Eletricidade para os carros já é paga. O que ganham as empresas que a vendem?

Uns vão cobrar por kWh abastecido, outros por minuto de carregamento. Uns vão gastar milhões na expansão da rede por todo o país, enquanto outros querem os carros ligados à tomada de casa. Conheça as estratégias dos comercializadores de eletricidade para a mobilidade elétrica nesta nova fase de mercado.

A partir de hoje, 1 de novembro, os carregamentos de veículos elétricos nos postos rápidos da rede pública Mobi.E passam finalmente a ser pagos, depois de sucessivos adiamentos do governo para pôr em marcha a fase de mercado que era há muito reclamada tanto pelos utilizadores como pelas empresas que até agora forneciam a eletricidade de forma gratuita.

Os tarifários para a eletricidade que vai abastecer os carros elétricos já são conhecidos, mas da parte dos utilizadores persistem ainda algumas dúvidas sobre os valores das faturas que vão começar a receber em casa a partir de agora. A Associação de Utilizadores de Veículos Elétricos (UVE) fez as contas e concluiu que 3,20 euros é o preço mais barato e 9,88 euros o mais caro, a partir de hoje, para um carregamento rápido de 30 minutos (consumo médio de 15 kWh/100 km, em tarifa bi-horária). Preços à parte, os três maiores comercializadores - EDP, Galp e Prio - revelam as suas estratégias para a nova fase de mercado.

EDP aposta nos carregamentos em casa e nas frotas empresariais

Com uma carteira de 81% dos clientes no mercado liberalizado de eletricidade, a EDP Comercial está agora de olho também no segmento da mobilidade elétrica e surge com um preço de 23 cêntimos por kWh, com descontos de 25% sobre este valor para os clientes que já tenham eletricidade ou gás da empresa em casa. Para estes há também a oferta de 1500 kWh para usar nos veículos elétricos até 30 de abril.

"Fizemos um esforço para dar competitividade tanto à tarifa de comercializador como de operador de posto de carregamento, para dinamizar o mercado", disse ao DN/Dinheiro Vivo António Coutinho, administrador da EDP. Na sua opinião, ter a esmagadora maioria dos clientes de eletricidade não é garantia de nada. "Se eu não fizer bem o meu trabalho posso perder o cliente na mobilidade e em casa. Em mercado, o pior erro é achar que os clientes estão cativos."

A empresa já fez contas e garante, tal como a UVE, que a opção mais barata é carregar o carro em casa e não na rede pública. "Se optarem pela solução EDP Wallbox, que tem um custo mensal de 12,9 euros, os clientes podem conseguir poupar 36% face aos carregamentos elétricos fora de casa", disse fonte oficial.

A EDP acredita, por isso, que a maior parte dos carregamentos se vai realizar em espaços privados "O carro vai ser como um telemóvel. Chego a casa e ponho-o a carregar", diz o administrador. Neste contexto, e além da solução doméstica já existente (um carregador dinâmico que ajusta a potência contratada ao consumo no momento), a empresa está a desenvolver um novo sistema para carregamentos em condomínios ou empresas com frotas elétricas, com acerto automático de contas, que será lançado no mercado no primeiro trimestre de 2019.

Quanto à Mobi.E, António Coutinho refere que "vai ter papel importante para as pessoas que não têm garagem ou não podem carregar em casa ou no trabalho". A EDP tem neste momento oito postos de carregamento rápido (50 kWh) inseridos na rede pública, com 16 "tomadas" no total, aos quais se somam mais dois postos em Lisboa que marcaram o lançamento de uma rede privada pensada especialmente para frotas (e-hubs).

É por aqui também que a EDP quer investir, já que as empresas têm frotas maiores e que andam mais quilómetros. "Ao passarem para carros elétricos as empresas poupam combustível e gastam na eletricidade. Temos todo o interesse nisso", diz António Coutinho.

Sem precisar valores, o administrador diz que com a entrada na fase de mercado a EDP tem investimento disponível para a mobilidade elétrica, seja por via de mais carregadores rápidos na Mobi.E, mais e-hubs para frotas ou mais pontos domésticos. "Quem dará a resposta é o mercado. O investimento vai ser direcionado para a melhor aposta", garante.

