500 consultas adiadas e tribunais a meio gás

Hospital de S.José está a funcionar com serviços mínimos. Campus de Justiça com poucos funcionários judiciais. Carris com mais autocarros que o habitual em dia de greve

Os comboios e os autocarros não saem dos terminais, mas as paragens de autocarros ainda vão tendo movimento, apesar do placard indicar: "Serviço Perturbado". Domingas Neto, 43 anos, quase se viu forçada a fazer greve e para chegar ao trabalho teve de trocar "o 28, que hoje não saiu, pelo 44". Numa paragem do Cais de Sodré, Domingas mostra-se um pouco incomodada com o assunto, mas diz de forma taxativa: "Claro que não concordo com a greve. Se concordasse não tinha vindo trabalhar".

Também Lea Martins, 35 anos, na paragem em frente, defende que "a greve não resolve nada". Natural de São Paulo, Brasil, Lea traça uma diferença entre as manifestações que têm ocorrido no seu país e a greve geral: "Há uma grande diferença que existe em termos de protesto. No Brasil é sempre tudo em massa porque somos muitos". Por fim, a empregada de mesa explica que saiu bem mais cedo de casa, mas que mesmo assim chegará atrasada ao trabalho.

"Antes no Brasil, as greves e protestos eram como esta de hoje aqui em Portugal. Não tinham efeito. Em 35 anos os únicas manifestações que vi com efeito no Brasil foram estas agora", conta a brasileira que trabalha há sete anos em Portugal.

Nas urgências do S.José a azáfama contrasta com a acalmia da cidade. O secretário-geral da UGT, Carlos Silva, chegou esta manhã ao local ao mesmo tempo que o DN, e reivindica vitória na greve, embora ainda não sejam onze da manhã. Ao DN, Carlos Silva diz que a greve "bloqueou totalmente" o hospital, lembrando que "em 500 consultas previstas nem uma se realizou".

O sindicalista diz que "este é um sinal claro ao Governo" e que houve "uma adesão de 90% entre enfermeiros, técnicos auxiliares e pessoal administrativo". Os blocos de cirurgia só abriram para casos urgentes e o hospital funcionou ao ritmo de serviços mínimos.

O DN confirmou em parte a radiografia feita à greve no hospital por Carlos Silva. Na zona de consultas externas uma enfermeira de bata azul serve de barreira a quem quer entrar no edifício e com postura de sentinela, vai dizendo: "Hoje não há consultas". Após barafustarem é desta trabalhadora que os doentes vão ouvindo um desabafo: "Que quer que lhe faça? Eu vim trabalhar. Mas só estou eu e duas enfermeiras-chefes."

Cada utente, cada protesto. Maria dos Anjos que chegou de Santa Iria mostrou-se indignada: "Telefonei para cá ontem para ter a certeza. Disseram-me para vir e agora não tenho consulta. Não há direito!"

Pior ficou Maria Augusta que veio de propósito da Guarda para uma consulta pela qual esperava há seis meses e bateu com o nariz na porta. Já ao início da manhã tinha levado uma nega no Hospital de Santa Marta para uma consulta relacionada com o seu pacemaker.

No Campus da Justiça um funcionário judicial dá conta ao DN do sucesso da greve, explicando que "nesta secção costumam estar dez pessoas, mas hoje só estou eu e é por força dos serviços mínimos, senão estava de greve também".

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