por Xi Jinping quer ser, uma superpotência moderna, e aquilo em que o país se deixou cair no século XIX, uma decadência simbolizada pelo navio de mármore que absorveu o dinheiro que era suposto modernizar a marinha imperial.

A chegada da república em 1912 com Sun Yat-sen foi um sinal da mudança necessária, mas é 1949, com o triunfo da revolução chefiada por Mao Tsé-tung, que a liderança chinesa identifica como o momento de viragem, como nesta semana afirmou em Lisboa Wang Xiaohui, vice-ministro do departamento de comunicação do comité central do Partido Comunista num encontro de leitores d"A Governança da China, o livro em dois volumes com o pensamento de Xi.

O sucesso económico (9% de crescimento médio anual, sublinhou também o vice-ministro Wang) que torna possíveis as ambições de Xi, expressas nas 24 línguas em que o livro já está traduzido, começou, porém, a partir de 1978. Nas suas reformas, Deng Xiaoping foi aconselhado por um veterano comunista que, como governador da província de Guangdong, vizinha de Hong Kong, viu o dinamismo da então colónia britânica da foz do rio das Pérolas.

O antigo companheiro de Mao e de Deng dos tempos da guerrilha esteve na base da criação da primeira zona económica especial, essa Shenzhen onde nasceu a Huawei, hoje gigante das telecomunicações a nível mundial, e que passou de aldeia de pescadores a cidade com tantos habitantes como Portugal e já foi chamada de fábrica do mundo. O governador chamava-se Xi Zhongxun, pai do presidente chinês que nesta terça-feira inicia uma visita de dois dias a Portugal, regressado da cimeira do G20, em que estiveram representadas as maiores economias.

A China era a 11.ª em 1978, hoje é a segunda, mas sonha voltar a ter a maior fatia do PIB mundial, como acontecia até finais do século XVIII, pelo menos até à era do imperador Qianlong, segundo as célebres estimativas do britânico Angus Maddison.

Maior presença internacional

"Xi alcançou o topo da pirâmide política chinesa em finais de 2012. Durante os três anos seguintes, a sua preocupação principal centrou-se na consolidação do seu poder enquanto dirigente supremo do país. Para o conseguir, rodeou-se de um grupo de fiéis e promoveu uma agenda nacionalista, assente em três grandes linhas de ação: o combate à corrupção; a aceleração da prosperidade individual; e a modernização das forças de defesa e segurança. Ou seja, procurou responder aos anseios do cidadão comum e, ao mesmo tempo, conquistar o controlo dos aparelhos securitários. A sua liderança foi reconhecida, de modo incontestado, pelo Partido Comunista em 2016. Entretanto, e nos últimos dois anos de uma maneira aberta e ousada, o presidente decidiu que a China deveria ter uma presença internacional mais atuante. Foi nesse contexto que ganhou forma a iniciativa gigantesca conhecida como Uma Faixa, Uma Rota. E que foram adotadas medidas no sentido de reforçar o papel da China no conjunto do Sistema das Nações Unidas", afirma Victor Ângelo, português que foi subsecretário-geral da ONU.

Segundo o antigo quadro internacional, a intenção de Xi é clara: "Fazer acompanhar o investimento económico em várias partes do mundo por um aprofundamento da influência geoestratégica da China, quer nas instituições internacionais já existentes quer através da criação de novas organizações intergovernamentais enquanto instrumentos ao serviço dos interesses vitais do país. O Banco Asiático para os Investimentos em Infraestruturas, estabelecido em 2016, é um exemplo emblemático da maneira como Pequim vê as relações multilaterais: sob liderança chinesa."

Prossegue Ângelo a sua análise: "Esta opção política do presidente Xi irá guiar a política externa da China nos próximos anos. Haverá mesmo uma amplificação dessa política. A visão parece ser a de chegar ao final da próxima década com a China capaz de competir com os Estados Unidos, em termos de peso e alternativa geoestratégica. E também com uma rede de relações económicas internacionais que permita manter um nível de vida elevado para uma boa parte dos cidadãos chineses. Esse será o legado que o presidente tem em mente. Depois, no período pós-2030, o objetivo será o de chegar a 2049 e poder celebrar-se não apenas o centenário da criação da China comunista mas também a transformação do país na maior potência económica e política do século XXI. Essa é certamente a ambição que anima a classe dirigente."

