"Há mais casas do que pessoas"

Quem visita o Parque das Nações, na zona oriental de Lisboa, não imagina que, durante décadas, os seus 340 hectares não passavam de uma área industrial onde "só ia quem precisava mesmo". A menos de dez minutos de carro, nas Avenidas Novas, fica evidente a aposta do sector da construção civil durante décadas, centrada em habitações novas e esquecendo a reabilitação urbana.

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Quando José Moreno se mudou, a 30 de abril de 1998, para o que é hoje o Parque das Nações, faltavam três semanas para a inauguração da Expo"98 e eram ainda muitos os edifícios de habitação em construção. "Eu estive sozinho no prédio até ao fim do ano", recorda o sexagenário, que desde pequeno viveu nas imediações da zona industrial onde "só ia quem precisava mesmo". Um cenário que, 15 anos depois, poucos descortinam num bairro "que é quase uma cidade" e que, apesar de proporcionar uma boa qualidade de vida, não escapa às crítica de ter demasiado betão.

"Há mais casas do que pessoas", desabafa Helena Farias, sem largar o balcão da pequena mercearia instalada na zona sul do Parque das Nações. É ali, nas imediações da marina reativada há quase quatro anos e sob a imponência da antiga Torre da Galp, que a aridez do cimento impressiona quem visita a urbanização. A culpa talvez seja do cartão de visita: grandes faixas a anunciar a venda de dezenas de apartamentos em dois prédios.

Para Nuno Martinez, da imobiliária Remax - Platina situada a poucas centenas de metros daqueles edifícios, a situação reflete uma estratégia errada de construtores e promotores, sobretudo pelo "preço demasiado elevado" a que as habitações foram postas no mercado. "Há casas que nunca foram vendidas", revela, refutando a ideia de que se tenha construído em demasia. Prova disso é o facto de continuar a haver bastante procura, ainda que nem sempre a oferta seja suficiente.

"Podiam ter sido construídos mais apartamentos T2, que é o produto mais procurado", explica o corretor, ressalvando que o território onde decorreu a Expo"98 "não pode ser visto como regulador do mercado", por ter "uma vida muito própria".

"O Parque das Nações tem tudo", sintetiza Rui Miguel, residente há uma década na zona norte da urbanização. A área é a que fica mais próxima da Ponte Vasco da Gama e inclui o território que, até 13 de novembro, pertencia ao concelho de Loures. Desde então que todo o Parque das Nações é uma nova freguesia de Lisboa, criada de raiz no âmbito da reforma administrativa da capital. Mas é ali, onde ficam os cerca de 80 hectares de espaços verdes do Parque Tejo, que existe realmente vivência de bairro e a afamada qualidade de vida.

"São mais de cem hectares [110] de área verde, mas ninguém refere que estão quase todos no Parque Tejo", sublinha José Moreno, como quem chama a atenção para o betão que impera na zona sul... e não só. "Há ruas aqui na zona norte que também são muito estreitinhas. Abre-se a janela e sente-se o aroma do café da casa do vizinho", reconhece.

Ao todo, segundo o site da empresa que promoveu o projeto - a Parque Expo -, foram construídos, em 340 hectares, mais de 1,2 milhões metros quadrados de espaços destinados à habitação, 480 mil para serviços e 200 mil para comércio. Foram ainda criados 650 mil metros quadrados de parques de estacionamento, enquanto, no subsolo, foram implementadas 40 quilómetros de redes primárias de esgotos domésticos e pluviais e 286 de tubagens de redes de gás ou de água potável.

"Em termos de urbanismo é muito bem feito e em acessibilidades também", avalia Nuno Martinez. O corretor admite, porém, que é na zona norte que existe uma maior rotatividade de moradores e que, na zona sul, são muitas as casas vazias. Por falta de estratégia, insiste, até porque as casas no Parque das Nações são também cobiçadas por cidadãos estrangeiros com capacidade financeira que, ao adquirem imóveis por pelo menos 500 mil euros, podem obter um visto de residência no âmbito do programa Golden Visa.

Argumentos que não convencem Helena Farias. Afinal, em dois anos, são "muitos" os negócios que já viu abrir e fechar pouco depois. Mas a sentença sai depois, com a estupefação evidente na voz: "Já vi apartamentos em saldo."

Reabilitação foi "esquecida"

A viagem da Alameda dos Oceanos à Av. da República, no centro da capital, dura apenas dez minutos de carro, mas a diferença ao nível do edificado é abissal. Se o Parque das Nações é exemplo do crescimento do setor da construção durante "Os 25 anos de Portugal Europeu", do estudo da Fundação Francisco Manuel dos Santos, as Avenidas Novas mostram como a reabilitação foi esquecida.

Quase frente a frente, entre o Saldanha e o Campo Pequeno, um prédio degradado está em obras, enquanto outro, de janelas abertas e uma tábua de madeira como porta, parece esperar o dia em que a força do tempo o reduza a pó. O roteiro pela degradação continua até ao Marquês de Pombal, pela Av. Fontes Pereira de Melo, onde os graffiti distinguidos internacionalmente dão cor a uma panorama que já poucos notam. Só um turista fotografa os desenhos que disfarçam o abandono.

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