Há 24 pedreiras ilegais no Alentejo. E desastres à espera de acontecer

Basta ir em reportagem para a zona de Borba e Vila Viçosa. Toda a gente por ali, dos donos das pedreiras ao povo que as trabalha, temia acidentes como o desabamento da estrada 255. É uma história com mais de 80 anos. Nunca houve um plano de ordenamento, cada um escavou por onde quis, há poucos técnicos e muita desorganização.

Lá no fundo o mundo é diferente. Nos dias de sol a temperatura chega aos 50 graus, nos de chuva trabalha-se com água pelo tornozelo, às vezes pelo joelho. Tempo seco, ainda assim, é pior - o pó dá cabo dos olhos e dos pulmões a um homem. "Não conheço ninguém que goste de trabalhar numa pedreira", diz Joaquim Malta, o Quim Saragoça, que tem 55 e anda nesta vida há 40, como o pai e o avô antes dele. É um dos sobreviventes do desabamento da estrada 255, entre Borba e Vila Viçosa.

Trabalhava há 17 anos na pedreira do Almeida, onde no passado dia 19 dois dos seus colegas ficaram soterrados nos escombros. Todos os dias a ver a mesma nesga de céu, das oito da manhã às cinco da tarde. E sempre os mesmos seis companheiros, foram quase duas décadas a partilhar um buraco."Andávamos a tirar pedra mesmo a 15 metros do talude, não havia dia em que alguém não perguntasse se era hoje que a parede vinha abaixo."

Era pertinho do muro que segurava a estrada que se tiravam os blocos mais inteiros de mármore. A pedreira do Plácido, com o dobro da profundidade e ali mesmo ao lado, tinha encerrado há ano e meio - foi essa que engoliu a 255. Eles seguiam a escavação uns metros adiante, não havia maneira de não saberem que estavam em perigo. Joaquim sabia, sim, mas responde com a mesma resignação dos que moram nas redondezas. "A nossa vida é esta, ou morremos debaixo das pedras ou morremos de fome. A fome é certa, às pedreiras ainda podemos ter a sorte de escapar vivos."

O deslizamento de terras em Borba é um acontecimento tão dramático que o país não teve como desviar o olhar. Foram afinal cinco mortos, três engolidos pelo talude, dois sepultados por ele. Mas a tragédia começou antes. Para perceber a ruína de 80 metros de estrada é preciso explicar como se chegou aqui. Esta é uma história de ganância, desleixo e submissão. Ou de como o ouro branco se tornou simultaneamente triunfo e perdição para uma das regiões mais esquecidas do país.

Escavar por onde der

Do alto da escombreira da Vigária, em Vila Viçosa, avista-se um vale com mais de 40 pedreiras. A maioria está ao abandono, mas há uma dezena que continua a laborar. "Daqui podemos observar como as coisas foram sempre mal geridas", diz Rúben Martins, engenheiro geológico e coordenador do departamento de geociências da Universidade de Évora. "A cada vinte ou trinta metros abriu-se uma pedreira nova. São tantas e estão tão concentradas que raramente se consegue ir a mais de cem metros de profundidade, não têm diâmetro para ir mais fundo."

Este é um bom exemplo de tudo o resto. Segundo a Direção-Geral de Energia e Geologia, o anticlinal de Estremoz - nome científico do veio de mármore de 27 quilómetros quadrados que se estende por Estremoz, Borba e Vila Viçosa - tem 271 cavidades, 24 delas absolutamente ilegais. Mas apenas 70 são exploradas. "O poço mais fundo tem 150 metros, mas os nossos estudos dizem que há mármore até aos 430." Nunca houve um plano de ordenamento para a zona, cada um escavou por onde quis. Um único técnico fiscaliza as 400 pedreiras que há no Alentejo, garante Rúben Martins.

"Os proprietários foram abrindo pedreiras avulso, umas ao lado das outras. Se trabalhassem em conjunto, abriam um grande poço em vez de 20." Isso não só lhes permitiria ir mais fundo como deitar abaixo as dezenas de taludes que ocupam a região. Dessa forma, explica o professor de Évora, o risco de derrocadas reduzir-se-ia exponencialmente. E os lucros tornar-se-iam mais duradouros. E avultados.

O problema dos grandes paredões, como aquele onde estava apoiada a estrada 255, é geológico. Apesar de o mármore ser retirado da terra em blocos de 3 metros de comprimento por 1,7 de altura e 1,5 de espessura, os veios não são uniformes. "Uma das características das nossas rochas é serem extremamente fraturadas. Por causa da origem calcária os espaços vazios são ocupados por terra rossa, que no tempo seco funciona como cimento mas com a chuva torna-se manteiga."

