Premium Crise migratória impõe-se como tema central do primeiro encontro entre Sánchez e Casado

Um é primeiro-ministro desde 2 de junho. O outro é líder da oposição desde 21 de julho. Nesta quinta-feira, Pedro Sánchez e Pablo Casado reúnem-se pela primeira vez de forma oficial, na Moncloa, às 17.00 (16.00 em Lisboa).

Tendo em conta os acontecimentos e as trocas de acusações dos últimos dias, não é difícil imaginar que o tema central do encontro entre o dirigente socialista e o líder dos populares será o da crise migratória.

Casado, sucessor de Mariano Rajoy, o qual foi derrubado do poder pela moção de censura de Sánchez, deslocou-se nesta quarta-feira a Algeciras e a Ceuta (enclave espanhol no norte de África) para ver, in loco, a situação dos migrantes. Acompanhou os trabalhos da Guardia Civil, da Cruz Vermelha, da Polícia Nacional e do Salvamento Marítimo.

O novo líder do PP culpa o executivo socialista de demagogia e de ter criado um efeito de chamada ao aceitar que o navio Aquarius, recusado por Itália e Malta, em junho, atracasse, cheio de migrantes, em Valência.

"Que se deixem de demagogia com o problema da imigração porque só em dois meses a situação piorou, produziu-se um efeito de chamada inegável com gestos como a receção do navio Aquarius", afirmou Casado, que em Algeciras falou em inglês e em francês com os migrantes, muitos de origem subsariana, cumprimentando-os. Em Ceuta fez-se fotografar junto à vedação que há anos é notícia cada vez que vagas de ilegais tentam saltar de Marrocos para o que é território de Espanha.

Este foi o mesmo Casado que, há dias, acusou Sánchez de populismo por se fazer fotografar durante a chegada do Aquarius. Segundo o El País, essa fotografia nunca foi feita e, numa busca na internet ou nas agências noticiosas internacionais, não é possível encontrá-la.

"O monopólio dos bons sentimentos não pertence à esquerda, a mim também me custa falar com estes imigrantes, saber o que estão a passar, o que estão a sofrer, que têm pela frente meses muito duros. Também sou pessoa, também considero dramático que haja tanta pobreza em África e que na Europa não sejam sensíveis a isso", afirmou Casado, que se define como católico, enquanto o chefe do governo espanhol, por outro lado, se assume como ateu.

Nas declarações que fez aos jornalistas, o novo líder do PP, que venceu a corrida à sucessão de Rajoy com 57% dos votos no congresso extraordinário do partido, a 21 de julho, defendeu um Plano Marshall para África (numa referência ao plano norte-americano que permitiu reconstruir os países europeus a seguir à II Guerra Mundial).

"Os países ocidentais não devem apostar simplesmente em ajudas que podem acabar nas mãos de governos corruptos, mas apostar na institucionalização, na educação, no acesso ao mercado de trabalho, na imigração regulada", defendeu, voltando a afirmar que "de nada servem nem os populismos nem as demagogias" pois a situação "não vai resolver-se dizendo que há papéis para todos, que o Estado de bem-estar é ilimitado, que a rota da imigração ilegal através de Espanha é mais fácil do que noutros países".

Só neste ano, segundo números do Alto-Comissariado da ONU para os Refugiados, chegaram a Espanha 27 614 migrantes ilegais ou refugiados, a Itália 18 348 e à Grécia 16 142. No caso grego, o acordo de readmissão e repartição entre a UE e a Turquia teve alguns efeitos. No caso italiano, o novo governo de coligação entre ultranacionalistas e eurocéticos tem travado as entradas, recusando, inclusivamente, que navios de ONG com migrantes e refugiados a bordo atraquem. No caso espanhol, a velha história das relações tensas na fronteira entre autoridades marroquinas e espanholas. E agora, segundo Casado, o alegado efeito de chamada provocado pelo governo socialista de Sánchez.

