Mourinho, o amor milanês, o toque de Midas e a "figura enfraquecida"

Técnico português está frágil no Manchester United. Jornalistas dos três países por onde o Special One passou analisam a situação, o futebol, as maneiras, o futuro e as fraquezas do treinador português. Ontem, Mourinho disse ser "um dos melhores do mundo".

Rui Salvador
© Reuters/Andrew Yates

Depois de consumado o pior arranque de sempre de José Mourinho num campeonato, contando inclusivamente quando pegou em equipas já com a época a decorrer (Benfica e FC Porto), o treinador português protagonizou aquela é que provavelmente a conferência de imprensa mais polémica desde que chegou a Manchester. A derrota minutos antes com o Tottenham, por 0-3, marcou também o pior desaire caseiro de Mou, que terminou a pedir respeito aos jornalistas e a relembrar que os seus três títulos de Premier League são mais do que os conquistados pelos restantes 19 managers da liga inglesa. Amanhã, o Manchester United desloca-se ao terreno do Burnley num encontro que poderá definir em muito a época da equipa orientada por Mourinho, que ontem, na antevisão, afirmou que é e será um dos "melhores do mundo".

A entrar na terceira época ao serviço dos red devils, temporada que costuma ser de má sorte para o português, muito se tem questionado o trabalho de José Mourinho, as escolhas de jogadores, uma possível ausência de qualidade dos mesmos. Os fatores e as opiniões variam muito, mas a verdade é que o United não vence a Premier League desde 2013 (ainda com Alex Ferguson) e o Special One parece estar a perder margem de manobra, e mais concretamente demasiados pontos já no arranque, para destronar rivais como o Manchester City, o Liverpool, o Chelsea, e até uma equipa (de qualidade) como o Tottenham.

A verdade é que, tirando a viagem de Milão, depois do sucesso no Inter, para Madrid, as saídas de Mourinho raramente foram pacíficas. Assim como também nunca foi pacífica a sua relação com a imprensa. Para medir o pulso à situação, o DN falou com três jornalistas - de Inglaterra, Itália e Espanha - para ouvir não só opiniões especializadas e mais próximas dos contextos que Mourinho viveu, mas também se encontram semelhanças nas histórias do treinador português.

Ciaran Kelly, jornalista do Manchester Evening News que escreve sobre os dois grandes de Manchester, e tem inclusivamente um livro sobre José Mourinho lançado em 2013 (José Mourinho: The Rise of the Translator). "A conferência de imprensa [depois da derrota com o Tottenham] não foi uma grande surpresa. Infelizmente, é o Mourinho moderno, constantemente a recordar a imprensa dos seus feitos do passado", começa por dizer Ciaran Kelly, acrescentando que o momento "não foi bonito de se ver". "No entanto, é escusado dizer que ele é muito diferente com os jogadores nos bastidores", acrescenta.

E, em Manchester, os adeptos querem mais Mourinho? Depende, porque temos de dividir os adeptos online dos que vão ao estádio. "Uma parte dos adeptos, principalmente online, estão inclinados para Zinedine Zidane, mas a maioria das pessoas que vão aos jogos apoiam José Mourinho. Ele tem crédito devido ao que conseguiu até agora no clube", acrescenta o britânico.

Não é novidade que Mourinho não está totalmente satisfeito com o plantel que tem, até porque "queria cinco jogadores e só teve três". "Mourinho tem de conseguir com o que tem e tirar mais de jogadores como Bailly, Pogba, Martial e Alexis. É o seu grande desafio mas os jogadores também têm de assumir a responsabilidade", frisou Ciaran Kelly.

Estando os donos do clube mais preocupados com a Liga dos Campeões e o preço das ações do clube na Bolsa de Nova Iorque, como explica também o jornalista, "não está nos planos do clube despedir Mourinho".

Para os jogadores, "Mourinho ainda é uma figura popular, mas tem de provar que o toque de Midas não o abandonou". "É um homem que costumava 'prever' o resultado dos jogos", concluiu.

Santiago Segurola, experiente jornalista espanhol, refere, relativamente aos problemas do Manchester United, que o clube sente uma "nostalgia invencível pelo seu ex-treinador [Alex Ferguson]" e que a escolha de Mourinho, depois dos falhanços de Moyes e Van Gaal, é "contraditória", até porque adeptos e jogadores mais experientes do clube de Manchester achavam o português "divisivo e egocêntrico". Outro problema, segundo Segurola, é o tipo de jogo que Mourinho apresenta: "Hermético, militarizado e defensivo." "Em grandes ocasiões, Mourinho optou invariavelmente pela fórmula conservadora", refere ainda.

