"Já levou a vacina?" Quando os militares da GNR se tornam família de quem está só

Durante o mês de outubro, a GNR fez o recenseamento dos idosos que vivem sozinhos e/ou isolados. No ano passado encontrou 45 mil. O DN acompanhou uma das visitas dos militares que quase fazem parte da família e que se preocupam com as suas necessidades.

"Há uma p*** de uma gata prenha que anda sempre à procura de gatos. São o diabo que anda por aí." A D. Aurora está na varanda da sua casa, encostada à canadiana que por estes dias é a sua mais fiel companhia, e não mede as palavras. Nem se importa com isso.

Aurora tem apenas como companhia, na casa isolada onde vive, os gatos de quem diz tanto mal, mas aos quais não nega comida e água. E que por isso não lhe deixam a porta.

Vizinhos não tem e visitas são poucas. Apenas as enfermeiras - regularmente vão mudar-lhe os pensos que tem a cobrir as feridas nas pernas - e uma outra pessoa que uma vez por mês a acompanha nas compras.

Mas a visita desta tarde fria e ventosa de outono que a faz falar quase ininterruptamente é a dos guardas da GNR. Estes fazem a ronda pelas casas dos idosos referenciados como vivendo sozinhos ou a precisar de um maior acompanhamento numa forma de vigilância que transmite segurança às populações mais desfavorecidas e que vivem em locais remotos.

É uma missão de muitos anos e que tem vindo a ganhar importância nas funções da Guarda Nacional Republicana, visitas que ajudam a recolher dados para o Censos Sénior, trabalho estatístico da Guarda que permite saber quantos idosos existem na sua área de influência a viver sozinhos e/ou isolados.

Este levantamento, que existe desde 2011, aconteceu durante o mês de outubro e os dados só estarão disponíveis a meio de novembro, nessa altura será possível comparar com os números da edição de 2017 e perceber se há mais idosos a viver sozinhos em Portugal.

Nesse ano, os militares detetaram 45 516 idosos em situações de isolamento ou sozinhos, com o maior número destes casos a existirem nos distritos de Beja (1430), Vila Real (1390) e Faro (1370).

"Já levou a vacina da gripe?"

Os elementos da GNR são em muitos casos as visitas mais regulares que estas pessoas recebem. Com eles falam sobre as suas dificuldades e com eles tentam encontrar soluções.

Marcos Baptista é um desses elementos. Faz parte da prevenção criminal e policiamento comunitário de Vila Franca de Xira e com dois outros elementos (os militares Ribeiro e Teixeira) vai seguindo os 87 idosos referenciados na sua área de intervenção.

Nas visitas procuram perceber os problemas que estas pessoas enfrentam, tentam minimizar a solidão de muitos e, ao mesmo tempo, deixam alertas para a possibilidade de surgirem "visitantes" a tentar enganar os idosos.

Guardas e "protegidos" têm os respetivos contactos e há quem utilize ao pescoço um fio com o aparelho de teleassistência. Um dispositivo que serve para alertar os serviços de emergência seja num caso de queda ou de suspeitas sobre pessoas que rondam as casas.

O conhecimento que têm uns dos outros faz com que exista um grande à-vontade no contacto. É por isso que Marcos Baptista sabe dos problemas de saúde de cada uma das pessoas que visita, das suas necessidades e até das questões familiares que muitos enfrentam.

E é por isso, também, que se preocupa. Um exemplo: "Já recebeu a vacina para a gripe?", não se esqueceu de perguntar às pessoas que visitou na segunda-feira.

Um trabalho que, afiança, tem dado frutos. "As pessoas estão mais alertas, mais informadas. Também fazemos sessões de esclarecimentos em centros de dia", explica.

"Vou ficar linda"

Voltemos então a Aurora. Assim que se apercebeu da chegada do carros da Guarda surgiu à varanda que faz a ligação entre a casa e o terreno a precisar de cuidados que circunda a habitação. Mora em Arruda dos Vinhos, numa zona alta e muito ventosa. Não tem vizinhos por perto e, por isso, a chegada dos militares surge como a oportunidade para fazer conversa.

Conversar parece ser uma das especialidades desta natural de São Pedro do Sul, cidade da região de Viseu onde não vai "há muitos anos". "A última vez que lá fui, foi com o meu filho, tinha ele 11 anos", conta ao DN.

Falar do filho foi mesmo o único momento em que baixou o tom alegre e sem "papas na língua" que usa. "Ele morreu aos 20 e poucos anos. Era toxicodependente."

