Patrícia Mamona e este grande país que é Portugal

O país está apaixonado por Patrícia Mamona. Vibra com a extraordinária atleta que ela é, com as medalhas que ganha, mas também elogia sem rubor a simpatia e a beleza. E é enorme o respeito intelectual pela atleta de alta-competição que estuda para ser engenheira biomédica e foi bolseira na América.

Ontem as reportagens, os comentários nas redes sociais, as conversas de café, iam todas no mesmo sentido: a admiração pela portuguesa de 32 anos que em pouco mais de uma hora fez dois novos recordes nacionais, ultrapassou a fasquia dos 15 metros e só foi batida pela venezuelana Yulimar Rojas, que na final olímpica deste domingo conseguiu o recorde mundial do triplo salto.

Quando a medalha de prata ficou garantida, Patrícia Mamona deu pulos de felicidade. Não era a sua primeira medalha, mas em Jogos Olímpicos ainda só tinha um 13.º lugar e um 6.º. Depois colocou uma enorme bandeira sobre ombros e celebrou, de sorriso aberto. Chegou a abraçar-se para ser tirada uma fotografia com a venezuelana e com a espanhola Ana Peliteiro, medalha de bronze, que igualmente bateu o recorde nacional. A bandeira verde e vermelha coexistiu assim por uns segundos com as da Venezuela e de Espanha, numa fraternidade internacional que também é marca dos Jogos Olímpicos apesar da fortíssima competição que existe entre os representantes de duas centenas de países.

Continuei colado à televisão a assistir. Lembrei-me como vivi emoções semelhantes quando tinha 13 anos e fiquei acordado toda a noite para ver na RTP Carlos Lopes ganhar a maratona em Los Angeles. Até hoje é um dos meus heróis, e não só porque a sua vitória fez o hino português ser tocado pela primeira nuns Jogos Olímpicos, mas porque foi preciso muito talento e muita dedicação para o atleta de Vildemoinhos, Viseu, triunfar em Los Angeles aos 37 anos. Foi um ouro de grande garra.

Todos gostaríamos que também Patrícia Mamona ouvisse o hino, até hoje só tocado três vezes depois de Los Angeles 1984 e sempre graças ao atletismo (para Rosa Mota em Seul 1988, para Fernanda Ribeiro em Atlanta 1996 e para Nelson Évora em Pequim 2008). Mas não senti qualquer desilusão com a prata, senti sim enorme satisfação. E o rosto da nossa atleta mostrava ser esse também o seu sentimento. Na conversa a quente com a RTP confessou estar nas nuvens. Falou de quem lhe veio à cabeça na hora de festejar: o treinador, a família e "este grande país, Portugal". Em simultâneo, quase encabulada, tinha apontado para a bandeirinha que tem no fato de treino. Ao ouvi-la, percebi finalmente porque os portugueses estão apaixonados por Patrícia Mamona, filha de angolanos, nascida em Lisboa e criada em Agualva-Cacém: é porque ela está apaixonada por Portugal.
E o sentimento só pode ser recíproco.

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