Más notícias no ano do Rato

Os "supersticiosos chineses" tornaram-se o epicentro de uma das cíclicas situações que nos lembram que as coisas que tornam o mundo mais pequeno também o tornam mais vulnerável.

O ano novo do Rato está a começar... com maus sinais para os supersticiosos... chineses", disse José Alberto Carvalho no Jornal de Domingo da TVI, dando todo um novo significado à palavra "hã?" Os "supersticiosos chineses" tornaram-se o epicentro de uma das cíclicas situações que nos lembram a todos - como costumam fazer regularmente os filmes-catástrofe - que as coisas que tornam o mundo mais pequeno (as viagens aéreas, por exemplo) também o tornam mais vulnerável. Mas se os vírus viajam depressa, a informação não é menos veloz. É impossível combater um problema sem compreender as idiossincrasias da exótica cultura onde ele eclodiu, pelo que o interlocutor de José Alberto Carvalho, Paulo Portas, estava a postos para inocular prontamente a opinião pública com uma dose saudável de orientalismo: "Ainda por cima eles olham para o rato de uma maneira um pouco diferente dos europeus... porque acham que é esperto... e fértil!" (Os europeus, historicamente, consideram o rato um símbolo de estupidez e disfunção eréctil).

É nesta altura evidente que o surto vindo das misteriosas terras da superstição vai colocar várias questões ao não supersticioso Ocidente, a mais importante das quais é: como é que uma epidemia global pode afectar a capacidade dos programas de informação para continuar a fazer intermináveis directos do exterior?

A TVI encontrou com desenvoltura uma resposta. Na impossibilidade logística de fazer um vox pop com o vírus ("vamos aqui tentar chegar à fala com este agente infeccioso... boa tarde... como é que se sente no início desta aventura?"), optaram pela segunda melhor alternativa. O plano de contingência foi activado no Jornal das 8 de quarta-feira: "Começamos com um directo do aeroporto de Beja, onde está a ser preparado o voo que vai... resgatar os cidadãos europeus à China... trata-se do maior avião comercial do mundo, um Boeing A380... a pista de Beja é a única que tem dimensões para um avião destes... hum... dimensões... estamos a ver imagens em directo..."

As imagens mostravam inequivocamente um avião parado numa pista. As imagens eram em directo.
"A nossa repórter está no aeroporto de Beja... para onde vamos agora em directo... Carla, começava por te perguntar... enquanto vemos imagens das operações que decorrem na pista de Beja... se esta... hum... operação está oficialmente confirmada ou se... ela se mantém reservada e discreta."
"Boa noite, segundo o que consegui apurar, esta operação mantém-se discreta", confirmou a repórter, antes de detalhar rigorosamente que 16 comissários de bordo estavam a caminho de Beja e que o avião ia descolar às dez da manhã seguinte com rumo à China, com escalas em Paris e Hanói, sempre com a maior reserva e discrição.

"Carla, obrigado pelas informações... nesta altura em que as imagens em directo... do avião... um Airbus e não um Boeing... como a própria designação dos modelos... da marca... hum... de um e de outro fabricante indicam... Avançamos agora para outro local em Beja, em directo... Patrícia, no hotel, onde a informação que existe é que... está a receber os tripulantes que vão fazer esse voo..."

Segundo o protocolo estabelecido, as imagens (em directo) deixaram de mostrar um avião parado numa pista e passaram a mostrar a porta de um hotel. "Boa noite, a indicação que temos é essa... não oficial, porque o hotel não confirma, mas temos essa indicação de que... este é o hotel... é um momento que aguardamos a qualquer instante que... poderá acontecer... não deverá demorar muito até que o grupo de comissários de bordo chegue aqui... ao hotel..." Doze minutos passaram.

Em vez de educar a opinião pública sobre os fabricantes correctos de aviões comerciais e o estado de imobilidade de portas de hotel, a SIC dedicou não uma, mas duas edições do Opinião Pública a incentivar a opinião pública a educar-se a si própria. "Como travar o novo coronavírus? DÊ A SUA OPINIÃO", implorava o oráculo, seguido de dois números de telefone. Em estúdio, na edição de quinta-feira, esteve também Francisco George, que teve assim mais uma oportunidade de exibir um dos seus superpoderes: a capacidade de ouvir a opinião pública ao mesmo tempo que pratica meditação transcendental.

Depois de explicar o que era um vírus, o que sabemos sobre o coronavírus, os sinais de contágio, e as precauções a tomar, instalou-se na cadeira e esperou que os espectadores opinassem. Contando com as contribuições de prestigiados epidemiologistas, como o Dr. Reformado de Vila do Conde, o Dr. Aposentado de Carcavelos e Dra. Reformada do Barreiro, os 45 minutos seguintes foram dedicados à metódica demolição dos argumentos de Francisco George.

"Há aí alguma discrepância no que o doutor diz, na minha opinião", observou o Dr. Desempregado de Torres Vedras. "Eu não quero saber se o vírus tem um milímetro ou se é mil vezes mais pequeno do que um milímetro... como é que ele quer que a gente confie no SNS quando há listas de espera na ortopedia?" A câmara mostrava (em directo) que Francisco George ouvia pacientemente a admoestação enquanto tentava dobrar as colheres da cafetaria com o poder da mente. Outro participante no debate lamentou o escândalo que era a inércia do governo português na questão das fronteiras. "Eles estão a fazer... o quê?... eu nem sei do que é que eles estão à espera para fechar as fronteiras... Continuam a entrar chineses de avião, de barco, de carro... tem de se fechar tudo".

Na frase seguinte - não duas ou três frases depois, mas na frase seguinte - lamentou o escândalo que era a inércia do governo português na questão dos emigrantes na China: "Porque é que não os vão buscar?" A câmara mostrava agora (em directo) que Francisco George estava concentrado na projecção astral que emancipou o espírito do seu invólucro de carne e o levou a passear pela galáxia. "Eu queria aqui... trazer um assunto que não sei se tem algum valor... as câmaras hiperbáricas não darão para descontaminar isso tudo? Hã?" A câmara mostrava agora (em directo) que Francisco George levitava alguns centímetros acima da cadeira, depois de se converter espontaneamente ao budismo nos últimos segundos.

Heraclito, conhecido entre os "supersticiosos... gregos" como o Dr. Desempregado de Éfeso, acreditava que ninguém podia banhar-se duas vezes nas águas do mesmo rio; pelo contrário, não tinha nada contra a ideia de que alguém pode mergulhar duas vezes na mesma bosta de vaca - que foi o que ele fez para tentar curar um edema. Foi essa cura ad hoc que acabou por matá-lo, tragédia comum nesses tempos remotos em que a informação circulava à velocidade de uma tartaruga e ninguém tinha acesso às milagrosas tecnologias modernas que permitem a qualquer pessoa estar permanentemente informada sobre o aspecto de uma porta de hotel ou de um avião numa pista.

O autor do último telefonema para o Opinião Pública foi direito ao cerne da questão: "Eu só queria dizer o seguinte... está aqui a prova mais do que evidente de que o aeroporto de Beja ainda serve para muita coisa, e não se percebe porque é que se vai construir outro aeroporto onde nem sequer um A380 pode aterrar!" Uma legenda identificava-o surpreendentemente como "comerciante de Beja".
Escreve de acordo com a antiga ortografia

Outras Notícias

Outros conteúdos GMG