Também o marido morreu há muito - "estive casada mais de 50 anos" - depois de ter estado internado nos hospitais de Santa Maria e de Vila Franca de Xira.

Do passado não tem grandes recordações, começando pela relação com o marido - "Era ciumento, vigiava com quem eu falava, agora falo mais" - por isso prefere falar do presente.

E esse passa por continuar na casa modesta que tem, apesar de já ter tido a hipótese de ir para um centro de dia. Hipótese que acabou por não se concretizar por um desencontro que o guarda Marcos Baptista frisa já estar ultrapassado.

"A doutora lá do centro disse-me uma vez para ir lá com roupa bonita e limpinha. Ela viu que eu tinha a roupa. Mas depois fui lá e pediram-me dinheiro adiantado", recorda explicando que recusou depois de saber desta exigência.

Uma situação que os militares estranharam ao ponto de estarem a tentar encontrar um outro local para colocar Aurora. Mas esta não parece estar com vontade de deixar a casa onde mora.

Com uns palavrões pelo meio - "sou do norte", refere como que se justificando das expressões utilizadas -, garante que ali se sente bem. "Aqui estou à vontade, deito-me quando quero, levanto-me quando quero. E pago a água, luz, medicamentos, só para estes são cem euros por mês", diz.

Andar parece ser a única dificuldade que enfrenta, pois as pernas ficaram afetadas na sequência de um acidente e é por isso que semanalmente recebe a visita de enfermeiras que lhe vão mudar os pensos.

"Tenho uma vizinha perto que de vez em quando vem aqui. Ela fala muito, é pior do que eu", adianta quase como justificação para continuar na casa. De onde não sai mesmo após apanhar sustos como aconteceu recentemente.

"Caí, parecia um sapo. Não me consegui levantar, tive de me arrastar como uma cobra até chegar a uma videira onde me agarrei e assim me levantei. Não tinha o colar da teleassistência."

Já à saída não deixou ninguém ir embora sem dar uns beijos de despedida e de posar para a fotografia. Sempre com boa disposição: "Vou ficar linda."

"Sou coxa, mas se houvesse bailarico ia"

A uns quilómetros de distância vive o casal Maria e Manuel Alves. Também estão isolados, há uns anos foram assaltados e agora não dispensam as visitas dos militares da Guarda. Têm um filho e dois netos e se o primeiro agora está mais perto - é professor e foi colocado na Abrigada (Alenquer) - as crianças moram em Coimbra com a mãe e só veem os avós uma vez por mês. É um momento de alegria em casa. "São a luz dos meus olhos", garante, sorridente, Maria.

Desde o furto na casa que o casal está sinalizado pela GNR e essa relação foi ganhando importância na sua vida ao ponto de saberem de situações pessoais uns dos outros.

Tal como Aurora, Maria também é muito faladora e não esconde o receio que sentiu no dia em que "estava a comer a minha sopinha e o ladrão andava aqui dentro. Ele viu-me, mas eu não o vi".

Estão casados há 52 anos, moram nesta região há mais de 50, e são ambos de Trás-os-Montes: ele de Alijó e ela de Torre de Moncorvo. O casal irradia simpatia: durante todo o tempo em que estivemos na casa modesta onde vivem, situada num terreno onde se passeiam alguns cães - que de guarda têm pouco pois um esteve sempre refugiado na casota - ofereceram o almoço, café, bebidas e foram insistindo mesmo quando já estávamos na rua.

Maria também anda de canadiana. Aos 81 anos, as artroses não lhe dão grande mobilidade para sua grande pena. "Estou coxa, mas, se houvesse um bailarico lá em baixo, ia. Ainda ando, ainda ontem [domingo] fui à missa. O Manel é que nem um café quer ir tomar", diz.

Uma provocação a que o marido responde: "Gosto de ir ao café para conversar, mas cada um está na sua vida. Por isso bebo em casa."

Na despedida há também uma ronda de beijos e de garantias que tudo está bem - incluindo a vacina da gripe, uma das preocupações dos militares. Vêm até à porta, garantindo que devíamos almoçar - "hoje é carne" - e pedindo para voltarmos. O que no caso da equipa da GNR acontecerá brevemente.

Um adeus com nova oferta de café, recusada, tal como a feita por Aurora algum tempo antes. Neste caso, queria que os militares levassem folhas de louro e com uma explicação simples: "Levem louro que elas [as mulheres dos Guardas] gostam de o pôr na comida."

Fica para a próxima.

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