Rio, o CR7 do Pontal, vai chamar os militantes a jogo

O líder do PSD vai vestir neste sábado a camisola 7, simbolicamente a lembrar a de Cristiano Ronaldo, no torneio de futebol da festa do Pontal. No partido esperam que Rio prolongue a posição de médio-ofensivo contra o governo e que mobilize as bases. Será assim?

Paula Sá
Rio diz que Conselho Estratégico Nacional não será um "governo-sombra".

Quem espera que o líder do PSD faça nesta tarde de sábado um típico discurso de rentrée, palavra de que nem gosta, desengane-se. No ano passado, Passos Coelho falou perto de 50 minutos aos militantes e ao país. Rui Rio marca, uma vez mais, a diferença em relação ao antecessor. "Um discurso curtinho, que se enquadra no espírito da festa" é o que tem preparado para o tradicional encontro algarvio do partido. Curtinho ou não, todos estão à espera de que seja o pontapé de saída de mobilização das bases laranja para o ano dos desafios eleitorais.

A passagem pela festa do Algarve é uma espécie de aperitivo para a Universidade de Verão do PSD, que se realiza uma semana depois, entre 3 e 9 de setembro. Será na vila alentejana de Castelo de Vide, segundo o DN apurou, que Rio se prepara para falar mais ao país e anunciar as prioridades para o próximo ano. Mas é pouco provável que este espaço de formação de jovens - que Rio considerou um "bom ícone" do PSD - seja ainda o palco para o líder da oposição apresentar um conjunto mais vasto de propostas alternativas ao governo socialista.

Fontes que lhe são próximas frisam que "esse não é o estilo de Rui Rio", de antecipar decisões ou avançar com propostas avulsas. "O timing ainda é o de discutir o que está mal no país, porque de outro modo são as propostas do PSD que se sujeitam a julgamento e desviam a atenção da governação." E mesmo que esta postura cause nervosismo no partido (e está a causar), e levante os opositores internos, Rui Rio não altera a estratégia que traçou. Nem mesmo em Castelo de Vide vai quebrar e anunciar o voto contra o Orçamento do Estado para 2019, embora já tenha decidido que será essa a posição do PSD.

A mudança de figurino da festa do Pontal também gerou críticas. Rio cortou nos custos da sua organização e desviou-a do litoral algarvio, do calçadão de Quarteira para o parque Fonte Filipe, na aldeia de Querença, Loulé. Voltar ao "espírito genuíno dos anos 70", quando nasceu, foi a justificação. Hoje há piquenique, um torneio de futebol, em que Rio alinha, e várias atividades lúdicas.

O líder da distrital do PSD-Faro, David Santos, a quem foi entregue a organização da festa, aproveitou para comentar ao jornal i a posição em que gostaria de ver Rio jogar politicamente neste sábado: "Penso que, neste momento, do que tem estado a fazer, está um pouco na expectativa do meio-campo, mas acho que, a partir de 1 de setembro, tem de ir jogar ao ataque. Não podemos estar mais ali no meio-campo, na posição de trinco. Temos de ir mais para a frente, a jogar a ponta-de-lança. O nosso objetivo é esse: que a partir de 1 de setembro passe a jogar a ponta-de-lança." O recado não podia ser mais direto e é um eco do que muitos militantes falam dentro do partido.

Vários líderes distritais disseram que iriam estar presentes, como o de Lisboa, Viseu, Leira, Guarda, mas os de Castelo Branco e Setúbal, por exemplo, ficarão nos seus respetivos distritos a participar em festas locais. A direção do partido vai comparecer em peso, mas há dúvidas sobre se muitos deputados, de uma bancada que é pouco alinhada com o presidente do partido, vão dar o ar de sua graça no Algarve. O líder parlamentar, Fernando Negrão, tem a passagem por Querença marcada na sua agenda, tal como o eurodeputado Paulo Rangel. O primeiro até vai jogar no torneio de Futebol 7, que decorre durante a manhã no Ria Park, Vale do Garrão.

O torneio começa logo pelas 10.00 entre quatro equipas. Pelo menos no torneio, o líder do partido jogará na posição em que o líder da distrital de Faro o gostaria de ver. Na equipa da direção, Rui Rio será médio-ofensivo, a número 7 - o mesmo que usa Cristiano Ronaldo -, enquanto o vogal da direção Maló de Abreu será o guarda-redes, replicando a posição do seu irmão, João Maló, na Académica na década de 60.

O secretário-geral José Silvano, o líder parlamentar Fernando Negrão, o vice-presidente Morais Sarmento e os antigos governantes Miguel Poiares Maduro e Carlos Moedas fazem também parte da equipa da direção, que inclui uma mulher, a vogal da Comissão Política Nacional Cláudia André.

Destaque na equipa do Conselho Estratégico Nacional (CEN) para o "guarda-redes" David Justino, que é também vice-presidente do partido, e na dos autarcas de Salvador Malheiro, outro vice do PSD, e do presidente da concelhia e distrital do Porto, Alberto Machado.

Até o árbitro será do PSD: o deputado Rui Silva, que já jogou futebol profissional, terá a responsabilidade de arbitrar os jogos entre os dirigentes nacionais e os membros do CEN, que decorrerá em simultâneo com a disputa entre autarcas e dirigentes algarvios, disputando-se depois os jogos entre os vencedores e os derrotados de ambas as partidas.

Na hora do discurso, pelas 16.30, ainda a mais de seis meses das eleições europeias, Rio também deverá evitar a fórmula usada por Passos para sossegar as bases quanto ao sucesso nas urnas. No seu último discurso, no Pontal, em agosto de 2017, o ex-presidente do PSD afirmava "cá estaremos em 2018".

Passos Coelho deu, desta forma, a garantia aos militantes de que a sua liderança iria sobreviver às eleições autárquicas que se realizaram dois meses depois, em outubro. Mas não sobreviveu. O mau resultado obtido sobretudo em Lisboa, com a lista encabeçada por Teresa Leal Coelho a ficar em quarto lugar na capital, ditaram a sua saída.

Seja como for, a festa do Pontal foi muitas vezes o ponto de encontro dos líderes com as bases. Francisco Sá Carneiro sempre deu valor à festa popular, Cavaco Silva, algarvio de Boliqueime, também dela fez palco político. Quando tomou conta do partido, o Pontal só se realizou porque o agora Presidente da República financiou do seu bolso a festa.

Os que se seguiram, Durão Barroso e Santana Lopes, não lhe deram valor e o encontro dos militantes no Algarve ficou adiado até ao consulado de Marques Mendes. Manuela Ferreira Leite, que também presidiu o partido, nunca lá colocou os pés.