Merkel admite preocupação com dívida portuguesa

Deputados alemães afirmaram hoje que a chanceler Angela Merkel manifestou preocupação com o aumento dos juros das obrigações portuguesas, durante uma reunião à porta fechada, noticiou a agência Reuters.

De acordo com a Reuters, que citou participantes no encontro entre Merkel e deputados do seu partido, a CDU, a chanceler alemã deu conta de algum alívio quanto à evolução do mercado da dívida pública espanhola e italiana, apesar das preocupações com a evolução das taxas de rendibilidade ('yields') da dívida portuguesa.

"Os prémios de risco de Portugal são uma preocupação" terá dito Merkel, de acordo com os participantes na reunião, citados pela Reuters.

No encontro, acrescentaram os participantes, Merkel também demonstrou alguma abertura para o funcionamento paralelo, durante algum tempo, dos dois fundos de resgate da zona euro - o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (FEEF), temporário, e o Mecanismo Europeu de Estabilidade (MEE), permanente.

A chanceler alemã não deu qualquer indicação sobre o aumento da capacidade de financiamento dos dois fundos, acima dos 500 mil milhões de euros, tendo também dito, de acordo com as fontes citadas pela Reuters, que "não será tocado" o limite de financiamento de 500 mil milhões de euros do MEE.

Os participantes na reunião disseram ainda que Merkel não deu indicações sobre a possibilidade da Alemanha ceder à pressão de diferentes parceiros alemães para permitir que os recursos combinados do FEEF e do MEE ultrapassem os 500 mil milhões de euros.

As grandes economias mundiais, entre as quais os Estados Unidos e a China, estão a pressionar a Europa para alargar as verbas dos fundos de resgate, como condição para aumentarem os recursos do Fundo Monetário Internacional para combater a crise da dívida soberana na zona euro.

No final do mês, a zona euro deverá chegar a uma decisão sobre o reforço das defesas contra a crise, sendo que uma das possíveis soluções é a junção dos 250 mil milhões de euros remanescentes no FEEF aos limites do MEE, o que daria a este fundo uma capacidade de 750 mil milhões.

Exclusivos

Premium

Viriato Soromenho Marques

Madrid ou a vergonha de Prometeu

O que está a acontecer na COP 25 de Madrid é muito mais do que parece. Metaforicamente falando, poderíamos dizer que nas últimas quatro décadas confirmámos o que apenas uma elite de argutos observadores, com olhos de águia, havia percebido antes: não precisamos de temer o que vem do espaço. Nenhum asteroide constitui ameaça provável à existência da Terra. Na verdade, a única ameaça existencial à vida (ainda) exuberante no único planeta habitado conhecido do universo somos nós, a espécie humana. A COP 25 reproduz também outra figura da nossa iconografia ocidental. Pela 25.ª vez, Sísifo, desta vez corporizado pela imensa maquinaria da diplomacia ambiental, transportará a sua pedra penitencial até ao alto de mais uma cimeira, para a deixar rolar de novo, numa repetição ritual e aparentemente inútil.

Premium

Maria do Rosário Pedreira

Agendas

Disse Pessoa que "o poeta é um fingidor", mas, curiosamente, é a palavra "ficção", geralmente associada à narrativa em prosa, que tem origem no verbo latino fingire. E, em ficção, quanto mais verdadeiro parecer o faz-de-conta melhor, mesmo que a história esteja longe de ser real. Exímios nisto, alguns escritores conseguem transformar o fingido em algo tão vivo que chegamos a apaixonar-nos por personagens que, para nosso bem, não podem saltar do papel. Falo dos criminosos, vilões e malandros que, regra geral, animam a literatura e os leitores. De facto, haveria Crime e Castigo se o estudante não matasse a onzeneira? Com uma Bovary fiel ao marido, ainda nos lembraríamos de Flaubert? Nabokov ter-se-ia tornado célebre se Humbert Humbert não andasse a babar-se por uma menor? E poderia Stanley Kowalski ser amoroso com Blanche DuBois sem o público abandonar a peça antes do intervalo e a bocejar? Enfim, tratando-se de ficção, é um gozo encontrar um desses bonitões que levam a rapariga para a cama sem a mais pequena intenção de se envolverem com ela, ou até figuras capazes de ferir de morte com o refinamento do seu silêncio, como a mãe da protagonista de Uma Barragem contra o Pacífico quando recebe a visita do pretendente da filha: vê-o chegar com um embrulho descomunal, mas não só o pousa toda a santa tarde numa mesa sem o abrir, como nem sequer se digna perguntar o que é...

Premium

Maria Antónia de Almeida Santos

"O clima das gerações"

Greta Thunberg chegou nesta semana a Lisboa num dia cheio de luz. À chegada, disse: "In order to change everything, we need everyone." Respondemos-lhe, dizendo que Portugal não tem energia nuclear, que 54% da eletricidade consumida no país é proveniente de fontes renováveis e que somos o primeiro país do mundo a assumir o compromisso de alcançar a neutralidade de carbono em 2050. Sabemos - tal como ela - que isso não chega e que o atraso na ação climática é global. Mas vamos no caminho certo.