Dez histórias inesquecíveis dos dérbis. Um brinco, um golo aos 12 segundos, um 3-6 e um 7-1

Nesta sexta-feira há mais um Sporting-Benfica. São mais de cem anos de rivalidade, com resultados surpreendentes e episódios pitorescos. Do brinco de Vítor Baptista ao jogo que se repetiu e foi invalidado pela FIFA, passando pelo dia em que um jogador do FC Porto foi o árbitro do jogo.

O Sporting e o Benfica defrontam-se nesta sexta-feira (21.15, SportTV1) em mais um dérbi do futebol português, este com a particularidade de as duas equipas chegarem ao jogo da 17.ª jornada separadas por 16 pontos, com vantagem para os encarnados. Será o segundo jogo entre os dois rivais nesta temporada, depois da Supertaça disputada na primeira semana de agosto, no Algarve, que as águias venceram por 5-0. São mais de cem anos de rivalidade com muitas histórias. Recorde aqui dez jogos marcantes entre os dois eternos rivais.

1.º dérbi decidido com um golo de Cosme Damião na própria baliza

As histórias começam logo no primeiro dérbi, disputado a 1 de dezembro de 1907, ainda o Benfica se chamava Grupo Sport Lisboa, numa partida a contar para o Campeonato de Lisboa. No Campo da Quinta Nova, em Carcavelos, os leões entraram em campo com oito jogadores que tinham contratado dias antes precisamente ao clube rival, que trocaram de camisola em busca de melhores condições - os verde e brancos tinham um balneário com água quente, um campo de futebol próprio, camisolas para combater o frio e melhores bolas. Numa tarde de chuva intensa, num campo muito maltratado e sob a arbitragem de um juiz inglês (que era jogador do Carcavelos), o Sporting colocou-se em vantagem com um golo de Cândido Rodrigues, um dos oito que tinham "desertado" para o rival. O Benfica ainda chegou ao empate, por Eduardo Corga, e nesta altura os jogadores do Sporting saíram do campo devido à forte chuva. Mas, por ordem do árbitro, foram obrigados a regressar e acabaram por festejar a vitória na sequência de um autogolo de... Cosme Damião. Esse mesmo, o fundador do Benfica marcou na própria baliza e decidiu o primeiro jogo de uma história centenária cuja rivalidade se mantém até aos dias de hoje.

O dia em que um jogador do FC Porto apitou um dérbi

Os tempos eram outros e o futebol não era nada comparável ao da atualidade. Muito menos nas questões das rivalidades. A 13 de abril de 1924, Sporting e Benfica defrontaram-se no Campo Grande, jogo da última jornada do Regional de Lisboa. Até aqui tudo bem, não fosse o árbitro designado ser um jogador do FC Porto. Isso mesmo. Falamos de Tavares Bastos, que curiosamente até foi o autor dos primeiros golos dos dragões ao Sporting. Na altura, refira-se, era habitual futebolistas dirigirem os jogos, mas este teve a particularidade de ser um jogo entre rivais, com um árbitro que representava o FC Porto. O jogo terminou 3-0 a favor do Sporting, mas o campeão acabou por ser o Casa Pia. Esta partida ficou ainda marcada pelo facto de pela primeira vez um jogo de futebol ter sido assistido ao vivo por um Presidente da República, no caso Manuel Teixeira Gomes.

O brinco de Vítor Baptista que nunca apareceu

É uma das histórias mais insólitas e ao mesmo tempo divertidas dos dérbis entre Benfica e Sporting. A 12 de fevereiro de 1978, no velhinho Estádio da Luz, os dois rivais mediram forças na 16.ª jornada. Aos 54 minutos, o irreverente Vítor Baptista marcou um grande golo de cabeça, mas nas celebrações perdeu o brinco. O jogo, que também ficou marcado por Jordão ter partido uma perna num choque com Alberto, esteve interrompido durante alguns minutos para o avançado nascido em Setúbal tentar recuperar o adereço - ficou célebre a fotografia de Vítor Baptista com as mãos na cabeça e os colegas Humberto Coelho e Toni a ajudarem na procura do brinco, tal como o árbitro Rosa Santos. No final do jogo, o jogador do Benfica explicou os motivos da sua preocupação: "O brinco custou-me 12 contos e o prémio do jogo era de oito. Perdi dinheiro a trabalhar." Apesar das intensas buscas no final do jogo e mesmo nos dias a seguir, o brinco nunca apareceu. Consequência ou não desta sua perda, dias depois o avançado exigiu ao Benfica 650 contos para renovar contrato. O clube só chegou aos 450. Chateado, decidiu regressar ao Vitória de Setúbal, onde foi ganhar muito menos.

