80 anos depois da invasão, Polónia mantém tensões com Alemanha e Rússia

Cada vez mais alinhada com Washington, Varsóvia continua com relações geladas com Moscovo e cada vez mais frias com Berlim (e Bruxelas). Aos alemães, polacos exigem reparações de guerra.

Numa direção cada vez mais conservadora e nacionalista, a Polónia comemora neste domingo o octogésimo aniversário do início da invasão das tropas nazis com o governo a levar as cerimónias para a capital devido a divergências com a autarquia de Gdansk e tensões com os países invasores.

As cerimónias iniciam-se de manhã em Wielun, na província de Lodz, a primeira cidade a ser bombardeada pela Luftwaffe, com a presença do presidente polaco Andrzej Duda e do homólogo alemão Frank-Walter Steinmeier. À tarde, as cerimónias principais decorrem na Praça Pilsudski, em Varsóvia, junto ao monumento ao soldado desconhecido, perante delegações de 40 países. Portugal está representado pelo ex-Presidente da República Ramalho Eanes.

Aos discursos de Duda e de Steinmeier junta-se o de Mike Pence. O vice-presidente dos EUA foi enviado em representação de Donald Trump, que anulou a sua viagem, tendo alegado a gravidade do furacão Dorian.

EUA sobre rodas

Se o cancelamento da viagem de Trump representa uma desilusão para os conservadores polacos, as relações entre os dois países parecem estar ao melhor nível. Em junho, o presidente dos EUA anunciou o reforço de mil soldados na Polónia, que até então tinha uma presença de 4500 militares em rotação, bem como a colocação de um esquadrão de drones com o objetivos de recolha de informações.

Durante a visita de Duda à Casa Branca, o presidente polaco mostrou interesse em acolher forças de operações especiais e foi anunciada a compra de aviões de caça F-35 aos EUA. Na operação de charme, os polacos fizeram saber que a base das tropas norte-americanas poderia ter o nome de Forte Trump.

Na véspera da visita de Mike Pence, o ministro da Defesa do país, Mariusz Blaszczak, anunciou que os países concordaram em seis locais para a colocação de novas tropas dos EUA.

"A Polónia tem sido um parceiro excecional dos EUA e da NATO, gastando mais de 2% do PIB na defesa", disse o conselheiro de segurança nacional dos EUA, John Bolton, ao lado de Blaszczak. Disse também que a visita de Trump será agendada o mais rapidamente possível.

Além das declarações sobre cooperação militar, os polacos esperam novidades na cooperação energética e tecnológica e flexibilização para a requisição de visto para os EUA.

O governo polaco deverá assinar um acordo com Washington sobre segurança e cooperação em relação à tecnologia de telecomunicações 5G. O acordo resulta de meses de lóbi por parte dos Estados Unidos para que Varsóvia (bem como outros governos europeus), por razões de segurança, não faça acordos com a chinesa Huawei, a maior fabricante de equipamentos de telecomunicações do mundo e líder da geração de redes móveis 5G. A Polónia propôs em julho reforçar as suas próprias normas de cibersegurança e poderá proibir certos produtos ou fornecedores de partes essenciais de uma futura rede 5G.

Rússia de fora

As autoridades polacas não convidaram a Rússia, que, 17 dias depois da invasão nazi, enviou o Exército Vermelho para a Polónia pelo flanco oriental, materializando uma cláusula do pacto de não agressão entre nazis e soviéticos, o infame Molotov-Ribbentrop. No final da guerra, a Polónia - que perdeu pelo menos 5,5 milhões de pessoas durante a ocupação nazi e cerca de 150 mil pessoas sob o jugo soviético - ficou sob a alçada de Moscovo. Prova de que as feridas não estão saradas, em 2015 o embaixador russo em Varsóvia acusou a Polónia de ser responsável pelo início do conflito: "A política polaca levou ao desastre em setembro de 1939 porque durante os anos 30 a Polónia bloqueou repetidamente a formação de uma coligação contra a Alemanha de Hitler. Portanto, a Polónia foi em parte responsável pelo sucedido", disse Sergei Andreev.

Ao saber que a Rússia não iria fazer parte dos países convidados, em março o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo mostrou a sua "perplexidade" e acusou as autoridades polacas de ignorarem a "lógica histórica".

Mas, se não há propriamente uma alteração no sentido das relações com os russos, com os alemães há uma renovada frente de tensão, ao exigir milhares de milhões de euros em reparações de guerra.

A Polónia tem uma fronteira no nordeste com o enclave russo de Kalininegrado, onde Moscovo colocou mísseis Iskander com capacidade nuclear.

Reparações em causa

Varsóvia e Berlim pareciam ter encerrado as suas disputas da II Guerra Mundial há muitos anos. Mas a chegada dos conservadores nacionalistas e iliberais ao poder, em 2015, representou uma rutura com o passado recente. O discurso do Partido Lei e Justiça (PiS, na sigla em polaco) assenta no ceticismo em relação à UE e à Alemanha

"A Polónia ainda não recebeu uma indemnização adequada. Perdemos seis milhões de pessoas na II Guerra Mundial - muito mais do que outros Estados que receberam grandes reparações. Isso não é justo", disse na semana passada o primeiro-ministro polaco, Mateusz Morawiecki.

