A família Chow chegou nos anos 30 para vender gravatas

O avô de Y Ping Chow criou o primeiro negócio, o pai abriu o primeiro restaurante. As filhas casaram-se com portugueses, as netas já são quinta geração.

Falar de chineses em Portugal obriga a recordar a família Chow, instalada no país há mais de 80 anos e que já vai na quinta geração em solo nacional. Hoje, Y Ping Chow é o rosto da ligação entre os dois países, uma espécie de porta - voz da comunidade e presidente da Liga dos Chineses em Portugal.

Chegou ao Porto com 7 anos em 1962, na companhia dos tios, para se juntar ao pai, que tinha viajado em 1958. Por cá já andava, desde 1934, o seu avô, um dos primeiros imigrantes chineses em Portugal. Criou uma fábrica de gravatas no Porto que terá sido um dos primeiros negócios criados por chineses no país. Depois, o pai de Chow montou o primeiro restaurante chinês da cidade, depois outro que ainda hoje funciona e, com os anos e sobretudo com a ação de Y Ping Chow, houve uma diversificação na atividade comercial nas décadas seguintes. "O meu avô foi um dos primeiros chineses a emigrar para aqui. O primeiro negócio foi uma fábrica de gravatas", recorda Y Ping Chow, 60 anos, um chinês com nacionalidade portuguesa e passaporte de Taiwan - a China não reconhece dupla nacionalidade - que, além de diversas atividades empresariais, é presidente da Liga dos Chineses em Portugal e de outras associações ligadas ao país asiático. "Aqui estou bem, sou chinês, mas sinto-me português e digo aos chineses que Portugal é um bom sítio."

A história detalhada contou-a ao DN já há dois anos. "Nasci na China, na província de Zhejiang, na região de Xangai. Vim com os meus tios, os meus pais já cá estavam. O meu pai chegou aqui em 1958, eu em 1962. O meu avô chegou em 1933/34 e foi um dos primeiros imigrantes chineses em Portugal." São memórias de um tempo que Y Ping Chow apresenta com sorrisos. "Nessa altura, um chinês aqui era um pouco como um animal de circo. Ninguém via chineses e quando viam um era uma coisa nova."

Estudou no Porto, na Escola Primária da Chã, e depois no Liceu Alexandre Herculano. "Casei-me aqui, com uma chinesa de Taiwan, tenho cá os filhos e neste momento já tenho as netas." O casamento duradouro teve um início invulgar. "Conheci-a quando praticamente estávamos para nos casarmos. Ela veio para se casar e não me conhecia pessoalmente. Foi uma coisa interessante da vida, na altura falávamos por cassete. Eu gravava cá e enviava, ela fazia o mesmo. Foi muito bonito."

Já adulto, Chow começou a trabalhar com o pai no restaurante King Long, um dos mais antigos do Porto. "Depois montei um restaurante no Centro Comercial Dallas, agora fechado, tive várias lojas, de diferentes tipos de negócio, o que mantenho." Pelo meio tornou-se um dos maiores promotores do intercâmbio luso-chinês. "Portugal é o meu segundo país. Não nasci cá mas vivi aqui a maior parte da minha vida."

Simpatia e sol são vantagens comuns para todos os estrangeiros que vivem em Portugal. É só isso? Os chineses só procuram o comércio? "Aconselho chineses a vir para Portugal . Temos forçado para trazer investidores, os vistos gold estão a ter sucesso. Mas para as pessoas virem trabalhar aqui não é muito bom. Não ganham tão bem como noutros países, mas para viver é muito melhor. Não há descriminação, são mais simpáticos. Trabalhar no pequeno comércio em Portugal é muito melhor do que noutros países europeus. Os portugueses são mais abertos do que os espanhóis, os franceses ou os italianos." As relações com Macau e o elevado número de população emigrante - "Sabem o que é sofrer" - são explicações de Y Ping Chow para a boa recetividade dos portugueses aos que chegam de fora.

As viagens à Ásia são muito frequentes, seja por comércio ou trabalho associativo, o que permite manter acesa a chama da cultura chinesa. Mas as novas gerações trazem mudanças. "A família está cá toda. Tenho três irmãs, e uma já nasceu cá, que mal falam mandarim, duas são médicas. As minhas filhas casaram-se com portugueses, as minhas netas são portuguesas. O meu filho vai casar-se com uma alemã - estudou lá e trabalha lá." Com estes exemplos, Chow rejeita que os chineses sejam fechados. "É normal no início, quando estás muito longe da tua terra. Mas os chineses são muito amigos dos seus amigos. Hoje há muitos casamentos entre chineses e portugueses. Estamos bem integrados."

Com tantos anos em Portugal, como é que um chinês, firme apoiante daquilo a que chama de sistema político chinês, viu a evolução em Portugal, com o 25 de Abril pelo meio? "Realmente, não notei a diferença de antes da Revolução e depois. A única diferença é que na altura uma pessoa não podia falar mal do presidente da República. Agora pode falar mal. Antes tinha de ser mais rigoroso, agora pode ser mais à balda."

Estes exemplos servem para contrariar uma certa ideia de comunidade fechada, muitas vezes associada aos chineses. "É normal quando estás muito longe da tua terra. Hoje há muitos casamentos entre chineses e portugueses. Estamos bem integrados."

Por isso, o cidadão português, que também tem nacionalidade da República da China, recomenda sempre o nosso país. "Aconselho chineses a vir para Portugal. Mas para as pessoas virem trabalhar aqui não é muito bom. Não ganham tão bem como noutros países, mas para viver é muito melhor. Não há discriminação."

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