Volta ao mundo da 'Sagres' por locais onde esteve Fernão de Magalhães

O navio-escola vai passar o ano de 2020 no mar, para uma quarta viagem de circum-navegação que será a mais longa e demorada de todas e em que vai percorrer 70% da viagem feita há 500 anos pelo navegador Fernão de Magalhães.

O navio-escola Sagres inicia a 5 de janeiro uma volta ao mundo que vai sobrepor-se a cerca de 70% da viagem feita há 500 anos por Fernão de Magalhães. De fora fica o cabo das Onze Mil Virgens, onde o navegador português descobriu a travessia para as águas calmas do Pacífico e comprovou que a Terra era redonda.

Planear a quarta viagem de circum-navegação da Sagres, um veleiro de origem alemã com 82 anos, tem sido um quebra-cabeças para o seu comandante. "Fiz umas 80 versões da viagem" até chegar à rota definitiva e conseguindo fazer "cerca de 70%" do percurso navegado por Fernão de Magalhães, diz o capitão-de-fragata Maurício Camilo ao DN.

Ao contrário de Magalhães, "que não tinha ninguém à espera" nos portos onde atracou, a Sagres "tem de chegar a horas" aos diferentes locais da viagem, sublinha o especialista em navegação e meteorologia - precisamente duas áreas centrais na definição do percurso e na escolha dos locais de paragem, dois dos quais estabelecidos à partida: Tóquio (em julho, por causa dos Jogos Olímpicos) e Punta Arenas, em pleno estreito de Magalhães, para participar nas comemorações oficiais da descoberta da passagem que o próprio navegador designou então como cabo de Todos-os-Santos, lembra ao DN o historiador José Manuel Garcia.

Percurso inverso ao de Magalhães

Realizar a viagem de nascente para poente, após a travessia do Atlântico e da paragem na bacia do rio da Prata, é precisamente uma consequência dessa necessidade de estar em Tóquio no mês de julho. Daí também a impossibilidade de aceitar o convite feito pela Armada Española para a Sagres fazer a volta ao mundo com o navio-escola Juan Sebastián de Elcano, repetindo cinco séculos depois a aventura das caravelas capitaneadas por Magalhães.

Apesar disso, os dois veleiros - acompanhados por vários navios-escola semelhantes de outros países - vão navegar juntos durante quase um mês entre Punta Arenas (Chile) e Callao (Peru), a partir de onde a Sagres segue ao longo da costa para o canal do Panamá enquanto o Elcano inicia a travessia do Pacífico em direção às Filipinas.

Outro objetivo da viagem da Sagres, além de visitar locais da rede magalhânica, passa por fazer escala em cidades lusófonas - Praia, Maputo - e com importantes comunidades portuguesas, como Honolulu, explica o oficial da Marinha. O navio está desde outubro de 2018 a ser vistoriado e reparado de alto a baixo nos estaleiros da Naval Rocha e do Arsenal do Alfeite (até outubro deste ano).

Além de eliminar os habituais focos de corrosão e substituir materiais já desgastados, como chapas e parte do tabuado do convés, foi necessário mudar - pela primeira vez na história da Sagres - a manga que protege o veio da hélice do navio-escola, conforme mostra o comandante Maurício Camilo.

A Sagres tem um "motor de camião" com mil cavalos de potência que, por vezes, nem com a ajuda das velas consegue vencer a força da natureza - outra razão para estudar previamente as zonas e as épocas de furacões no Pacífico, ou das monções no Índico.

No total, o veleiro vai percorrer 41 mil milhas náuticas - 76 mil quilómetros, equivalentes a dois diâmetros da Terra - durante 371 dias. Sendo um navio-escola, a Sagres dedica duas etapas à instrução e treino dos cadetes do primeiro e do segundo anos da Escola Naval, permitindo-lhes participar nesta viagem comemorativa do V Centenário da descoberta do estreito de Magalhães.

Essa primeira etapa de treino - em navegação astronómica - inicia-se em Díli, onde o navio-escola celebra o Dia de Portugal, e prolonga-se até Tóquio. O segundo grupo de alunos, também na ordem da meia centena, embarca depois na capital japonesa e sai em Honolulu, após um mês de aprendizagem e instrução dos "conceitos básicos de navegação", diz Maurício Camilo.

Se entre os cadetes existirão mulheres, entre os 130 membros da guarnição - com uma média de idades de 25 anos e entre os quais uma dezena vai repetir a última volta ao mundo da Sagres, em 2010 - só haverá a nível dos oficiais, porque o navio ainda não tem condições para alojar praças e sargentos femininos.

Exposição itinerante

Nas duas dezenas e meia de escalas programadas, os visitantes podem ver uma exposição alusiva à viagem de Magalhães e Elcano.

José Manuel Garcia, especialista em história dos Descobrimentos, destaca alguns pormenores: Magalhães morreu durante a 13.ª escala da frota; o piloto português João Lopes de Carvalho conheceu no Rio de Janeiro um filho de 7 anos, que embarcou; as mortes por escorbuto foram muito reduzidas pelo aipo (rico em vitamina C) apanhado na zona do estreito de Magalhães - comido cru ou em vinagrete - durante a travessia do Pacífico, que também minorou a fome de quem se viu a comer ratos e couro...

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