O debate interno do PSD tem processos judiciais e ameaças "com um tijolo nos cornos"

O processo judicial do partido contra o ex-candidato à câmara é o último detalhe numa história longa: há difamações, perfis falsos no Facebook, blogues anónimos, ameaças de agressões. E há Carlos Pinto, que foi vice de Cavaco, condenado pela justiça, e que agora foi expulso do partido, e já está na Aliança de Santana Lopes.

Há momentos em que parece mais fácil subir à Torre da serra da Estrela em bicicleta do que explicar o que se passa no PSD da sede do concelho, a Covilhã. De hegemónico na maioria das eleições autárquicas, em poucos anos, o partido tornou-se uma força secundária, sem eleitos na câmara.

A guerra interna, essa, é épica. Nesta sexta-feira, o i noticiou que a direção de Rui Rio processou o seu candidato autárquico de 2017, Marco Baptista, para o responsabilizar por uma verba gasta na campanha, superior à que estava orçamentada. O DN sabe, também, que o partido exige uma indemnização por "danos morais", já incluída nos 87 066 euros que constam na queixa judicial apresentada nesta semana.

Este é apenas um pequeno detalhe numa história mais complexa. Depois de ter perdido as eleições, com 7% dos votos, Baptista terá, alega o Ministério Público, desviado ilegalmente 115 mil euros da Rede das Judiarias, onde era consultor. Mais tarde, acrescenta o Jornal do Fundão, esteve "internado na unidade de psiquiatria do hospital da Guarda". Agora é arguido nos dois processos, o do alegado desvio de verbas, e o que o PSD lhe moveu para recuperar o dinheiro gasto na campanha.

O tijolo

Se esta já seria uma história difícil de explicar, ela é apenas o último capítulo. João Esgalhado foi vereador do PSD, durante 16 anos. Esteve sempre ao lado de Carlos Pinto, o homem que liderou a câmara durante 20 anos e foi vice-presidente de Cavaco Silva no partido. Agora estão de relações cortadas, desde que Pinto, conta Esgalhado, o "ameaçou com um tijolo nos cornos".

A ameaça foi revelada em tribunal, palco, como se vê, de muitos momentos de debate interno do partido. Esgalhado e Pinto foram, aliás, condenados a três anos de prisão, por prevaricação, em 2017. O antigo presidente da câmara responde, ainda, em vários outros processos.

Um deles, em que é acusado de 12 crimes de difamação agravada, cometidos contra o atual presidente da câmara, Vítor Pereira, do PS. O tribunal da Covilhã vai julgar Pinto, que seria o alegado autor de um blogue anónimo - com o ameaçador nome de O Pelourinho -, coisa que o ex-autarca nega, considerando que o processo tem "acusações falsas e maquinações construídas e encomendadas, enviando para julgamento aberrações sem provas".

Há um blogue anónimo. E há, garantem-nos, vários "perfis falsos" que Carlos Pinto usaria no Facebook. Os seus adversários guardam ficheiros que mostram como o ex-autarca entrava em debate, alegadamente consigo próprio, nas redes sociais.

Os vários candidatos do PSD

Fora dos tribunais, na sede do PSD da Covilhã, o ambiente não é mais simples. O atual presidente da comissão política concelhia, Luís Santos, chegou ao cargo em janeiro. Tinha como objetivo unir: "Só um PSD unido pode oferecer um projeto diferente para o concelho da Covilhã."

Mas o passado torna tudo mais difícil... Para quem tenha um olhar supersticioso, não será indiferente que tudo tenha começado no ano 13 deste século. Nas eleições autárquicas de 2013, Carlos Pinto não se podia recandidatar, por ter atingido o limite de mandatos. A concelhia escolheu um candidato. E Pinto escolheu outro. Ambos perderam, para o PS.

Quatro anos depois, o candidato apoiado por Pinto (mas não muito, rezam as críticas), Pedro Farromba, apoiou o CDS. Contra Pinto, que concorreu como independente. E contra o PSD, que candidatou Marco Baptista. Perderam todos, para o PS, de novo.

A ferida estava aberta. E a unidade desejada pela nova concelhia parece quimérica.

"Tranquilidade e calma"

Em 2017, antes das eleições, o CDS, que candidatou Adolfo Mesquita Nunes, sugeriu uma coligação. O PSD lideraria a lista para a câmara, com Pedro Farromba, e o CDS presidiria a Assembleia Municipal. Essa era, na opinião de fontes dos dois partidos, uma forma de tentar impedir a vitória socialista. O PSD local opôs-se. Na direção distrital, de Manuel Frexes, e na nacional - cujo coordenador autárquico era Carlos Carreiras - não houve sinais de que essa podia ser uma boa opção. O PS ganhou com maioria absoluta, Pinto ficou em segundo (18%), o CDS em terceiro (15%) e o PSD em quarto (7%).

Pedro Farromba, do PSD, apoiou Adolfo Mesquita Nunes. Calos Pinto, do PSD, apoiou-se a si próprio. Marcos Baptista, do PSD, é agora acusado pelo partido.

Mais: em 2013 foram expulsos do partido 31 militantes. Neste ano, com Carlos Pinto à cabeça, houve cinco exclusões de militantes das listas internas locais. Todos perderam direitos de voto, a serem eleitos, e a influir na vida do PSD.

Em teoria, pelo menos. "Tranquilidade e calma" é aquilo que os militantes locais mais desejariam que existisse no partido na Covilhã. Mas as cisões, mudanças, guerras, ameaças, tornam tudo mais difícil. "Há muitos egos, muitas pessoas a tentar tomar conta do partido", explica-nos um dirigente local, que pediu para não ser identificado.

A consequência disso é "um afastamento" da elite local - explica o dirigente de outro partido. O PSD, que era o partido dominante no concelho, foi-se "desnatando". Internamente, na concelhia, não falta a consciência de que este processo vai "fragilizando" o partido.

Carlos Pinto já não fará parte dos capítulos futuros desta história. Na carta que enviou a Rui Rio, desfiliando-se (depois de ter sido excluído pelo próprio partido concelhio), acusou: "Hoje, no PSD, as escolhas internas baseiam-se em manobrismo de grupos 'enquistados' e sindicatos de voto, à medida de obedientes seguidores." Pinto foi agraciado, em 2015, com a Ordem do Mérito, pelo Presidente Cavaco Silva. É um dos 154 comendadores desta ordem que, segundo a Presidência, "tem a legenda 'Bem merecer', em letras maiúsculas de ouro". A Ordem quer "galardoar atos ou serviços meritórios praticados no exercício de quaisquer funções, públicas ou privadas, ou que revelem desinteresse ou abnegação em favor da coletividade".

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Henrique Burnay

Discretamente, sem ninguém ver

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