Para um país que cada vez mais se reconcilia com o seu passado multimilenar, surge como natural a recuperação da memória da antiga Rota da Seda e também das viagens marítimas de Zheng He para sustentar um esforço de globalização que vai desde a ligação ferroviária da China à Alemanha via Ásia Central, Rússia, Bielorrússia e Polónia até à ampliação de portos no Sri Lanka e no Paquistão, passando pela construção de centros logísticos na Etiópia.

Mesmo a base militar recém-inaugurada no Djibuti pode ser enquadrada neste esforço de visibilidade, tanto mais justificável quando há capacetes-azuis chineses no Sudão do Sul e a marinha chinesa tem ajudado a combater os piratas ao largo da Somália. Claro, há vozes em vários países que denunciam a ligação entre os interesses económicos e os interesses políticos, mas como maior exportador, a China é inevitável como parceiro de topo tanto de pequenas economias como de grandes, caso dos Estados Unidos, do Japão ou do Brasil.

Forte investimento em Portugal

Portugal, que tem recebido importantes investimentos chineses, está também abrangido pelo projeto Uma Faixa, Uma Rota. Num artigo de opinião hoje publicado no DN, o presidente Xi destaca a antiguidade das relações entre os dois países e vai ao ponto de referir a tradição de sericultura em Freixo de Espada à Cinta como um exemplo do alcance das antigas relações comerciais na Eurásia. É a quarta visita de um chefe de Estado chinês a Portugal, tendo a última sido a de Hu Jintao, em 2010.

"Vamos construir em conjunto Uma Faixa e Uma Rota e ser parceiros de desenvolvimento comum. Portugal é um ponto importante de ligação entre a Rota da Seda Terrestre e a Rota da Seda Marítima, por isso, a cooperação sino-portuguesa no âmbito de Uma Faixa e Uma Rota é dotada de vantagens naturais", escreve o presidente.

"As relações Portugal-China são as mais antigas e regulares relações da China com um Estado europeu", confirma sem qualquer hesitação o historiador Luís Filipe Barreto. "São relações marítimas, comerciais, culturais, também diplomáticas com a primeira Embaixada de um Estado Europeu à China Ming . Portugal e a China, ao longo de quase meio milénio, criaram a primeira plataforma Eurasiática Global Moderna. Macau é no presente e foi no passado um polo-chave no universo das relações China/Portugal, Eurásia, África, América, conectando na nova Rota Marítima da Seda os Mares da China ao Índico, Atlântico, Pacífico. Macau é hoje uma das capitais da lusofonia global. Portugal e a China possuem uma história comum de mais de meio milénio, partilhando conhecimentos e parcerias", diz o diretor do Centro Científico e Cultural de Macau. Para Luís Filipe Barreto, esta relação histórica traz vantagens hoje, pois "se Portugal foi do século XVI ao século XVIII a porta e a fronteira por excelência da China na Europa e da Europa na China, no presente e no futuro pode bem voltar a ser uma das grandes pontes globais Europa, África, Brasil, China".

Com quase 1400 milhões de habitantes, a maior população ainda de qualquer país apesar de ser previsível a médio prazo uma ultrapassagem demográfica pela Índia, a China já não cresce dois dígitos a cada ano e em 2018 é mesmo provável que entre as grandes economias a indiana faça melhor em termos de taxa de crescimento. Mas prosseguir com o desenvolvimento, agora a partir de uma base bem mais alta do que em 1978, mantém-se uma exigência para os governantes e faz parte da expectativa da população. Tanto dos jovens como dos que pertencem às gerações que conheceram ainda os tempos de escassez, como é o caso de Wang Suoying, que vive desde 1991 em Portugal e não esconde o entusiasmo com o êxito chinês.

Orgulho chinês

"Estamos orgulhosos pela história da China, que, como todos sabem, possui uma esplêndida civilização com uns cinco mil anos, tendo dado uma enorme contribuição para a Humanidade. Estamos igualmente orgulhosos pela prosperidade atual da China, que tem alcançado enormes êxitos em todas as áreas, incluindo tecnologias de ponta. No âmbito internacional, a China está a desempenhar um papel cada vez mais ativo e a iniciativa Uma Faixa, Uma Rota está a ganhar cada vez mais amigos estrangeiros e, no plano nacional, a luta contra a corrupção e a política de "país rico com povo rico" são muito aplaudidas pelo povo", diz a professora de língua e cultura chinesa, que costuma lembrar aos alunos que o seu país inventou a bússola e a imprensa.

