Retrato socioeconómico e financeiro de Portugal em 1988 e 22 anos depois

A greve de 1988 teve como alvo lutar contra o pacote laboral, cujo alcance o Tribunal Constitucional depois limitou.

Em fins de Março de 1988, quando CGTP e UGT convergiam pela primeira vez para um dia de greve geral, a economia nacional e as contas públicas eram bem diferentes do que são hoje. Essa Primavera seguia-se à queda a pique da Bolsa de Valores de Lisboa, tal como as demais bolsas pelo mundo fora, no Outono de 1987.

Em Julho, o PSD com Cavaco Silva na liderança tinha alcançado a sua primeira maioria absoluta de deputados na Assembleia da República. A jornada de protesto de 1988 opunha-se a um pacote legislativo laboral destinado a rever as leis laborais oriundas do pós-25 de Abril de 1974. Ela foi, na altura, parcialmente limitada pelo Tribunal Constitucional e só atingiu uma dimensão mais completa com o Código de Trabalho, em 2003.

Em 1988, Portugal tinha dez milhões de habitantes, menos 400 mil beneficiários da Segurança Social (4,075 milhões) dos que hoje existem e a esperança média de vida à nascença era de 73,8 anos (70,3, para os homens e 77,3, para as mulheres), inferior em cinco anos ao valor actual de 78,9 anos (75,8 anos, para os homens e 81,8 anos para as mulheres).

A economia portuguesa pesava então 1,62% do conjunto dos 27 países que constituem hoje a União Europeia. Em 2010, o seu peso é de 1,87%. Em paridade de poder de compra (isto é, tendo em conta os diferentes níveis de preços entre os países), o PIB por habitante de Portugal atingia há 22 anos 56,1% da média europeia. Hoje representa 69,8% desse valor médio. A inflação era de 9,6% (1,1%, em 2010) e a parte do rendimento nacional que cabia ao factor trabalho era de 44,5%, sendo agora de 52,1%. Comparativamente, os salários reais (descontada a inflação) eram em 1988 11,5% mais baixos do que agora.

Há 22 anos, o investimento das empresas e do Estado pesava bastante mais no produto interno do que hoje: representava 28,8% do PIB, quando presentemente se fica em 18%. Mas a poupança interna também não tinha comparação: era o equivalente a 24,3% do PIB, quando hoje se reduziu a escassos 8%. A despesa pública total passou de 37,3% do PIB, em 1988, para 51%, em 2009; o défice do Estado era há 22 anos de -3,6%, tendo atingido os 9,3% no ano passado; e a dívida pública equivalia a 55,7% do PIB, em 1988, prevendo- -se que atinja os 82,1% do produto este ano.

O agravamento do endividamento externo está bem patente nestes valores comparados: a falta de poupança dos portugueses para financiar os investimentos necessários fez aumentar as dívidas a quem, lá fora, nos tem vindo a emprestar o que nos falta.

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