As semanas que antecederam a tragédia foram de dilúvio, como aliás há anos não se via em Borba. "Se 2016 e 2017 não tivessem sido anos de seca, é bem provável que aquela parede já tivesse ruído. Aqui não há inocentes, toda a gente sabia o que ia acontecer. Era uma questão de tempo."

Uma ode ao desperdício

"Escavámos até onde conseguimos", diz Luís Brito da Luz, administrador da Marmoz, uma das empresas mais antigas do anticlinal. Contradiz, assim, a ideia que tem sido passada de que só seria possível escavar até 30 metros de uma estrada como a que ruiu. "Temos nove pedreiras, mas só trabalhamos duas. As outras estão abandonadas." Vazias? "Todas menos uma, há 30 anos tivemos de enchê-la porque havia risco de derrocada do cemitério de Estremoz." Numa foto percebe-se um talude de cem metros mesmo ao lado do muro da necrópole. Sem intervenção, também as campas teriam escorregado.

A empresa chegou a ter 137 funcionários, hoje não são mais de 16. Têm aquelas pedreiras todas mas o diâmetro já não lhes permite ir mais fundo. "É um facto que os empresários do mármore nunca se souberam organizar. Cada um explorou o seu quintal e agora estamos a pagar essa fatura." Há cinco anos, havia 230 companhias a explorar mármore no anticlinal, hoje não são mais de 40. "A menos que aconteça um milagre, também nós teremos de declarar insolvência nas próximas semanas."

A pedreira do Plácido, a que rebentou com a estrada, fechou por isso: a empresa faliu. Nos anos 1990 era um ícone da saúde do setor. Jorge Sampaio, então Presidente da República, visitou-a a 3 de fevereiro de 1997 e desceu o paredão num elevador que, a meio do percurso, avariou. Nessa altura o poço era metade do que é hoje. Dali se retirou mármore branco, o que então estava na moda. Quase todo vendido para a Arábia Saudita.

É precisamente por obedecer a modas que as pedreiras permanecem vazias. "Se daqui a uma década o mercado quiser aquele tipo de mármore, é a uma pedreira entretanto desativada que se vai buscá-lo. Tapá-la seria incomportável em termos de custos", diz Rúben Martins, o professor de Évora. "Já temos desperdício que chegue."

Apenas dez por cento do que é retirado das pedreiras de mármore da região tem aproveitamento. Ao lado dos fossos há verdadeiras montanhas de entulho, blocos sobre blocos sobre blocos de mármore, misturados com pedregulhos soltos. Muitas são mais altas do que os marcos geodésicos da região. Não há nesta planície montes mais elevados do que estes.

Naquelas escombreiras está o símbolo maior da ganância dos empresários. "Durante décadas, só retirámos o mármore que vendia melhor, o outro deitávamos fora. Agora temos estes aterros cheios de ouro desperdiçado", diz o empresário Luís brito da Luz. Admite as culpas, lembra os fundos europeus que chegaram na viragem do milénio e que a sua família gastou numa fábrica que hoje está abandonada. "Devíamos ter usado esse dinheiro para reaproveitar as escombreiras. Mas num mercado em que funcionou sempre cada um por si, ninguém o fez. Explorámos o mármore à fuçanguice e agora estamos desgraçados."

O orgulho da terra

Quando em 1982 o Papa João Paulo II visitou Vila Viçosa, a autarquia mandou terraplanar uma série de terrenos em redor da povoação para construir parques de estacionamento. Até esse momento, a única coisa que existia na região eram pedreiras, mas o alisamento das terras permitiu que se desenvolvesse com grande fulgor uma indústria de transformação que até então estava localizada em Pero Pinheiro, Sintra.

"Essa década foi o período de ouro da exploração de mármore na região", diz Carlos Filipe, historiador, professor da Universidade de Lisboa e investigador no Centro de Estudos de Património e História da Indústria dos Mármores. "Por causa da existência de um mercado diferenciado, a região conseguiu resistir às fugas migratórias que caracterizam quase todo o Alentejo. Aqui havia desemprego zero."

A história do mármore na região tem dois mil anos, mas é em 1927 que o setor se torna no centro da vida de Borba, Estremoz e Vila Viçosa. O aparecimento do movimento arquitetónico art déco no centro da Europa traz ao Alentejo uma série de industriais belgas que fundam companhias para explorar a pedra. "E trazem consigo uma nova tecnologia, o fio helicoidal, que permite cortar a pedra a uma velocidade muito maior."

Se hoje basta meia dúzia de homens para trabalhar uma pedreira, nestes anos o efetivo contava com 40 a 50 homens. "Portugal tinha saído há pouco tempo da I Guerra Mundial e vivia uma fome terrível. De repente, aqui, há mais trabalho do que gente." Era ofício duro e perigoso, a pedra carregava-se ao lombo e não havia semana em que um monte de pedras não rolasse escarpa abaixo. Mas ganhava-se melhor do que na agricultura - que atravessava uma das piores secas da história.