A agressão de Bento ao amigo Manuel Fernandes

Na temporada 1981-1982, os leões quebraram um jejum de três anos sem vencerem o título e ainda juntaram a Taça de Portugal ao palmarés. A 28 de março de 1982, os leões receberam o Benfica em Alvalade, já na condição de líderes e com cinco pontos de vantagem sobre o rival. Foi uma tarde de sonho para Rui Jordão, que apontou os três golos da equipa então orientada por Malcolm Allison, de pouco valendo o golo marcado por Carlos Manuel que abriu o marcador aos 73 minutos. Este jogo ficou marcado por uma situação muito pouco comum, até pelos dois intervenientes. Aos 64 minutos, Bento teve ordem de expulsão. Tudo porque agrediu Manuel Fernandes, o goleador do Sporting, com uma cotovelada na cara. O guarda-redes do Benfica queixou-se de que o avançado o tinha atingido com a bota. De nada valeram os avisos do jogador: "Tem calma ó Bento, vê lá o que vais fazer." De nada lhe valeu. "Com o resultado em 1-1, Bento saiu aos meus pés, e eu deixei o meu pé sem intenção, para ver se ele largava a bola, mas ele agarrou-a. Mal lhe toquei, quando muito rocei com a bota, porque não levava força para o magoar. Bento era um grande guarda-redes e amigo, que recordo com saudade. Mas naquele jogo eu não lhe fiz nada", esclareceu anos mais tarde Manuel Fernandes.

O poker de Manuel Fernandes na maior goleada (7-1) de sempre

A maior goleada em jogos entre Benfica e Sporting aconteceu na temporada 1986-1987. Foi o célebre jogo dos 7-1, com uma exibição de gala da equipa treinada por Manuel José, numa tarde inesquecível de Manuel Fernandes, autor de quatro golos. O marcador foi inaugurado logo aos 15 minutos, por Mário Jorge, resultado que se manteve ao intervalo. Depois veio o festival de Manuel Fernandes, a assinar um poker. Mário Jorge bisou e Ralph Meade também contribuiu com um golo. O do Benfica foi assinado por Wando. "Eu tenho netos e os filhos dos meus netos vão saber que o bisavô naquele dia daquele ano fez quatro golos ao Benfica. E enquanto não houver outro resultado parecido, este fica para a história", afirmou há uns anos Manuel Fernandes, que fez questão de guardar a bola desse jogo: "Gabriel apanhou logo a bola e eu disse-lhe: Gabi, essa bola é minha! Ele respondeu-me: ah, está bem, hoje fizeste os quatro golos. E eu expliquei-lhe que não era por isso, que era pela minha filha que fazia anos e eu queria oferecer-lha, autografada por todos os jogadores do Sporting." Nesse ano, curiosamente, o Benfica acabaria por conquistar o título nacional.

O golo mais rápido dos dérbis: Balakov marca aos 12 segundos

Dia 17 de outubro de 1992. Mais um dérbi entre Sporting e Benfica, relativo à 12.º jornada do campeonato. Foi mais um jogo intenso, marcado por três expulsões (Filipe, Iordanov e Vítor Paneira). Mas o facto mais relevante acabou por ser o golo madrugador dos leões, ainda hoje o mais rápido de sempre da história do dérbi. Logo aos 12 segundos de jogo, mal o árbitro Carlos Valente tinha apitado para o início da partida, o jogador búlgaro encheu o pé de muito longe, após uma perda de bola dos rivais, e a bola entrou colocada e com força no ângulo superior direito da baliza defendida por Silvino. O Sporting venceu por 2-0, com o segundo golo da autoria de Iordanov. Este jogo teve uma outra curiosidade: foi a primeira partida de futebol a ser transmitida em direto por um canal independente, no caso a SIC. "Um jogo frente ao Benfica, um dérbi, é sempre completamente diferente de um jogo normal. Marcar um golo contra o Benfica, logo no primeiro minuto, foi maravilhoso", disse Balakov, que esteve cinco anos em Alvalade, deixando o clube em 1995, rumo ao Estugarda, da Alemanha.

Uma noite mágica com um hat-trick de João Pinto no célebre 3-6

Há jogos em que um jogador faz toda a diferença. Foi o que aconteceu naquele dia 14 de maio de 1994. Mas vamos primeiro ao contexto. Esta época tinha sido marcada pelo célebre verão quente, em que Paulo Sousa e Pacheco deixaram o Benfica (na altura mergulhado em graves problemas financeiros) e assinaram pelo Sporting. As duas equipas chegaram à jornada 30 separadas por um ponto, com as águias em vantagem, e por isso o dérbi era muito importante nas contas do título. Mas em pleno Estádio José Alvalade, o Benfica de Toni arrancou uma importante vitória por 3-6, com um jogo épico de João Vieira Pinto, autor de três golos e de uma exibição fantástica. A partida, curiosamente, até começou com um golo dos leões, apontado por Cadete. Mas começou depois o festival de JVP, que empatou num grande remate de longe aos 30'. Figo fez depois o 2-1, mas João Pinto empatou, em mais um lance de génio a rasgar a defesa leonina. Antes do intervalo, terceiro golo do Benfica e de JVP. Depois Isaías fez o 2-4 e o 2-5, Hélder Cristóvão aumentou para 2-6 e Balakov de penálti reduziu para 3-6. "O Sporting não jogou nessa noite e o Benfica ganhou 6-3 ao professor Carlos Queiroz", afirmou Pacheco, numa entrevista à agência Lusa em 2011.

