Premium O professor campista que vai suceder a Ricardo Robles

O DN conta quem é o sucessor bloquista na Câmara de Lisboa. Um professor campista que chegou à militância partidária por causa do sindicalismo.

As férias do novo vereador do BE na Câmara de Lisboa não se sujeitam às flutuações do mercado imobiliário: Manuel Grilo é campista. Estando a acampar com a mulher em Barcelona, lá continuará mais uns dias, pelo menos até ao final desta primeira semana de agosto, que é quando deverá substituir Robles na vereação. Diz que prefere o campismo porque lhe dá "mais liberdade de movimentos" pela ligação à natureza. Está a estrear na capital catalã uma tenda "um bocadinho maior do que as outras" comprada recentemente.

Manuel Grilo foi apanhado de surpresa pela notícia da renúncia de Ricardo Robles. E pela sua consequência prática, a sua própria ascensão ao governo da cidade. Era o número três da lista e portanto o lugar de Robles seria naturalmente ocupado pela número dois, Rita Silva. Mas esta recusou: sempre foi contra o acordo que o BE fez com o PS de Fernando Medina; e quer continuar a devotar o seu ativismo à associação Habita, um coletivo que pugna pelo direito à habitação.

Sobre os pelouros que terá ou não, Manuel Grilo não quer, por ora, abrir o jogo. Robles detinha responsabilidades na área da educação e dos direitos sociais. E nada fará mais sentido do que o seu sucessor ficar, pelo menos, com o pelouro da educação: foi professor do 1.º ciclo do ensino básico (antigo ensino primário) a vida toda, além de empenhado sindicalista (no Sindicato dos Professores da Grande Lisboa, o maior da Fenprof).

Falando por telefone com o DN, Grilo, de 59 anos, natural de Castelo Branco, casado e pai de duas filhas, assume que foi pelo sindicalismo que chegou às militâncias partidárias. É certo que, sendo muito novo, navegou pelo MES (Movimento da Esquerda Socialista), onde se cruzou com militantes como o atual presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

Contudo, o MES extingiu-se em 1981. E, já professor do ensino primário, o futuro vereador do BE em Lisboa deixou-se de militâncias partidárias, preferindo empenhar-se no sindicalismo. Por via de contactos feitos nessa atividade tornar-se-ia militante do PSR (Partido Socialista Revolucionário) - onde Francisco Louçã era já uma figura de primeira linha, - no final dos anos 80 do século passado. Uma década depois seria a favor da criação do Bloco de Esquerda, na prática uma coligação entre o PSR, a UDP e a Política XXI (dissidentes do PCP liderados por Miguel Portas).

Militante do PSR e depois do BE, nunca teve no entanto cargos partidários de relevo. "Sempre fugi a isso", diz ao DN, explicando que sempre preferiu devotar o seu empenhamento cívico ao sindicalismo. Em 2015, derrotado numa lista candidata à direção do SGPL, afasta-se. Assessora o grupo parlamentar do BE da Assembleia da República, precisamente na área da educação. Por indicação do partido, é também membro do Conselho Nacional de Educação (CNE).

Grilo foi apanhado de surpresa pela decisão de Robles e quanto a ela diz, apenas, que "a compreende perfeitamente". Mas não perde a oportunidade para elogiar o trabalho "notável" do eleito do BE na autarquia, assumindo de corpo inteiro uma garantia de continuidade (tendo, além do mais, concordado com o acordo do BE com o PS).

Destaca duas medidas: por um lado, a generalização até ao 12.º ano de manuais escolares gratuitos para todo os estudantes das escolas públicas do concelho; por outro, o fim do fornecimento de refeições às escolas em couvettes de plástico (o que passa por em muitas escolas reativar as respetivas cantinas ou pôr as crianças a frequentar a cantina da escola mais próxima, caso a sua não a tenha). "Faço uma avaliação excelente da ação do Ricardo Robles. Num ano e meio dificilmente poderia ter feito mais."

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Rosália Amorim

Crédito: teremos aprendido a lição?

Crédito para a habitação, crédito para o carro, crédito para as obras, crédito para as férias, crédito para tudo... Foi assim a vida de muitos portugueses antes da crise, a contrair crédito sobre crédito. Particulares e também os bancos (que facilitaram demais) ficaram com culpas no cartório. A pergunta que vale a pena fazer hoje é se, depois da crise e da intervenção da troika, a realidade terá mudado assim tanto? Parece que não. Hoje não é só o Estado que está sobre-endividado, mas são também os privados, quer as empresas quer os particulares.