Empresários admitem dar poupança na TSU a trabalhadores

Os empresários do calçado defendem que a redução da contribuição das empresas para a Segurança Social e o agravamento para os trabalhadores é uma medida injusta, admitindo distribuir a poupança alcançada pelos seus funcionários.

"O dinheiro que eu ganhar será diretamente para os trabalhadores", garantiu o empresário de calçado Luís Onofre, na feira calçado em Milão, rejeitando que a proposta do Governo de reduzir a Taxa Social Única (TSU) conduza à criação de emprego.

O empresário explicou que distribuir a poupança conseguida com a redução da TSU "é uma forma de motivar" os 52 funcionários que emprega na fábrica em Oliveira de Azeméis, considerando que "se a ideia é aumentar a produtividade nacional, esta medida vai no sentido contrário".

"Este apoio às empresas não vai criar mais emprego. Eu não vou criar mais emprego", declarou.

O empresário Carlos Santos, dono da empresa de calçado Zarco, adiantou que a redução da TSU "não significa muito para as empresas já que os salários representam cerca de dez por cento do custo de produção", considerando que "chegou a uma altura em que há limites para os cortes salariais".

Foi nesse contexto que, no ano passado, deu um prémio aos mais de 100 trabalhadores, que representou cerca de um terço do ordenado: "Se puder, este ano voltarei a compensar os trabalhadores, porque quero vê-los satisfeitos e tenho a certeza de que há muitos empresários que vão fazer o mesmo".

Salvaguardados pelo facto de mais de 90 por cento da produção se destinar à exportação, Luís Onofre e Carlos Santos não destacam o impacto que a medida poderá ter no consumo interno, que é uma das maiores preocupações da Evereste, que vende metade da produção no mercado português.

"Psicologicamente as pessoas vão ficar ainda mais retraídas. Esta política está a atrofiar a economia em Portugal", afirmou António Carlos, administrador da Evereste, que receia também uma maior pressão sobre os preços por parte dos clientes internacionais.

No primeiro dia da feira de calçado, em Milão, o empresário contou que "a notícia de uma redução dos custos, se não for motivo para baixar os preços pelo menos será motivo para não aumentar. Já ouvi esse argumento".

Amílcar Monteiro, sócio-gerente da Kyaia, o maior grupo português de calçado, considerou "difícil" que a redução da TSU "sirva o objetivo proposto de criação de emprego", realçando o impacto sobre a quebra no consumo por via da perda de poder de compra.

"No dia a seguir ao anúncio do primeiro-ministro sentiu-se logo um novo abrandamento nas vendas", disse o empresário, presente na feira com a marca Fly London, considerando que "tirar sucessivamente dinheiro da economia está a criar um fosso maior".

Considerando que há "várias pontas soltas" sobre a medida, a Associação de Industriais de Calçado (APICCAPS) considera que "ainda é cedo para tecer um comentário sustentado sobre as medidas anunciadas pelo Governo".

"Temos de conhecer em detalhe todas as medidas apresentadas e, em especial, o que está relacionado com a descida da TSU, mas consideramos que há medidas mais urgentes, como a dificuldade no acesso ao crédito e o atraso no reembolso do IVA às empresas, que deveriam merecer atenção redobrada por parte do Governo português", disse aos jornalistas o porta-voz da APICCAPS.

Ainda assim, realçou, "tem de se ter uma preocupação muito grande de ter os trabalhadores ao lado das empresas neste esforço de aumento de competitividades das empresas e do país".

O Governo pretende reduzir a TSU em 5,75 pontos percentuais para as empresas -- dos atuais 23,75 por cento para 18 por cento - e aumentar em sete pontos percentuais - para 17 por cento - para os trabalhadores.

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