Indignação traduziu-se nas milhares de pessoas na rua

A coordenadora da Frente Comum fez um balanço "positivo" da manifestação que reuniu milhares de pessoas esta tarde junto ao Parlamento, em Lisboa, e desvalorizou os incidentes nas escadarias da Assembleia da República.

"Foi uma grande manifestação. As pessoas estão muito indignadas e a ação traduziu-se em milhares de pessoas na rua. Foi uma ação com um saldo positivo e cumpriu os objetivos traçados, nomeadamente, o de exigir ao Governo que elabore um calendário para a reposição dos salários", disse Ana Avoila aos jornalistas no final do protesto.

A manifestação promovida pela Frente Comum dos Sindicatos da Administração Pública e que esta tarde reuniu milhares de pessoas junto ao Parlamento terminou pelas 18:00, sem incidentes, depois de alguns manifestantes terem tentado subir a escadaria da Assembleia da República.

À medida que os participantes se iam concentrando junto à escadaria do edifício, algumas dezenas de manifestantes que participavam na ação de luta promovida pela Frente Comum tentaram subir a escadaria da Assembleia da República, mas foram travados por dezenas de elementos das forças policiais, constatou a Lusa no local.

Ana Avoila desvalorizou o incidente, considerando que "a manifestação foi organizada" e decorreu de forma ordeira.

"Foi [um acontecimento] natural e não teve consequências, porque as pessoas estão cansadas desta política, mas o que importa reter aqui são os milhares de pessoas que manifestaram o repúdio a este Governo", sublinhou a dirigente sindical.

Durante o desfile, entre o Príncipe Real e a Assembleia da República, uma delegação da Frente Comum, dirigida por Ana Avoila, entregou no Tribunal Constitucional uma carta na qual solicitaram aos juízes para que respeitem a Constituição e não cedam a pressões políticas.

Também o secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, se juntou ao protesto e, a par de Ana Avoila, encabeçou o desfile que teve início pelas 15:30 no Príncipe Real, em Lisboa, antes de chegar à Assembleia da República.

"Estamos muito satisfeitos, estamos sinceramente convictos de que valeu a pena esta semana de luta e outras se seguirão porque temos um Governo que, perante as decisões das instituições, continua a fazer ouvidos de mercador ou a virar as costas", considerou Arménio Carlos.

O líder da CGTP deu como exemplo a decisão recente do Executivo relativamente aos descontos para a ADSE e outros subsistemas de saúde.

"O que o Governo está a fazer é a desrespeitar a lei e a desrespeitar as instituições. Quando pega no mesmo documento e o apresenta na Assembleia da República está a provocar e a desrespeitar as instituições e a faltar ao respeito ao país", disse.

O Governo aprovou e enviou na quinta-feira para o Parlamento uma proposta de lei em que mantém inalterado o aumento dos descontos para a ADSE de 2,5% para 3,5% e que tinha sido vetada, no mesmo dia, pelo Presidente da República.

No entender de Arménio Carlos, o Governo "está, mais uma vez, a entrar em rota de colisão com as instituições, sobrepondo-se a tudo e a todos", assumindo-se de "forma arrogante e prepotente".

Os manifestantes exigiram hoje ao Executivo a reposição dos cortes nos salários e nas pensões, bem como a reposição das 35 horas de trabalho semanal e a reivindicação da aplicação dos Acordos Coletivos de Entidade Empregadora Pública (ACEEP), assinados entre os sindicatos e as autarquias e que aguardam a promulgação do Ministério das Finanças para que possam ser aplicados, permitindo a manutenção das 35 horas, contra as 40 horas semanais em vigor na administração pública.

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