A nova geração de direita e o poder

Em política não há espaços vazios e, neste momento, do lado do espectro político do centro-direita, estamos a assistir à procura de novas ideias que possam ser servidas no tabuleiro da disputa democrática. Se a austeridade e a descida de impostos aos que mais têm provaram, afinal, não ser assim tão boas ideias, o que devemos fazer então é a pergunta que grassa nesse espaço. Perante tal pergunta, há dirigentes mais pacientes e mais crentes na regular alternância democrática, que preferem fazer uma oposição de maior fôlego, atenta ao surgimento de novas oportunidades. O passado, sobretudo europeu, mostra que isso é mesmo assim. Em democracia, os vencedores de um momento são os perdedores de outro, pelas mais diversas razões. Rui Rio é a imagem dessa paciência democrática.

Mas há dirigentes mais apressados, que querem uma mudança mais rápida de orientação política. É neste contexto de pressa que encontramos alguns fenómenos novos e um outro mais tradicional. Os novos são os partidos pequenos, de causas e de espírito democrático, a que se deve somar um partido dirigido por alguém que, basicamente, só diz disparates racistas. O fenómeno tradicional - e altamente positivo - é que a pressa está a trazer a lume uma nova leva de políticos de centro-direita, políticos a sério, que não se limitam a sê-lo em intervalos de negócios. Esse fenómeno não é novo, pois foi isso mesmo que deu lugar ao Bloco de Esquerda, nascido de pessoas mais velhas que saíram do palco para dar lugar a militantes mais novos. Também no PS, ou no PCP, neste com algo de encenação, isso já aconteceu. Só o PSD tem estado um pouco fora desse caminho, por razões que não serão difíceis de elencar.

É neste contexto de pressa que o CDS ganhou um presidente dessa nova geração política. A vitória foi bastante sólida, mostrando que os correligionários estão com vontade de mudança. Porventura, estarão fartos de discussões sobre se a austeridade acabou (acabou), se os impostos são para baixar (são, mas para os que menos têm) ou se o país é bom para fazer negócios (é bom). Querem outras causas. E são vontades e quereres que representam uma parte significativa da população, embora, pelo que se vê dos resultados eleitorais, ainda não maioritária. Há jovens, com pressa, que não se reconhecem no BE, no PS ou no PCP, como é óbvio. Todavia, atendendo ao caminho que alguns debates estão a seguir, é algo que tem de ser dito e explicitado.

Ora, aqui temos de introduzir problemas fundamentais de filosofia de pensamento, de civilização, de saber estar na vida com os outros. Esses problemas têm de ser discutidos e pensados para que cada um de nós perceba verdadeiramente o que está a pedir para a sociedade. E, aqui, a responsabilidade dos dirigentes políticos é grande, mas mais ainda a dos eleitores que os escolhem. Dessa discussão tem de resultar pensamento sobre se é o mesmo ser-se a favor de uma lei do aborto ou contra, a favor do casamento homossexual ou contra, a favor da defesa das diferenças de género ou contra, a favor da integração dos imigrantes ou contra. A diferença mais importante é que os primeiros, os que são a "favor", em todos os casos, não afectam a liberdade dos segundos, dos que são "contra", mas o inverso não é verdade, nunca será verdade. Tal constatação não implica que quem luta por algo diferente do que está estabelecido desista de lutar. Implica, sim, uma maior inteligência nessa luta, uma maior preocupação com valores humanistas e com a cada vez maior intensidade de contactos entre culturas e preferências dispersas. Estará a nova geração de centro-direita à altura?

Em suma, a pressa e as pessoas mais novas que ela está a trazer para o activo político traduzem uma tendência potencialmente positiva para a política nacional. Mas ela só será verdadeiramente positiva se for inteligente, bem estruturada, complexa, humanista. Há muito eleitor no centro-direita, sobretudo mais culto, mais viajado, que sabe isso. Basta dizerem-no aos dirigentes. Caso contrário, correm o risco de estar a contribuir para a chaga do populismo e para um futuro menos interessante, sobretudo para o momento em que, um dia, chegarem ao poder. Por outras palavras, sejam de direita, conservadores, mas com sangue novo, não arcaico, com ideias novas, não atávicas. Mesmo que achem que os da "esquerda" não se comportam assim.

Investigador da Universidade de Lisboa. Escreve de acordo com a antiga ortografia.

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