Pátria de luto e "sem chuteiras"

Bandeira a meia haste, rostos em lágrimas, capas pretas. Replica-se o "Maracanazo" de 1950 em várias versões. Mineiraço, Salsichaço. A imprensa brasileira grita bem alto a derrota histórica nas suas manchetes. Vexame, humilhação. Não há consolo possível para o Brasil nestas páginas.

A Folha de São Paulo, depois de ontem à noite ter disparado um "Mineiraço" na manchete da edição online, com uma foto a rasgar todo o ecrã com as redes massacradas da baliza de Júlio César, imprimiu hoje uma primeira página em tons negros, com um título sóbrio mas a soar a quase suave: "Seleção sofre a pior derrota da história". Lá dentro, segue a bofetada com requintes de luva branca, resgatando uma formulação (feliz) do célebre cronista da bola e do Brasil Nelson Rodrigues (falecido em 1980). Titula no editorial: "Pátria sem chuteiras". Nelson Rodrigues escreveu, entre 1950 e 1970, dezenas de crónicas, que foram reunidas no livro "A Pátria de Chuteiras." Chamava ao jogo dos seus "o mais belo futebol da Terra".

O país adormeceu - ou não dormiu, numa noite de samba ao contrário - incrédulo. Para onde foi o mais belo futebol da Terra? E os jornais marcam a fúria de milhões, com o tamanho de letra maior que conseguem editar.

"Um vexame para a eternidade" titula o Correio Braziliense, numa capa em que, depois do título, é um texto que ocupa toda a faixa central, com um texto de João Valadares que começa assim: "Há quem diga que o futebol explica a vida. Eu sou um deles. E, se você concorda comigo, terá que admitir que ontem morremos." O texto segue, página abaixo, ladeado de rostos, uns que choram, outros que se espantam. Anónimos e conhecidos. E Scolari, apanhado a fazer o sinal de "sete" com os dedos, a dar indicações para dar a volta ao jogo. Ficou para a posteridade.

O jornal O Dia põe o selecionador nessa mesma pose, a ocupar toda a primeira página. E grita: "Vá pro inferno você, Felipão!" O Agora São Paulo titula "Salsichaço!"

Se a algum brasileiro apetecer recordar esta data, não terá dificuldade em escolher posters de indignação nas capas dos jornais.

No Globo, David Luiz de gatas sobre a relva, vergado pelas palavras: "VERGONHA/VEXAME/HUMILHAÇÃO". Assim mesmo.

A Folha de Pernambuco põe a bandeira do Brasil a meia haste sobre um fundo negro. Já o Extra, trouxe dos arquivos uma foto a preto e branco do jogo de 1950 e titula: PARABÉNS. Dirigidos "aos vice-campeões de 1950 que sempre foram acusados de dar o maior vexame do futebol brasileiro". Para concluir: "Ontem conhecemos o que é vexame de verdade."

Já o Meia Hora de Notícias tem uma capa com fundo negro. Ou uma não capa. Escrevem eles: "NÃO VAI TER CAPA". E explicam que "hoje não dá para fazer graça, a gente ficou com vergonha". Podia ficar por aqui mas não fica. Escrevem, depois: "Amanhã nós voltamos" com asterisco. E diz o asterisco: "Enquanto você lia isso.... mais um gol da Alemanha".

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