Salgado rejeitou apoio do Estado até deixar BES

O ex-presidente do BES, Ricardo Salgado, insistiu até deixar a liderança da entidade que a mesma não necessitava de recorrer à ajuda do Estado português, conforme consta da ata da última reunião do Conselho de Administração em que participou.

Ricardo Salgado referiu que, depois de analisar detalhadamente, em conjunto com Amílcar Morais Pires (ex-administrador financeiro) e Isabel Almeida (responsável pelo departamento financeiro, de mercados e estudos), "a situação e as perspetivas do banco", chegou à conclusão da "necessidade imperativa de adoção de medidas adicionais ao plano de contingência de liquidez em vigor no BES, as quais, na presente fase, apenas se" poderiam "consubstanciar em contribuições privadas, envolvendo parcerias estratégicas e/ou financeiras que não se" traduzissem "em apoio do Estado".

Estas declarações são reproduzidas na ata número 308 da reunião do Conselho de Administração do Banco Espírito Santo (BES), realizada a 13 de julho e assinada pelo secretário do banco, Fernando Quintais Lopes, a 04 de agosto, documento a que o semanário Sol teve acesso e que disponibilizou hoje na sua página na Internet.

Na última reunião em que participou enquanto presidente da Comissão Executiva do BES, Salgado revelou aos restantes administradores que escreveu uma carta ao governador do Banco de Portugal, Carlos Costa, a 12 de julho, que teve resposta no dia seguinte, com "a posição de princípio do Banco de Portugal favorável a soluções de aumento de capital que venham acompanhadas do reforço da estrutura acionista".

Salgado, que a exemplo de José Manuel Espírito Santo, José Maria Ricciardi e Ricardo Abecassis, renunciou ao cargo na administração do BES a 20 de junho, dando lugar à cooptação de Vítor Bento, José Honório e João Moreira Rato, já não participou na votação destinada a oficializar a entrada dos três novos administradores, que ocorreu nesta reunião de 13 de julho.

Na ata, é possível ler o elogio feito por Ricardo Salgado à Comissão Executiva do banco "pela forma extraordinária como ao longo do tempo foi capaz de fazer evoluir o BES, tornando-o uma referência incontornável no sistema financeiro nacional, apesar das dificuldades e crises, com especial relevo para a capacidade demonstrada no passado recente em evitar ter de, ao contrário de outras instituições, recorrer a fundos públicos para a recapitalização do banco".

Ou seja, mais uma vez, o banqueiro mostrou que não queria uma intervenção estatal no BES.

Paralelamente, Salgado disse que "um exemplo sintomático de coesão invulgar da equipa que teve a honra de dirigir ao longo do tempo foi a de não haver memória da necessidade de em reuniões da Comissão Executiva se proceder a uma votação formal sobre quaisquer deliberações, tendo sido sempre possível estabelecer os necessários consensos entre todos os seus membros".

O responsável agradeceu também aos membros não executivos do Conselho de Administração "a colaboração e o espírito construtivo sempre manifestados em prol do progresso do banco, bem como à Comissão de Auditoria, a quem enalteceu o fundamental contributo dado por via da sua missão de acompanhar e fiscalizar a regular atividade do banco".

Por fim, Salgado "expressou o seu reconhecimento a todos os colaboradores do BES e das restantes unidades do Grupo ", segundo a ata.

Antes, o banqueiro já tinha agradecido aos franceses do Crédit Agricole a parceria de 22 anos mantida com o Grupo Espírito Santo (GES), tendo Xavier Musca, em representação da entidade francesa, interrompido a intervenção de Salgado para "expressar a sua consciência sobre quão difíceis" seriam "seguramente as presentes circunstâncias" para Salgado "e, em geral, para os membros da família Espírito Santo".

Ricardo Salgado "agradeceu as palavras" de Xavier Musca, conforme relatou o secretário da sociedade, Frenando Quintais Lopes.

Já o presidente do Conselho de Administração, Alberto Oliveira Pinto, tinha realçado no decurso da reunião que, no que toca aos três administradores executivos que renunciaram aos seus cargos (Salgado, José Manuel Espírito Santo e José Maria Ricciardi), ser "justo realçar e agradecer o trabalho que dedicaram ao banco ao longo dos anos em que exerceram funções de administração".

E deu "especial relevância" a Ricardo Salgado, afirmando que este, como presidente da Comissão Executiva, imprimiu uma nota dinâmica à atividade do BES, colocando esta instituição numa posição de grande relevo a nível internacional e no quadro" do sistema financeiro português.

No dia 03 de agosto, o Banco de Portugal tomou controlo do BES, depois de o banco ter apresentado prejuízos semestrais de 3,6 mil milhões de euros, e anunciou a separação da instituição.

No chamado banco mau ('bad bank'), um veículo que mantém o nome BES mas que está em liquidação, ficaram concentrados os ativos e passivos tóxicos do BES, assim como os acionistas.

No 'banco bom', o banco de transição que foi chamado de Novo Banco, ficaram os ativos e passivos considerados não problemáticos.

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