Um governo em clima de fim de festa

Alguns dirão que há excesso de confiança das oposições e outros pensarão que são os comentadores a querer ter razão antes do tempo, mas não é preciso uma análise muito aprofundada para perceber que, até entre os pesos-pesados do executivo, está tudo a entrar em roda livre. Há sempre maneira de prolongar o ciclo mais tempo (também é para isso que servem as remodelações), mas será sempre em clima de fim de festa.

A notícia de que António Costa (ao contrário do que fizeram Cavaco, Guterres e Sócrates nas anteriores presidências europeias) pretende gastar as suas energias na frente interna revela duas coisas: a primeira é que, depois de a Alemanha ter resolvido os problemas, a presidência portuguesa é para a fotografia; a segunda é que o primeiro-ministro sabe que o entusiasmo de alguns/algumas dos/as seus/suas ministros/as está ao nível da confiança que ele deposita neles, é meramente formal.

Olhando apenas para a atualidade mais recente, vemos um ministro que dois terços dos portugueses querem fora do governo, um outro que tutela uma empresa que vai despedir trabalhadores mas aumenta a administração, uma ministra cujo gabinete enviou para Bruxelas informação falsa sobre o currículo de um procurador e, cereja em cima do bolo, um ministro que quer reunir-se com um órgão que já não existe há 20 anos:

1. Eduardo Cabrita continua a acumular inutilidade, como se tinha visto no caso das golas inflamáveis, no caso do SEF, no caso das declarações do diretor da PSP, no caso do desentendimento entre a PSP e a GNR para guardar as vacinas...

2. Pedro Nuno Santos colocou notícias dando conta da pressão que exerceu sobre Miguel Frasquilho para abdicar do aumento de 1500 euros brutos ao mesmo tempo que justificava a duplicação do vencimento do CEO da TAP. O ministro está agarrado à TAP, num pântano político, convencido de que é possível salvar-se com jogadas como esta do bode expiatório ou a anterior de passa-culpas para o Parlamento.

3. Francisca Van Dunem recusa dar informações sobre uma matéria que considera "reservada", não percebendo que desta forma está a assumir a veracidade das informações que dão conta da falsidade prestada pelo seu ministério ao Conselho da União Europeia. Ver isto como tema de lana-caprina é só mais um erro político de um dossiê em que o governo já tinha dado o flanco ao contrariar a escolha do comité de peritos para a Procuradoria europeia.

4. João Pedro Matos Fernandes quis lançar os foguetes e apanhar as canas no lamentável episódio da matança na Herdade da Torre Bela. Fez muito bem em chamar a si o dossiê de um caso que causou a indignação generalizada dos portugueses, mas o excesso de voluntarismo levou-o a anunciar uma reunião com um organismo que é do século passado e é como se já não existisse formalmente.

Este fim de ciclo de um governo que pode ainda encontrar umas bolhas de oxigénio para prolongar o seu tempo de vida resultará sempre numa crescente incapacidade de tomar decisões difíceis. Não é característica exclusiva deste governo, foi de todos os que o antecederam e poderá ser confirmada na grande remodelação que revelará um ainda maior recrutamento no interior do partido e do próprio governo (17 dos atuais governantes cumpriram funções nos gabinetes ministeriais). Para mal dos nossos pecados, a história diz-nos que a tendência é para que episódios como os relatados nesta crónica se repitam com cada vez maior frequência.

Jornalista

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