"Se me oferecerem um milhão de euros eu saio" da TVI

Manuela Moura Guedes diz que nunca foi contactada pela administração da estação  de Queluz para rescindir, que vale mais que os 600 mil euros de que falava a 'TV Guia' de ontem,  e que, quando voltar, fará um jornalismo diferente. Para ela, Júlio Magalhães é um 'entertainer'

É verdade que está a negociar com a administração a sua saída da TVI, como afirma a TV Guia?

Estou abismada. Acabei de comprar a revista e ainda não vi o texto lá dentro, mas desmenti aquilo.

Desmente o quê? As negociações, os 600 mil euros?

Eles gostam é de fazer títulos. Estas revistas auto-apelidam-se de jornalismo. É asqueroso.

Mas está ou não a negociar com a administração?

Eu sei lá.

Não sabe? Já falou ou não com alguém da TVI para rescindir?

Nunca. Claro que se me oferecerem uma quantia de dinheiro que seja justa, vou pensar nisso. Neste momento não há nada disto.

A revista diz que as negociações deverão terminar em Dezembro.

Deve ser um presente de Natal...

E que a discussão começou em um milhão de euros...

Se me oferecerem um milhão de euros, eu saio. Você não saía? Toda a gente saía.

No início do Verão, disse que, se a saúde o permitisse, voltaria à TVI em Setembro. Mantém?

Não quero falar disso. Depende daquilo que acabou de falar.

Da opinião do médico?

Sim. Tenho de me sentir bem para voltar ao "local do crime".

E sente-se bem?

Claro que me sinto muito melhor, mas tenho de ter a certeza de quem me acompanha.

E tem vontade de voltar?

O que me faz pena é ver a informação da TVI chegar onde chegou. Ver o trabalho todo que tivemos e ver esse trabalho perdido. Na sexta-feira passada, e a sexta-feira é emblemática, tiveram 13 por cento de share. Não me lembro, a não ser nos anos 90, de a TVI ter esses resultados.

A que se deve essas audiências?

É a factura que estão a pagar da falta de credibilidade. A informação da TVI anda praticamente sempre em terceiro. É uma coisa que mete dó. Quando pegámos naquilo, a informação da TVI não tinha credibilidade, e agora está a voltar ao abandono. Foi a pouco e pouco. Há estudos sobre isso: nós éramos a informação que dava mais economia, que mais aprofundava os assuntos. Eu nunca dei crime no jornal de sexta. Nunca fomos para assuntos fáceis.

Acha que agora estão a ir?

É muito triste. Não tem credibilidade, é feita de fait-divers. No outro dia, estava a ver um blogue, um dos sérios, que estava a comentar que, com meia hora, o jornal já estava a dar uma peça sobre swing e depois uma outra sobre gelados. Eu vi isso e meti as mãos à cabeça. Ao fim de meia hora de noticiário...

Isso não poderá estar relacionado com a habitual falta de notícias durante o Verão?

Não tem a ver com o Verão. Tem a ver com a filosofia. Estão sistematicamente a fugir aos assuntos que fazem parte da realidade do País.

Uma vez mais, critica o Júlio Magalhães, director de Informação da TVI.

O Júlio Magalhães é um óptimo entertainer. Não é jornalista.

Concluiu isso agora ou já tinha essa opinião quando era subdirectora e ele mero jornalista?

Fui formando essa opinião à medida que fui trabalhando com ele. Ele está mais à vontade a fazer coisas no entretenimento do que na informação. Outra coisa que não resultou foi a dupla Júlio Magalhães/Marcelo Rebelo de Sousa. Até agora, se não me engano, ganharam no primeiro dia e, mais uma vez, há duas ou três semanas. E por pouco. O jornal de domingo tem sido um derrotado sistemático, e isto apesar do investimento feito no Marcelo. Foi um desastre. Nem isso funciona, tal a descredibilização que tem a TVI.

E isso deve-se a quê?

À mudança radical na filosofia da informação.

A ERC deliberou, no final de Julho, que a decisão da administração da TVI de suspender o seu jornal não se deveu a interferências do poder político. Nunca comentou esta deliberação.

Não vou falar sobre isso. A ERC não disse textualmente que o Governo interferiu, mas acabou por dizê-lo indirectamente quando disse que a administração foi sensível às críticas, que tinha querido agradar às pessoas do Governo. Houve uma coisa que aprendi ao longo des- te último ano.

Que foi...

Pode parecer um pouco pretensioso, mas sempre carreguei nos ombros a responsabilidade e a angústia de alertar as pessoas. Mas, a partir do momento em que escolhem o seu destino estando alertadas...

Está a falar de quem?

Do povo português. As pessoas estão mal, mas querem continuar dessa forma. Fiquei surpreendida, mas ao mesmo tempo aliviada. Eles sabem, já não tenho de ser responsável por eles. Isso tirou-me um pouco o fascínio do jornalismo mas deu-me paz de espírito. Já sinto algum distanciamento. A minha forma de fazer jornalismo mudou com isso.

Quer dizer que voltará de uma forma diferente?

Se calhar. Já conheço melhor os destinatários. É um povo mais complicado, menos reactivo, conformado. Por isso, sim, seria naturalmente diferente. Muito menos inquieta porque não carrego esse peso, essa inquietação. O meu jornalismo seria diferente. Aliás, será diferente. Tenho alguma esperança de que não tenha morrido. A minha "morte" foi francamente exagerada na avaliação financeira.

Acha que não vale os 600 mil euros de que fala a TV Guia?

Eu valho muito mais do que isso. Mas para já está a zeros.

Quanto vale?

Há uma decisão da ERC que considera ilegal o acto de a administração suspender o jornal de sexta. Além disso, foram proferidas afirmações de todo o género a meu respeito, o que implica complicações várias no mercado de trabalho, e eu só tenho o meu nome. Em termos judicias, num processo negocial, vale muito dinheiro.

Então 600 mil euros é pouco?

Claro que é.

Há pouco falámos do milhão de euros. É esse o valor?

É uma coisa mais aceitável.

E a SIC já a sondou?

É melhor perguntar à SIC. Mesmo que fosse verdade, nunca falaria sobre isso.

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