Ministro diz que Irlanda não quis abrir "precedente"

O ministro Irlandês das Finanças, Michael Noonan defendeu ontem, em Bruxelas, que a decisão de Dublin, de regressar aos mercados de financiamento, abdicando de um programa cautelar, não deve "abrir um precedente". Mas a ministra portuguesa "não descarta essa possibilidade".

"Não faz sentido descartar essa possibilidade. Temos sete meses ainda pela frente para concluir o programa. Temos sinais da parte do mercado de que as taxas [de juro] poderão baixar", afirmou Maria Luis Albuquerque, admitindo que "ainda há uma incerteza latente que continua a ter algum peso na evolução das taxas de juro".

No entanto, o recurso a um programa cautelar continua em aberto já que a decisão de Dublin não vai "influenciar" o programa português, afirmou o presidente do eurogrupo, adiantando que "as linhas de crédito cautelar estarão disponíveis".

"Os instrumentos que temos, em termos de linhas de crédito cautelares, etc. estarão disponíveis. Os instrumentos estarão completamente disponíveis para qualquer um dos países que no futuro saíam dos seus programas", afirmou o holandês, Jeroen Dijsselbloem.

Portugal aguardava "atento" para saber qual seria "o interesse" de Dublin, em relação ao fim do programa da ajustamento, como o primeiro-ministro veio a afirmar. Mas, já depois de ser conhecida a decisão, o ministro da Presidência, Marques Guedes admitiu que a escolha do governo de Dublin deixou Portugal "sem referência" para a saída do programa.

"A Irlanda tomou esta decisão. Ficamos sem um ponto de referência, porque se tivesse a Irlanda optado por esse programa cautelar as negociações desse programa seriam uma referência interessante para o nosso país", admitiu Marques Guedes. Já o presidente do eurogrupo entende que a saída de um programa de ajustamento dever ser analisada "país a país, caso a caso".

"No caso da Irlanda, eles apresentam condições fortes que nos dão confiança no seu todo de que eles terão uma saída bem sucedida, mesmo sem uma linha de crédito cautelar", afirmou Dijsselbloem.

Já o ministro Irlandês entende que "qualquer outro país, como Portugal que será o próximo na linha de saída, pode escutar os argumentos de ambos os lados e decidir que é mais equilibrado, para a recuperação, um programa cautelar". Michael Noonan acrescentou que "na verdade, a Irlanda não quer abrir um precedente que todos tenham de seguir".

No final da reunião, a ministra Maria Luís Albuquerque reiterou que "a sete meses" de Portugal regressar aos mercados, ainda não há qualquer decisão tomada. "Teremos de avaliar quando for o momento oportuno", insistiu.

Questionado sobre a possibilidade da opção da Irlanda se dever à "condicionalidade económica" associada a um programa cautelar, o governante assegurou que tais condições nunca lhe foram apresentadas, uma vez que o país não chegou a requerer um programa cautelar. E, a decisão ficou, na verdade, a dever-se a "uma oportunidade", tratando-se agora do "momento certo".

"Pensamos que é a altura certa porque temos um orçamento que assinala um objectivo orçamental inferior ao que está no programa. Está a chegar o aniversário do programa e os propósito do programa. "E, as 260 acções que adoptámos durante três anos são, na verdade, a saída do programa, dando sentido ao propósito do programa que era restaurar normalidade na Irlanda", disse.

"Após muito aconselhamento dos parceiros da troika e de alguns parceiros europeus, decidimos que a melhor saída para o país a seria abdicar de um programa cautelar", afirmou o ministro Irlandês.

"Iremos ser um normal país da zona euro, tomando as nossas decisões no governo e conseguindo financiamento nos mercados", afirmou o Irlandês. Este é aliás um desejo do governo português reafirmado ontem pelo ministro Paulo Portas, para quem a "prioridade" do executivo é "terminar o programa, para reavermos a autonomia financeira e sermos senhores do nosso destino".

"No momento certo, falaremos sobre o modelo adequado de regresso aos mercados", prometeu Paulo Portas. "A Irlanda tomou esta decisão quando está a um mês de terminar o seu programa. Faltam sete meses para Portugal terminar o programa", disse, por sua vez, o ministro da Presidência.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Christine Lagarde, com quem o ministro Noonan falou ontem de manhã, emitiu um comunicado a afirmar que "as autoridades irlandesas mostraram um forte empenho na aplicação das políticas e isso é um bom prenúncio agora que saem do programa".

Lagarde destacou ainda que "embora se vivam incertezas na Europa e na economia a nível global, a Irlanda encontra-se numa posição forte, ao nível dos títulos de dívida e conseguiu uma almofada financeira considerável".

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