Loures. 10% do crime violento é falso. Dizem que lhes roubaram o telemóvel para receber seguro

Em Loures e Odivelas, a PSP registou, desde janeiro do ano passado até março deste ano, 115 queixas falsas de roubos, principalmente de telemóveis. Quem os perde tenta conseguir declaração para receber o seguro. Já foram detidas mais de 20 pessoas.

Um dia o responsável de um stand de venda de automóveis apresentou-se numa esquadra da PSP de Loures com a seguinte queixa: tinham-lhe roubado oito carros. A polícia investigou e chegou à conclusão de que a denúncia era falsa, não tinha existido nenhum crime envolvendo a empresa. O mesmo final teve a denúncia apresentada há alguns dias por um estafeta. Neste caso, o homem disse que tinha ficado sem o material que ia entregar na zona de Sacavém. Nesta situação acabou por ser um morador a tramar o queixoso, pois disse à PSP que não tinha visto nenhum grupo a tentar roubar o queixoso.

Estes dois casos são exemplo de um tipo de criminalidade que a Polícia de Segurança Pública diz estar a aumentar: a simulação de roubo, muitas vezes com a intenção de enganar as seguradoras. Por exemplo, quem perde ou danifica um telemóvel topo de gama para o qual fez seguro tenta obter uma declaração da polícia em como lho roubaram e assim receber o valor do aparelho.

Em Loures e Odivelas esta tentativa de enganar as autoridades representa 10% das queixas por crimes violentos [roubo está integrado nesta tipologia] apresentadas à PSP entre janeiro de 2018 e março deste ano. Ou seja, uma parte importante das queixas são falsas. E os meios da polícia são colocados ao serviço da investigação da denúncia sem qualquer utilidade prática. Ao mesmo tempo que quem simula o crime poderá ser punido por um juiz com uma multa.

"Entre janeiro de 2018 e 23 de março de 2019 tivemos 150 denúncias falsas, são 10% do total de crimes violentos reportados [na área de intervenção da Divisão de Loures]", adianta ao DN o comissário Bruno Pereira, chefe da área operacional desta divisão da PSP.

Este avolumar de situações que se comprovaram não serem reais levaram esta divisão da polícia a optar por tentar especializar elementos na investigação dos casos que lhes chegam, um caminho que está a ser feito. "Temos uma equipa estabilizada que tem vindo a ganhar competências na forma de desconstruir os depoimentos", explica. "Há formas imediatas de se perceber as incongruências da história que a pessoa nos conta. E no fim, depois de conseguirmos desconstruir o que dizem, acabam por assumir a mentira", diz o comissário acrescentando que nos últimos 15 meses já foram feitas mais de duas dezenas de detenções relacionadas com estas falsas denúncias.

Foi o que aconteceu ao estafeta que chegou à Esquadra de Sacavém a dizer que lhe tinham roubado o material que ia entregar na zona. A PSP enviou agentes para o local. Mas estes durante a investigação foram-se apercebendo de que o discurso do homem apresentava contradições. Para piorar a situação um morador negou ter existido qualquer roubo, pois estaria à janela quando o estafeta chegou à rua onde ia fazer a entrega e não viu, segundo a polícia, qualquer grupo a abordar o queixoso. Perante a situação, o homem terá admitido que não se tinha passado nada e acabou presente a um juiz no Tribunal de Loures que lhe aplicou a medida de coação de termo de identidade e residência.

"Desde o início de 2018 a polícia está mais sensível a sinalizar situações destas", conta Bruno Pereira, explicando que a simulação mais detetada é a relacionada com os telemóveis. "Passamos uma declaração de denúncia por crime de roubo e eles [os queixosos] entregam-na nas seguradoras. Para terem acesso ao seguro [que por norma se adquire quando se compra o aparelho] têm de dizer que foi roubado", diz.

A primeira triagem à veracidade da história que a pessoa apresenta é feita nas declarações que presta na esquadra, mas "também temos polícias que num segundo momento investigam este tipo de situação. Já temos elementos com alguma experiência", sublinha o chefe da área operacional da Divisão de Loures.

Os dados conhecidos de simulações dizem respeito à zona de Loures e Odivelas - foi nesta área que a PSP fez esta análise -, não sendo por isso possível saber um total a nível nacional, mas é provável "que ande perto destes dados", reconhece Bruno Pereira.

Certo é que estas situações acabam por ter impacto nas estatísticas da justiça e, até, por "enviesar as políticas de segurança", sublinha.

A imaginação de quem tenta enganar a polícia é grande. Eis mais dois casos: "Fez uma denúncia à GNR do furto do telemóvel e depois percebeu que a seguradora não a ia ressarcir. Então decidiu apresentar na PSP uma queixa por roubo pensando que não havia troca de informações entre as duas entidades. Não teve sorte" ou "Houve uma pessoa que levava dinheiro de uma empresa para depositar no banco e então decidiu simular um roubo para ficar com o dinheiro, que dividiria com o cúmplice". Nenhum teve sorte.

Quanto à moldura penal, por norma quem nunca tenha cometido um crime acaba por ver o processo suspenso, porém, o Código Penal prevê para a simulação uma pena que pode ser de um ano de prisão ou multa até 120 dias (artigo 366) a que pode acrescer no caso do falso testemunho numa pena de prisão de 6 meses a três anos ou pena de multa não inferior a 60 dias.

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