As quatro razões da recusa de Moniz ao Benfica

A Prisa não garantiu o regresso  do director-geral caso perdesse as eleições de 3 de Julho, porém, este não foi o único  motivo que levou o jornalista a adiar a sua candidatura ao seu clube do coração.

Só ao final do dia de ontem, José Eduardo Moniz decidiu que não avançaria como candidato à presidência do Benfica. Durante a tarde tinha dito a José Veiga, principal impulsionador do "Movimento Benfica Vencer, Vencer", que queria avançar. Mas não esperava que a Prisa, com cujos responsáveis se reuniu, recuasse no que lhe tinha apalavrado: o regresso ao grupo e ao mesmo posto caso perdesse as eleições, o cargo de consultor ibérico em caso de vitória. Mas essa não foi a única razão que o levou a recuar e ficar na TVI, onde os funcionários, na sua maioria, festejaram a recusa.

1. Falhanço nas negociações com a Prisa, grupo accionista maioritário da TVI.

José Eduardo Moniz começou o dia de ontem a tomar o pequeno-almoço com José Veiga. Voltou a mostrar a sua vontade em ir a votos e o antigo empresário ficou convencido. Depois, Moniz foi para a TVI e passou lá o dia. À tarde, voltou a reunir com o delegado da Prisa, Miguel Gil. Só que o que ficara acordado na véspera, o regresso ao mesmo cargo se perdesse as eleições com Luís Filipe Vieira, não tinha tido luz verde dos responsáveis de Madrid. "Seriam criadas razões para uma solução na TVI, de uma forma ou de outra, para ser presidente do Benfica", disse à noite. Mas não explicou como seria o seu futuro.

2. Falta de tempo para construir equipa.

José Eduardo Moniz leva o Benfica muito a sério. Como ontem revelou, já tinha manifestado a Luís Filipe Vieira a sua perturbação com o estado a que a equipa de futebol tinha chegado, pois não tinha títulos nem exibições que justificassem a história e a tradição do clube. O director- -geral da TVI queria construir uma equipa ganhadora, profissional. Mas, com a antecipação das eleições - que criticou duramente, tendo apelidado o acto de "golpe estatutário" - entendeu que mesmo que ganhasse não teria tempo para construir um plantel que pudesse lutar com FC Porto e Sporting pelo título: a época começa já daqui a duas semanas (28), e as eleições são logo depois (3). E quem conhece Moniz sabe que ele só se mete em projectos em que sabe que tem todas as condições para ganhar. "Construir um projecto implica conhecimento dos dossiês e tempo. Sobretudo, tempo. Um bem que a actual direcção, talvez por medo, resolveu tornar escasso. Sobretudo para uma pessoa como eu. Não preciso do Benfica para obter projecção nem coisa nenhuma, material ou outra."

3. Desconfiança das condições financeiras apresentadas.

Se a falta de tempo pesou na decisão final de Moniz, houve outra que o jornalista jamais assumirá publicamente. Moniz não acreditou a 100% na sustentabilidade financeira do projecto apresentado pelas principais figuras que o convidaram para ir a votos. O project finance mostrado a Moniz incluía, como o DN disse na sua edição de ontem, um investimento nos primeiros seis meses do mandato de 30 a 50 milhões de euros. Valores colocados à disposição por um grupo de investidores estrangeiros, que negociaram directamente com José Veiga que há mais de um ano se preparava para se "vingar" de Luís Filipe Vieira. Moniz queria mais solidez financeira para construir uma equipa de futebol pujante e que chamasse mais adeptos ao estádio. Por isso, esta razão entronca, completamente, na anterior. Falta de tempo e de dinheiro não combinam com José Eduardo Moniz, adepto de projectos a médio prazo. E de "um projecto novo, racional e moderno", como referiu à noite, lançando mais um ataque feroz: "Um Benfica fora da lógica das negociatas e dos desfiles de jogadores pela Luz sem se saber muito bem o que por lá andam a fazer." Aliás, Moniz criticou também os actos de gestão já tomados e que herdaria se ganhasse.

4. Família. Não dá muitas entrevistas, mas quando as dá realça, vezes sem conta, a família, o primeiro pilar da sua vida. O homem que sentiu muito a morte do seu pai e vai mantendo contacto à distância com a mãe, emigrada nos EUA, aceitou o desagrado que os filhos e a na mulher, Manuela Moura Guedes, viam quanto à exposição que passariam a ter e as pressões que iria sofrer. E esse aspecto pesou, e de que maneira, quando disse não ao convite de ir a votos. Como curiosidade refira-se que um dos seus três filhos (benfiquistas) jogou na temporada passada nos cadetes do Benfica em basquetebol.

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