Sobre as épocas de Mourinho no Real Madrid, onde conseguiu um título de campeão, na famosa época dos cem pontos, o jornalista espanhol refere que o português perdeu o estatuo de "infalível" e se tornou "inseguro e vulnerável".

Sobre a conferência de imprensa pós-Tottenham, afirma que não é "nada de novo", apesar de "lamentável". "Ele pareceu o Mourinho de sempre, um dos mais desrespeitadores para com colegas e jornalistas na história do futebol."

"Parece-me que este Mourinho é consequência do Mourinho que deixou Espanha, onde foi idolatrado pelos setores mais ultra do Real Madrid, mas com críticas da maioria dos adeptos do clube e do futebol espanhol em geral. Nunca se distinguiu pelas suas contribuições táticas, perdeu frescura, dividiu o clube e os adeptos e não lidou bem com as críticas da imprensa. Deixou Espanha com menos crédito profissional do que quando chegou", assegura Santiago Segurola.

Acrescenta que os adeptos mais fervorosos, e também alguma imprensa, adoram Mourinho, "mas não pelo sentido futebolístico de forma estrita". "Os ultras adoram-no porque o consideram um deles", afirma. Diz também que a figura poderosa de Mourinho caiu, e que é agora uma "figura enfraquecida", que os jogadores "temem, mas na qual não acreditam". "Mourinho tem-se caracterizado por um sentido militar no futebol, um discurso demagógico mas maduro, uma energia que começa a abandonar e uma inabilidade patológica de assumir as suas responsabilidades na derrota", conclui.

Andrea Ramazzotti, jornalista italiano do Corriere dello Sport que escreve sobre o Inter, assegura que em Milão, de onde afinal Mourinho saiu de forma não tão polémica como em outros clubes, os adeptos "ainda acompanham e adoram Mourinho". "Têm uma relação muito forte", garante.

Sobre as conferências de imprensa, e também as houve polémicas em Itália com o português, admite, refere que "é uma maneira de trabalhar de Mourinho", "focando a atenção nele e justificando assim as coisas". Assim, "toda a gente perguntaria sobre opções durante o jogo".

Sobre a ida para Madrid, depois de uma Champions conquistada pelo Inter, o jornalista italiano diz que, em Milão, "Mourinho percebeu que tinha finalizado o que começou e ir para Madrid era um grande desafio". "Mourinho tinha uma grande relação com Moratti [à altura presidente do clube]", sublinha.

Sobre o pior começo de época de Mourinho, Andrea Ramazzotti diz que "é impossível dizer de quem é a culpa". "Não é um bom princípio para o Manchester United e para Mourinho e a sua história. Percebo que ele não esteja contente com o que o clube fez no mercado e não terá os jogadores que quer. Tem muitos problemas na defesa", finalizou.

Em antevisão à partida com o Burnley, no primeiro encontro com os jornalistas pós-pedido de respeito, José Mourinho afirmou perentoriamente que é e será "um dos melhores treinadores do mundo", mesmo que nunca ganhe um título da Premier League à frente do Manchester United. Para o treinador português, a época passada, em que o Manchester United ficou em 2.º atrás do City de Guardiola, foi um dos seus "maiores feitos".

Citou ainda, dentro do mesmo tema, o filósofo alemão Georg Hegel (viveu entre 1770 e 1831): "Alguma vez perderam tempo a ler o filósofo Hegel? Ele disse: 'A verdade está no todo. É sempre no todo que está a verdade.'"

"Tive grande sucesso na época passada e é isso provavelmente que vocês não querem admitir. Há duas épocas tivemos uma época fantástica porque ganhámos a Liga Europa e ganhámos porque era do nosso nível. Fomos a última equipa em Inglaterra a ganhar uma competição europeia. Já ganhei oito títulos, sou o único treinador que ganhou em Itália, Espanha e Inglaterra. E não foram pequenos títulos, mas títulos decentes, e o segundo lugar da época passada foi um dos meus maiores feitos no futebol", disparou ainda Mourinho, defendendo mais uma vez o seu currículo e o trabalho aos comandos do Manchester United.

Ainda numa espécie de discussão com a imprensa, José Mourinho questionou: "Também perguntam estas coisas ao treinador que acabou em terceiro na Premier League? Ou ao treinador que acabou em quarto ou quinto?"

A verdade é que amanhã, no terreno do Burnley (que tem apenas um ponto em três jogos), não se esperam facilidades para o Manchester United e, mesmo que sejam apenas rumores, a posição de Mourinho não ficará certamente fortalecida caso o resultado não seja uma vitória.