Galp promete "plano de expansão ambicioso"

Para a Galp, a entrada em fase de mercado na mobilidade elétrica assumiu especial importância: a empresa foi a primeira a divulgar os seus tarifários, logo a 15 de outubro, e a única, para já, a lançar uma campanha de publicidade com presença na rádio, imprensa, outdoor e digital, sob o mote: "Quem anda à velocidade da luz merece tudo."

Os preços da Galp para a eletricidade vendida nos postos de carregamento rápido oscilam entre os 13 e os 19 cêntimos/kWh e incluem um desconto de 20% no preço da eletricidade para quem aderir até 31 de dezembro. Para quem já seja cliente da Galp em casa, a empresa vai oferecer a energia consumida em qualquer ponto de carregamento durante seis meses, até 30 de abril de 2019.

"O que a Galp lançou foi o primeiro plano verdadeiramente integrado para a mobilidade, incluindo uma série de condições preferenciais para os clientes que tenham eletricidade da Galp nas suas residências. Estes vão ter descontos e energia gratuita na rede pública de carregamento rápido nos próximos seis meses. A nossa preocupação é a de combinar os serviços que oferecemos, e que vão desde a mobilidade - incluindo combustíveis líquidos - aos diversos tipos de energia que utilizamos nas nossas casas", explicou Diogo Almeida, da estratégia corporativa da Galp.

A empresa tem "um plano de expansão ambicioso" para a mobilidade elétrica nesta fase de mercado, garante, "mas o seu roll-out depende de fatores externos, como o ritmo de crescimento do mercado ou a rapidez nos licenciamentos".

Com 18 pontos de carregamento, que representam um terço da rede pública de carregamento rápido, a Galp opera a maior rede de pontos de carregamento rápido do país. "Pretendemos continuar a liderar neste setor e esta nova fase começa a criar condições para que haja mais investimento na rede pública, imprescindível para criar um círculo virtuoso em que uma malha de rede mais abrangente permita incutir maior confiança nos utilizadores, impulsionando um crescimento mais acelerado do mercado", disse Diogo Almeida ao DN/Dinheiro Vivo.

Neste momento, a Galp está a finalizar a fase de projeto para a instalação de mais 18 carregadores rápidos, reforçando a distribuição nas principais vias rodoviárias e dotando as maiores zonas urbanas do país com este tipo de carregamento. "Contamos no final deste ano já ter alguns destes postos em serviço."

Prio investe um milhão para ter 200 pontos de carregamento rápido

Não sendo comercializador de eletricidade para o mercado residencial, ao contrário da EDP e da Galp, a Prio, neste início de fase de mercado na mobilidade elétrica, optou por oferecer a todos os donos de carros elétricos a taxa de operação dos seus postos de carregamento em novembro e dezembro.

Pela eletricidade para os carros, a Prio cobra entre 6 e 7 cêntimos (sem tarifas de acesso à rede) por cada minuto de carregamento. Luís Martins, administrador da Prio, garante que as primeiras faturas vão provar que "abastecer com cartão Prio Electric em qualquer ponto nacional é sempre mais económico que abastecer com o cartão de qualquer outro comercializador".

Para já, a Prio é a única empresa que apresenta os seus preços por minuto de carregamento enquanto os outros cobram aos clientes um valor por cada kWh carregado. O objetivo é "potenciar ao máximo a rotação nos pontos de carregamento para conseguir valores mais baixos". "Não gostamos de quem chega, liga o carro ao posto, fica parado, vai às compras e tira lugar a outro", disse Luís Martins.

Em termos de estratégia, a Prio anunciou que vai fazer um investimento adicional de cerca de um milhão de euros até 2020 para transformar e fazer crescer a sua rede atual de 150 pontos de carregamento de veículos elétricos para 200 pontos fast charge, ou seja, com uma capacidade de 50 kWh.

Entre 2012 e 2018, a Prio já investiu dois milhões na sua rede de postos de carregamento elétrico. Luís Martins sublinhou que a Prio já injetou mais de 1000 MW de energia elétrica de forma gratuita na sua rede de carregadores, que é privada e complementar à rede pública da Mobi.E, uma "borla" que só este ano já valeu à empresa um prejuízo de 120 mil euros. Neste momento, a empresa tem apenas cinco postos de carregamento rápido (com 11 pontos de ligação, no Porto, Coimbra, Lisboa, Sintra e Cascais) e 80 postos normais (85 no total), em 56 localizações diferentes em todo o país.

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