"Conjugar austeridade com políticas ambientais"

A crise podia ser a oportunidade para Portugal optar por políticas de desenvolvimento sustentável, mas o País está a passar ao lado dessa oportunidade. Esta ideia marcou a presença de Francisco Ferreira no debate promovido ontem pelo DN.

"A desculpa da crise vai custar-nos muito mais caro", frisou o membro da associação ambientalista Quercus.

"Tenho uma preocupação muito grande e imediata, que diz respeito aos países em crise financeira, como Portugal: o ambiente está a sair de cena. A crise não nos permite ter dinheiro para lidar com os problemas ambientais", alertou Francisco Ferreira, também professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa. Na opinião do ambientalista, que foi membro da direção da Quercus de 1996 a 2001, Portugal entrou numa situação de "contraciclo", no que respeita a preocupações ambientais. "Não estamos a fazer nem a dar resposta com políticas de médio, longo prazo. Passámos do 80 ao oito", descreveu, lembrando que esse comportamento terá um preço: "Isso vai custar-nos de um ponto de vista económico, financeiro e ambiental."

As políticas ambientais dos governos - ou a falta delas - também estiveram na mira de Francisco Ferreira. "Portugal tem tido uma postura de país novo-rico, esbanjador", acusou o docente universitário. "Precisamos de uma política coerente, mais vale ter poucas decisões mas boas do que muitas sem resultados", sublinhou, por entre críticas às opções da tutela: "Energia e alterações climáticas são fundamentais, mas o Estado suspendeu os apoios à eficiência energética e energias renováveis." "O aparelho do megaministério [da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território] não está a funcionar", acusou.

Agora, a reestruturação do País, motivada pelo empréstimo da troika, podia ser a chance para uma consciencialização ambiental. "Temos de conseguir conjugar austeridade com políticas ambientais", apontou Francisco Ferreira, desgostoso por o memorando de entendimento com a troika não incluir medidas "verdes". "Faz-me impressão ver que o grande objetivo é o crescimento. Nós não podemos crescer numa lógica de maior consumo. Só há um país, a Costa Rica, que está acima do limiar de desenvolvimento humano e, ao mesmo tempo, tem uma pegada ecológica sustentável. Se vivêssemos todos como a Costa Rica chegaria um mundo. Mas, da forma como estamos, ele é insustentável. Precisamos de distribuir melhor os recursos", frisou. De resto, o próprio mundo continua à espera de um acordo geral de medidas ambientais que substituam o Protocolo de Quioto. Da cimeira [sobre alterações climáticas] de Durban saiu a promessa de acordo para 2020, mas aí é tarde demais", garantiu. Ainda assim, Francisco Ferreira promete continuar a lutar por um futuro melhor: "A missão das associações ambientalistas é não desistir."

Francisco Ferreira

- Tem 45 anos

- Foi presidente da Quercus de 1996 a 2001 e membro da direção até fins de 2011

- É professor da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa

- Natural de Setúbal, doutoutorado em Engenharia do Ambiente e especialista nos termos de energia e clima, Francisco Ferreira é um nome histórico da Quercus. É o dinamizador do "Minuto Verde", magazine televisivo sobre o ambiente que passa na RTP 1 e vai completar seis anos no dia 6 de março.

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