Em Mafra há um parque onde se ensina que tudo foi criado por Deus

Numa quinta a 45 minutos da capital, há um parque onde se defende a teoria criacionista: tudo foi criado por Deus, a Terra não tem mais de 6000 anos e que a teoria da evolução não está comprovada. É obra de um suíço.

Quando as luzes se apagam, a abóboda do planetário ilumina-se com estrelas e lugares do universo. Da Terra às galáxias e depois de volta a casa, 20 minutos de filme. A voz off, de dicção perfeita, diz: #"A Terra pode parecer algo insignificante comparada com tudo o que Deus criou, mas foi neste lugar minúsculo que Deus quis colocar as joias da coroa da sua criação. Foi neste pequeno planeta que o criador do universo quis fazer obra e morrer por nós, mas depois ele ressuscitou oferecendo o perdão a todos aqueles que combatem pelo seu nome." Isto acontece, não na distante América, mas numa quinta a 45 minutos de carro de Lisboa. No Parque Discovery, um lugar onde o criacionismo, a teoria que nega a da evolução e o darwinismo, é professada. E ensinada às crianças que ali passam.

Charles Brabec, um suíço de 72 anos, barba grisalha e indumentária de explorador #- calças e camisa caqui -, é o seu mentor nacional. Abre a porta de vidro e alumínio da propriedade, a 1,5 quilómetros de caminho estreito da aldeia da Barreiralva, em Mafra.

Ouvem-se pássaros, o som das folhas que se quebram sob os pés. Não há placas indicativas, apenas casinhas de madeira e três abrigos em forma de iglo com pinturas de flores comidas pelo tempo. São o que resta do parque de campismo que o anterior proprietário queria erguer. Esta semana estavam com um grupo de crianças de uma igreja evangélica. Vieram acampar e não ouvir falar do criacionismo, garante Charles Brabec.

Mas essa é a missão do Parque Discovery, de portas abertas há uma década. "Acreditamos em Deus como criador do universo. Na Bíblia diz-se que Deus criou o universo. Literalmente", diz este suíço, cristão, que viveu e trabalhou na Alemanha como editor de livros. Veio a Portugal pela primeira vez após o 25 de Abril, com uma organização que ajudava retornados, mudou-se em 1988 com a mulher, Ester. Têm dois filhos que ficaram a viver na Alemanha e uma neta que passou uma temporada cá.

"Na escola, o livro dela dizia que a vida começou na água, mas que ainda existem pessoas que acreditam na criação divina. É a única mensagem que recebem. Ela perguntou à professora como sabemos que a Terra tem milhões de anos e a resposta foi: com o carbono 14. Quase desmaiei. Como é que uma professora de ciências dá esta resposta? O carbono 14 dá para aproximadamente até 3500 anos. Nenhum dos métodos de datação pode provar a idade de uma pedra ou de um fóssil", diz o suíço.

Ela perguntou à professora como sabemos que a Terra tem milhões de anos e a resposta foi que era através do Carbono 14. Quase desmaiei.

"Os evolucionistas cada vez andam mais para trás para provar a teoria, mas não é verdade", defende na visita que propõe aos visitantes. Começa no auditório, um barracão pintado como se fosse um céu limpo, do teto ao chão. Nas traseiras há uma exposição de objetos que pretendem provar que a Terra não tem 4,5 mil milhões de anos, mas "6000 no máximo". Ferramentas usadas pelos primeiros homens, fósseis e réplicas de crânios, entre eles o de Lucy. Charles Brabec refuta que seja o mais antigo fóssil de um antepassado humano. "É uma subespécie de chimpanzé extinta." Defende que a tíbia de Lucy foi virada, cortada e pintada - como uma fraude - para provar que a Lucy era bípede. "Isso não é ciência", foi a conclusão a que chegaram ele e outros criacionistas com quem mantém contacto, incluindo os do Instituto Discovery nos EUA. Apesar do nome e "boas relações", garante não estarem ligados financeiramente.

Charles diz que o Parque Discovery vive da sua "reformazita" e "algum dinheiro da família". As entradas (4,5 euros aos mais novos; 5,5 euros a partir dos 18) ajudam na "manutenção". Na primavera e no verão recebe a visita de crianças - a maioria de escolas católicas e evangélicas - e, sobretudo, adultos.

Além da exposição e do planetário onde exibe o filme importado do Museu da Criação, nos EUA, mantém colmeias, construiu uma cabana circular que pretende replicar a dos primeiros humanos, uma caverna que imita aquelas em que foram encontrados os Rolos do Mar Morto, uma arca de Noé em miniatura e dinossauros de cimento.

"Aparecem mencionados umas 60 vezes na Bíblia, em alguns casos com pormenor. Temos de nos perguntar como é que os autores da Bíblia conheceram os dinossauros de forma tão íntima. O problema é que a palavra dinossauro é moderna, tem 120 anos. Antes chamavam-se dragões." E só pode ter sido Deus, o designer inteligente, que os criou.

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