A questão voltou ao debate público em 2017 pela voz do presidente do PiS, Jaroslaw Kaczynski (considerado o líder de facto do país). Um relatório polaco datado de 1947 estimava as reparações num valor que traduzido para os atuais significa 850 mil milhões de dólares. "Tantos anos após o fim da guerra, a Alemanha não refletiu sobre o seu passado, pensando mais em proteger a estabilidade do seu orçamento do que em observar as regras democráticas do Estado de direito e em respeitar os direitos humanos", disse à AFP o deputado Arkadius Mularczyk, presidente de uma comissão parlamentar encarregada de avaliar os danos a serem compensados.

Os polacos parecem estar divididos. Para Tadeusz Sierandt, testemunha dos bombardeamentos em Wielun, no dia 1 de setembro de 1939, o caso foi encerrado com a decisão das grandes potências de conceder à Polónia cerca de 100 mil quilómetros quadrados no norte e no oeste do país, à custa da Alemanha (embora tenha perdido cerca de 175 mil km² de território no leste para a União Soviética). "Eu ficaria satisfeito com esses territórios recuperados em 1945", disse o homem de 88 anos à AFP.

À mesma agência, o historiador Tadeusz Olejnik, residente em Wielun, disse que reivindicar reparações permanece "moralmente justificado".

Berlim, que reconhece a responsabilidade pelas atrocidades da guerra, rejeita novos pedidos de reparação, uma vez que a Polónia renunciou em 1953 a reparações por parte da então República Democrática Alemã e, além disso, a questão ficou encerrada em definitivo no Tratado 2+4, em 1990, que iria abrir caminho para a reunificação alemã.

No entanto, para o deputado Mularczyk, a ausência de reparações é um sinal perigoso e que dá terreno a discursos revisionistas. "Como a questão não foi resolvida, leva a uma relativização do papel desempenhado pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial", diz. A Alternativa para a Alemanha (AfD, de extrema-direita) tem no seu líder, Alexander Gauland, um defensor "orgulhoso das conquistas dos soldados alemães durante as duas guerras mundiais".

A Polónia não abriu a discussão das reparações à Rússia.

A outra batalha de Gdansk

As comemorações do início da II Guerra na Europa sempre se realizaram na península de Westerplatte, em Gdansk. Um local icónico, o da primeira batalha entre alemães e polacos, e no qual dezenas de soldados aguentaram durante sete dias o cerco das forças nazis. Mas neste ano o governo decidiu levar as comemorações para Wielun e para Varsóvia. Mais um capítulo do conflito com a autarquia de Gdansk, dirigida desde março por Aleksandra Dulkiewicz, da Plataforma Cívica.

A cidade portuária, berço do sindicato Solidariedade, que derrubou o regime comunista nos anos 80 e é hoje uma das cidades mais liberais da Polónia, tem sido alvo de tensões com o governo. No ano passado, o executivo decidiu cortar o subsídio estatal a um museu comemorativo do Solidariedade, tendo alegado que este se tornou demasiado alinhado com os políticos da oposição.

Agora, o PiS acusa a Câmara de Gdansk de deixar o monumento de granito de Westerplatte e a sua envolvente em degradação. No mês passado, PiS apresentou legislação no Parlamento para transferir a supervisão da área para o governo central, onde pretende construir um museu. "Depois de 1989, aquilo a que chamamos a política da memória ou da história foi muito negligenciado. Não havia nenhuma ferramenta, capacidade ou desejo de carregar este símbolo", disse Karol Nawrocki, historiador nomeado pelo PiS para gerir o futuro museu.

Para a autarca de Gdansk, o que o partido governamental está a fazer é passar "uma mensagem que está a ser usada para influenciar os eleitores", quando se aproximam eleições legislativas (13 de outubro). "Oitenta anos após o início da II Guerra Mundial, queremos glorificar a guerra ou queremos pensar sobre como ter relações pacíficas no futuro?" A resposta da própria: "Devemos construir relações entre as pessoas, entre as sociedades, para evitar a guerra."

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Maria Antónia de Almeida Santos

Uma opinião sustentável

De um ponto de vista global e a nível histórico, poucos conceitos têm sido tão úteis e operativos como o do desenvolvimento sustentável. Trouxe-nos a noção do sistémico, no sentido em que cimentou a ideia de que as ações, individuais ou em grupo, têm reflexo no conjunto de todos. Semeou também a consciência do "sustentável" como algo capaz de suprir as necessidades do presente sem comprometer o futuro do planeta. Na sequência, surgiu também o pressuposto de que a diversidade cultural é tão importante como a biodiversidade e, hoje, a pobreza no mundo, a inclusão, a demografia e a migração entram na ordem do dia da discussão mundial.