As empresas de pedra começaram a conceder créditos aos trabalhadores para que adquirissem bicicletas e motas. No início da II Guerra Mundial, Vila Viçosa tinha fama de ser a terra do país com mais veículos de duas rodas. Mas, até 1966, a indústria continuava a ter um problema: retirar as pedras dos poços. Problema resolvido com o final da construção da Ponte sobre o Tejo - as gruas foram despachadas para o interior alentejano e o processo acelerou rapidamente.

A eletrificação das pedreiras e o aparecimento do fio de diamante, nos anos 1980, deram o impulso que faltava ao mercado do mármore. "Até aí vendia-se para toda a Europa, agora era o mundo árabe que vinha comprar as pedras portuguesas. Com a primeira Guerra do Golfo, há a primeira quebra de mercado. A segunda chega com o 11 de Setembro e com a entrada da troika vem a machadada final", diz o historiador. O desemprego volta a subir, mas agora há um problema novo: os terrenos que antes serviam para a agricultura e pecuária estão agora apinhados de pedreiras.

A maldição da pedra

José Lopes, de Bencatel, tem 58 anos de vida e 42 de pedreira. Trabalha no Cochicho, pertinho da aldeia de Pardais, que com 150 metros é o fosso mais fundo que há no anticlinal. "Ando meio surdo por causa do barulho das máquinas. Temos protetores para os ouvidos, mas quem é que aguenta usá-los nos dias de calor?"

Também ele veio para o mármore por falta de alternativas. Profere a frase que aqui é repetida até há exaustão: "Ou morremos debaixo da pedra ou morremos de fome." Não vê a hora da reforma chegar, já chega de tanto pó branco. E agora, que o tempo de descanso se anuncia, o homem só consegue lamentar-se do que construiu. "Estes anos todos no fundo do poço para ganhar 750 euros. Isto é muito difícil, porque nem nos podemos queixar. Quando nos queixamos, ficamos de castigo." Corta por isso a conversa, enquanto tiver salário a receber não pode contar o que se passa lá em baixo.

Então fala Inácio José, 55, que se reformou há dois meses. "Quando ficamos doentes, quando protestamos por qualquer coisa, põem-nos a fazer os trabalhos mais duros e atrasam os pagamentos dos salários." E isso é o menos mau, antigamente era muito pior. A história das pedreiras de mármore também é uma história de exploração.

"Quando nos anos 1980 abriram as serrações, muitas mulheres eram contratadas para selecionar as cores", conta ele. "Mas, quando engravidavam, os patrões punham-nas a fazer trabalhos mais duros, a ver se abortavam. Não havia cá licenças de maternidade, fossem para casa dar de mamar aos filhos, que eram despedidas."

"A mentalidade feudal que existia neste ofício permanece até aos dias de hoje", diz Nuno Gonçalves, do Sindicato dos Mármores do Sul. "É um nicho de mercado esquecido e um dos que tem mais questões por resolver em termos de direitos laborais." Esta semana foi finalmente aprovada a passagem da idade de reforma para os 55 anos. O projeto foi assinado pelo PCP, era ambição de 20 anos. Mas o sindicalista insiste nos problemas: não há aumentos há 15 anos. Não há planos de segurança ou saúde. Nem sequer há fiscalização.

Inácio foi para a pedreira aos 15 anos. O pai tinha morrido quando ele tinha cinco, debaixo de um desabamento de mármore. "A minha mãe ficou com três bocas para alimentar e quando arranjei emprego foi um alívio. Mal sabia o que me esperava." Nesses anos, férias só havia de três em três anos - uma semana. Os capatazes a exigirem que cortassem mais longe, caso se atrasassem não os deixavam tomar o almoço. "Mas o pior era olhar para o alto da cratera e sentir aquele medo todos os dias, aquela angústia de não saber quando ia chegar a nossa vez."

Ninguém deixa saudades na pedra. Ainda assim, aquelas catedrais que os homens escavaram são monumentos impressionantes. Há um par de anos, os concelhos da região organizaram um curso de visitas às pedreiras para os técnicos de turismo dos municípios. Há até uma rota do mármore. Visitas organizadas - e a estrada que agora ruiu era um dos lugares da peregrinação. Para algumas das pedreiras que estão abandonadas a solução pode passar por construir anfiteatros, salas de espetáculo, jardins. As cicatrizes da terra podem ser disfarçadas, sim. Mas naquelas covas fundas, naquelas paredes assombrosas, está a ruína e a salvação de um povo inteiro.

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