"É bastante difícil" conseguir quem queira ir para o Governo

O antigo ministro das Finanças Bagão Félix defende uma remodelação, mas confessa que na atual conjuntura é bastante difícil arranjar quem queira ir para o Governo, admitindo, ainda assim, que exista quem, por dever patriótico, o aceite.

Numa conjuntura como a atual acha que haverá quem queira ir para o Governo? "É bastante difícil, mas há pessoas que têm sentido patriótico...", responde Bagão Félix, em entrevista à Lusa.

O antigo governante assegura, no entanto, que "é importante uma remodelação", que deve ser feita a dois níveis: uma remodelação da orgânica do Governo e de alguns ministros.

"Foi um erro" a criação de mega ministérios "que juntam coisas completamente diferentes e até conflituantes", sublinha Bagão Félix, que se diz "favorável a mais ministros e muito menos secretários de Estado para obrigar os governos a falar e a despachar diretamente com o aparelho do Estado, com as direções-gerais, que hoje são completamente postas fora do circuito, são marginalizadas".

Já quanto às pessoas, o conselheiro de Estado diz que não se pronuncia, mas lembra que "uma boa chicotada psicológica era importante" e que a remodelação tem de ser rápida.

"A haver remodelação deve ser o mais rápido possível sob pena de perder efeito".

Em relação às divisões entre PSD e CDS, Bagão Félix diz que o Governo não tem alternativa: tem de resolver essas divergências.

"O país precisa de tudo menos de uma crise política. Em particular o primeiro-ministro e o ministro dos Negócios Estrangeiros têm o dever patriótico de não gerar uma situação de instabilidade política, embora com muitas contradições relativamente ao que prometeram e em relação ao que sempre foram as suas políticas, em particular o CDS".

Bagão Félix diz que as pessoas estão cansadas da mentira política e cita o Chanceler Bismarck para relembrar que "há três formas importantes de mentir: antes das eleições, durante a guerra e depois da caça".

Para o antigo ministro, "o que é mais revelador, é que sucessivamente os programas e as intenções com que os partidos, regra geral, se apresentam ao eleitoral, e estou a referir-me aos que têm possibilidades de governar, depois são sempre contraditados pela prática. Não é um, são todos, sucessivamente, e isso destrói a base mínima de confiança que é necessário ter".

Bagão Félix critica ainda uma outra evidência. "Um partido quando está na oposição tem sempre uma argumentação contrária daquela que tem quando está no Governo", lembrando o caso do Partido Socialista.

"O PS hoje fala de palavras interessantíssimas como crescimento ou outras palavras romanticamente interessantes, mas se estivesse no Governo, provavelmente não seria igual, mas não teria grande possibilidade de fazer de maneira diferente". Ou seja, conclui o antigo governante, "há que encontrar aqui um ponto de equilíbrio, recuperar alguma confiança do eleitorado, mas para isso os políticos também precisam de ter mundividência, precisam de perceber não apenas aquilo que se ensina nas universidades, mas também aquilo que é vivido na rua, na casa das pessoas, no trabalho, para compreender a realidade concreta do país que se governa".

Perante o facto de o líder do CDS ter escrito recentemente aos militantes a dizer que estava contra um aumento de impostos, Bagão Félix lembra que também o primeiro-ministro, já depois de serem conhecido os aumentos de impostos previstos para 2013, disse que era contra a subida de impostos.

"Um disse antes e outro depois. É, de facto, uma situação de dessintonia muito desconfortável. Não é uma crítica, mas percebo o desconforto em que esses líderes, em particular o do CDS, estará neste momento".

E não se sentirão os contribuintes gozados? "As pessoas terão alguma dificuldade em perceber", admite Bagão Félix.

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