"Como pose de verão poderia ser algo muito divertido, mas Casado e [Albert] Rivera estão a brincar com uma coisa muito perigosa. Promover a xenofobia... isso não é a Europa que queremos. O Salvini espanhol", reagiu o PSOE, pelo Twitter, depois de o novo líder do PP ter anunciado que iria visitar a cidade autónoma de Ceuta. Além desta, Espanha tem outro enclave espanhol no norte de África: Melilla.

A juntar a isto, a declaração de vice-primeira-ministra Carmen Calvo, criticando o líder do PP, mas também o do Ciudadanos, dois interessados na realização de eleições antecipadas em Espanha. "Num tema como este, Casado e Rivera decidem alinhar-se com líderes europeus que, nem de perto nem de longe, fazem parte do espaço onde se alinham [Emmanuel] Macron, [Angela] Merkel, [António] Costa e [Pedro] Sánchez", disse, numa referência a políticos como o ministro do Interior italiano e o líder do partido Liga Matteo Salvini.

"E não disse Pablo Casado que 'há milhões de africanos à espera' e que em Espanha 'não há papéis para todos'? É preciso ter muito pouca decência e muita demagogia para fazer uma coisa destas", voltou a escrever, no Twitter, o PSOE, numa publicação feita nesta quarta-feira após a visita de Casado a Algeciras e a Ceuta.

Em auxílio de Sánchez, que pediu mais ajuda da UE, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, comprometeu-se a libertar mais 55 milhões de euros no âmbito do programa de gestão de fronteiras com Marrocos e Tunísia, o qual foi aprovado no dia 6 de julho. Em carta enviada ao primeiro-ministro espanhol, Juncker afirmou partilhar "o sentido de urgência" de Sánchez e admitiu a necessidade de se fazer algo "com rapidez". O líder espanhol agradeceu.

Além da crise migratória, outro tema quente a ser debatido entre Sánchez e Casado é o da Catalunha. Ainda mais quando o ex-presidente governo catalão, Carles Puigdemont, voltou ao seu exílio na Bélgica e, logo no primeiro dia, lembrou ao chefe do governo espanhol que o apoio dos independentistas catalães à moção de censura com que o PSOE derrubou Mariano Rajoy "não é um cheque em branco".

Numa altura em que foi levantando o artigo 155.º (que suspendeu a autonomia da Catalunha após o referendo ilegal de outubro do ano passado sobre a independência de uma república catalã), Puigdemont chegou mesmo a sugerir um périplo por vários países da UE, entre os quais Portugal, para promover a sua causa. Ontem, o seu sucessor da liderança da Generalitat, Quim Torra, declarou que o rei de Espanha "Felipe VI já não é rei dos catalães".

Segundo fontes do PP, citadas pelo El Mundo, Casado vai exigir a Sánchez "um reforço institucional" face ao independentismo catalão. De acordo com a porta-voz do PP no Parlamento, Dolors Montserrat, o líder da oposição espanhola exigirá a defesa da unidade de Espanha, medidas para o crescimento económico e a criação de emprego, uma política antiterrorista consolidada (sobretudo agora que os terroristas bascos da ETA confirmaram a sua dissolução definitiva). Isto, claro, para além da política migratória.

"Amanhã [hoje] vou pedir ao primeiro-ministro que se faça respeitar perante a Europa", afirmou Casado, numa referência à carta em que Juncker também admite que os recursos europeus para fazer face à crise migratória "são limitados". Nos assuntos de Estado, Sánchez, por seu lado, pedirá a Casado "lealdade" e "visão", adiantou a vice-primeira-ministra espanhola Carmen Calvo.

Numa reportagem especial sobre Espanha, a conceituada revista The Economist escreve nesta semana: "Sánchez diz que quer governar até 2020. Com apenas 84 deputados em 350, seria mais sensato antecipar as eleições. O governo perdeu impulso desde que o PP perdeu a maioria em 2015. Espanha não pode permitir-se mais dois anos sem nada fazer. [Caso contrário] a política poderia ensombrar o seu admirável progresso económico."

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