E o êxito chinês faz-se sentir em Portugal cada vez mais, nota a académica, agora presidente da Associação Portuguesa dos Amigos da Cultura Chinesa. "Olhando à nossa volta, os produtos chineses encontram-se por todo o lado e o valor de investimento das empresas chinesas em Portugal ultrapassou os nove mil milhões de euros. Nasci em 1951, dois anos depois da fundação da República Popular da China, e pertenço, tal como o nosso presidente, à geração que cresceu com a República Popular da China, acompanhando-lhe todo o percurso de luta por ter uma China mais forte e mais próspera. Por isso, ficamos extremamente orgulhosos pela prosperidade atual."

Com a prosperidade vem também o poder, inclusive o militar. Hoje a China, potência nuclear desde 1964, tem já o segundo maior orçamento de defesa. É que, mesmo privilegiando o soft-power, os governantes não esquecem as lições do passado, basta relembrar que Macau, devolvida em 1999, foi obtida no século XVI através de negociações, mas Hong Kong (restituída em 1997) foi conquistada pelos britânicos na Guerra do Ópio de 1841, durante o período de decadência da dinastia Qing.

"Frequentemente descrita como "emergente", a China é, na verdade, uma potência "ressurgente", o Império do Meio historicamente proeminente na Ásia Oriental, e que declinou durante mais de um século, perdendo guerras e territórios, assinando "tratados desiguais", vivenciando guerras civis, revoluções e invasões estrangeiras e convivendo com cercos sucessivos de europeus, japoneses, americanos e soviéticos. Porém, começou a reemergir a partir da década de 1970 e transformou-se naquela que é hoje a segunda maior economia do mundo e a primeira, se calculada em paridade de poder de compra. Dispondo ainda do maior exército do mundo e do segundo maior orçamento de defesa, projeta a sua influência político-diplomática muito para lá do lugar de membro permanente do Conselho de Segurança da ONU", sublinha Luís Tomé, professor de Relações Internacionais.

"Central novamente na Ásia-Pacífico e cada vez mais nos assuntos mundiais, influenciando e condicionando agendas, comportamentos e interações da generalidade dos outros atores e regiões, a imagem da China que pode estar em vias de recuperar a posição de outrora é ampliada pela escala e pelo ritmo de crescimento do seu "poder nacional abrangente". País de superlativos, o Estado mais populoso do mundo que é, simultaneamente, uma civilização, a China representa, para uns, um rival e uma ameaça que tende a tornar os outros de novo seus tributários - sendo as suas reivindicações nos Mares da China, os enormes superávites comerciais ou a Nova Rota da Seda chinesa alguns dos argumentos invocados - e, para outros, uma oportunidade de crescimento mútuo, potência benigna que não interfere nos assuntos internos alheios e alternativa credível aos ocidentais. Em qualquer perspetiva, a ressurgência da China constitui, de facto, o maior desafio para a hierarquia do poder mundial e a ordem internacional vigentes", acrescenta o responsável pelo curso de doutoramento em Relações Internacionais da Universidade Autónoma.

Desafio à primazia americana

Apesar de a ameaça de uma guerra comercial entre os Estados Unidos e a China (que pairou na cimeira do G20) e do isolamento de Donald Trump em temas como o aquecimento global darem protagonismo de líder global a Xi Jinping, a reemergência chinesa não tem de resultar forçosamente num confronto com a América, alerta o historiador Luís Nuno Rodrigues.

"A situação ainda está longe de se assemelhar à competição existente entre os Estados Unidos e a União Soviética durante a Guerra Fria. Neste caso, essa competição tinha contornos mais abrangentes: era a um tempo política, ideológica, económica e militar. No caso da China, podemos dizer que esta representa hoje o maior challenger à primazia americana no sistema internacional, mas esse desafio só ganhará contornos mais definidos a prazo e, para já, parece estar a concretizar-se sobretudo no domínio económico. São, sem dúvida, os primeiros passos de um processo cuja duração não conseguimos ainda prever com exatidão", afirma o diretor do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL.

Espanha, que foi há pouco visitada por Xi (antes de ir à Argentina para o G20), e também França, Reino Unido e Alemanha mostram escasso entusiasmo por Uma Faixa, Uma Rota, pelo menos abaixo das expectativas chinesas. Em Portugal, pelo contrário, há uma abertura da classe política e empresarial à influência chinesa que, não pondo em causa a vocação atlanticista do país, abre outras hipóteses de parceria, até pelo interesse comum em desenvolver o porto de Sines. Mas talvez cinco séculos de história em comum com os chineses dê mais confiança aos decisores portugueses.

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