Caniggia, Coroado e a intervenção da FIFA

Mais um dérbi, mais uma história rocambolesca. Desta vez por causa de uma expulsão que originou uma repetição do jogo e a intervenção da FIFA. A 30 de abril de 1995, o Sporting recebeu o Benfica no velhinho Estádio José Alvalade. Um jogo já no final do campeonato que pouco acrescentava na corrida pelo título, praticamente já entregue ao FC Porto. Os leões venceram por 2-0, golos de Balakov (9') e Iordanov (11'), com Dimas a reduzir para as águias (22'). A zaragata estava reservada para mais tarde. Claudio Caniggia envolveu-se numa intensa discussão com Sá Pinto e Jorge Coroado, o árbitro, mostrou amarelo aos dois e logo de seguida o vermelho ao avançado do Benfica. A confusão instalou-se, pois na altura pensou-se que Coroado se tinha enganado. O responsáveis encarnados protestaram o jogo e na altura o Conselho de Justiça da FPF decidiu mandar repetir o jogo - no Estádio do Restelo, a 14 de junho de 1995, o Benfica venceu por 2-0. Dias mais tarde, contudo, a FIFA contrariou a decisão da FPF: anulou o jogo de repetição e fez valer o primeiro. "A ideia é dar um amarelo a cada, mas o Caniggia insulta-me. Chama-me "filho da p..." e manda-me para a "p... que te pariu". Dei-lhe o amarelo. Depois ouvi isso e dei-lhe vermelho direto. O que as pessoas pensaram foi que eu me tinha enganado. Que eu julgava que ele já tinha amarelo e que portanto foi segundo amarelo. Nada disso. Foi amarelo, o primeiro dele naquele jogo, e depois o vermelho direto, porque não aceito insultos de ninguém. Em português ou em castelhano", explicou Coroado mais tarde.

O dérbi marcado pela tragédia do very-light

As histórias dos dérbis não foram apenas feitas de jogos com muitos golos e episódios pitorescos. A 18 de maio de 1996, em pleno Estádio Nacional, numa final da Taça de Portugal entre os dois clubes, morreu um adepto leonino em pleno estádio, vitimado por um very-light atirado do outro lado do campo por um adepto do Benfica. Rui Mendes, adepto leonino que viera da Mealhada para assistir ao jogo, acabou por morrer vítima de um engenho pirotécnico. O Benfica treinado por Mário Wilson acabou por vencer o Sporting de Octávio Machado por 3-1. Mauro Airez apontou o primeiro golo das águias (foi no festejos que o very-light foi atirado), João Pinto bisou (39' e 67') e Carlos Xavier reduziu de penálti aos 83' de grande penalidade. Devido à tragédia, a entrega do troféu na tribuna de honra do Estádio Nacional foi cancelada. Dias depois, Hugo Inácio, elemento da claque No Name Boys, foi detido e posteriormente condenado a quatro anos e meio de prisão.

Dois autogolos de Beto dão vitória ao Benfica

Arranque da segunda volta do campeonato da temporada 1998-1999 com o Benfica a deslocar-se a Alvalade para medir forças com o Sporting, numa altura em que FC Porto e Boavista estavam nos dois primeiros lugares. Poderia ter sido mais um dérbi como tantos outros, com uma vitória do Benfica no campo do rival. Mas acabou por ter uma história bizarra, já que os encarnados venceram por 2-1 e os dois golos do triunfo foram da autoria de um jogador do Sporting. Beto, na altura central dos leões, que hoje ocupa um cargo na estrutura do futebol do Sporting, teve uma noite completamente desastrada. O primeiro golo na própria baliza aconteceu aos 27 minutos. O central tentou cortar em carrinho um cruzamento e acabou por colocar a bola no fundo das redes da baliza defendida por Tiago. Aos 79', um novo lance de azar. Beto saltou na área e perante a oposição de Cadete (na altura representava o Benfica), acabou por fazer novo autogolo. O mais curioso desta história é que, no final do jogo, Jorge Cadete reclamou que o golo tinha sido seu. Mas as imagens televisivas mostraram que não.

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