Quase 12% do consumo em Portugal é feito por turistas estrangeiros

No primeiro semestre, os visitantes deixaram na economia 7,7 mil milhões de euros em gastos. Empresas e Estado beneficiam.

Luís Reis Ribeiro
O peso do consumo feito por estrangeiros que estão de visita foi, no primeiro semestre de 2018, o dobro do que acontecia em 2010.© José Carmo/Global Imagens

O consumo das famílias residentes em Portugal foi uma peça decisiva para manter a aceleração da economia portuguesa, que cresceu 2,3% em termos reais no segundo trimestre. Mas a ajuda dos estrangeiros que visitaram o país enquanto turistas foi a mais importante de que há registo nas séries estatísticas do consumo privado.

Esse contributo vindo de fora para a economia nacional é cada vez mais importante para a atividade das empresas e coleta fiscal do Estado: o consumo final realizado no território por não residentes, os tais turistas estrangeiros, ascendeu a mais de quatro mil milhões de euros no segundo trimestre (7,7 mil milhões de euros no primeiro semestre, mais 15% do que há um ano), indicam números disponibilizados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

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Significa que 11,7% do consumo final dentro das fronteiras portuguesas na primeira metade do ano é feito por esses estrangeiros, naquela que é a maior proporção de que há registo nas séries do INE que remontam ao início de 1995. O peso do consumo feito por estrangeiros que estão de visita foi, no primeiro semestre de 2018, o dobro do que acontecia em 2010, antes de o país entrar na bancarrota e do boom do turismo, que começa justamente nessa altura, apoiado no embaratecimento e desvalorização da economia, ou seja, nos cortes salariais.

O INE reconhece que a economia como um todo está a beneficiar dessa canalização do poder de compra dos estrangeiros.

11,7% do consumo final dentro das fronteiras portuguesas na primeira metade do ano é feito por estrangeiros

Embora o consumo dos turistas não se reflita no consumo final (porque o que conta para as contas é o dos residentes nacionais e estrangeiros), ele acaba por puxar por outros agregados da economia. É o caso do valor acrescentado das empresas que faturam necessariamente mais e da receita fiscal (no alojamento, nas idas a restaurantes, nos transportes que utilizam internamente). Os turistas pagam IVA, por exemplo.

O INE observa que, "no 2.º trimestre, o consumo privado de residentes acelerou em volume, passando de um crescimento homólogo de 2,1%, no 1.º trimestre, para 2,6%". Mas acrescenta que "o consumo privado na ótica do território continuou a registar crescimentos mais intensos (3,4%) que o consumo de residentes, em resultado do comportamento das despesas efetuadas em Portugal por não residentes (turistas)".

Deflacionando os dados, isto é, analisando as evoluções reais homólogas, torna-se evidente que desde o início de 2010 que o consumo dos turistas estrangeiros cresce significativamente acima do consumo das famílias residentes, trimestre após trimestre. Entre abril e junho, os residentes consumiram mais 2,6% face a igual período do ano passado. O consumo dos visitantes estrangeiros subiu quase 11%, estando a crescer a dois dígitos desde 2016.

Analisando os dados a preços correntes, percebe-se que os visitantes gastaram mais mil milhões de euros neste primeiro semestre, mas os residentes nacionais também ajudaram, com mais dois mil milhões de euros em consumo: mais 277 milhões em bens duradouros (onde estão os carros e eletrodomésticos) e mais 254 milhões em alimentação.

Mas em termos reais homólogos percebe-se que a subida mais relevante foi mesmo nos bens duradouros, cujo consumo disparou 8,8%, bem acima dos 1,1% nas compras de alimentos. "As despesas em bens duradouros aceleraram para uma variação homóloga de 8,8% (2,6% no 1.º trimestre) devido em larga medida ao aumento verificado na componente automóvel", explicou o INE.