Greve geral feita à medida da crise

CGTP tem 15 mil activistas na rua, UGT conta com mais de mil. Arranque às 08.00 de dia 24 na Autoeuropa.

A crise dá, a crise tira. A actual crise económica e social é histórica e dá o mote perfeito para a quinta greve geral da democracia portuguesa. Mas também limita o envolvimento de muitas pessoas e, logo, a dimensão do próprio protesto, marcado para a próxima quarta-feira, dia 24. É o caso da crescente precariedade e pobreza que afecta milhares de pessoas e que, segundo observadores, "não se sentem representadas" pelas organizações que apelam à greve ou que "não têm acesso a esta forma de protesto".

Primeiro, a palavra aos actores principais, os líderes das centrais sindicais. Nenhum sabe quanto custa preparar uma greve desta dimensão, mas todos têm uma certeza: "Vai ser um sucesso."

Manuel Carvalho da Silva, secretário-geral da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses (CGTP), a estrutura que convocou a greve e à qual a União Geral dos Trabalhadores (UGT) depois se associou, acredita que "vai ser um movimento sem comparação" e que, da parte da central sindical e sindicatos próximos, "terá envolvido aproximadamente 15 mil activistas nesta fase de preparação que dura há já várias semanas". Ainda assim, explicou o sindicalista, "decidiu-se não convocar uma manifestação". Porquê? "Porque não é tradição. O objectivo é a paralisação. E seria contraditório mobilizar pessoas para um grande protesto de rua no centro da capital quando a greve afecta os transportes", admitiu. Existem fontes da central que referem que seria um risco muito grande embarcar num projecto desse tipo: não havendo transportes, as pessoas poderiam desmobilizar-se. Para além disso, seria mais um custo a ter em conta. Segundo a própria CGTP, a manifestação do 1 de Maio custou 80 mil euros.

Do lado da União Geral dos Trabalhadores (UGT), a motivação é grande, mas houve uma atenção especial aos custos. Pedro Roque, secretário-geral adjunto da UGT e o responsável pela logística da greve, confirmou ao DN que "foram confrontados diversos orçamentos no sentido de se obter um valor mais consentâneo com o período de crise que vivemos". A UGT diz que pôs na rua "cem mil desdobráveis, 5000 cartazes em diversos formatos (A2, A3 e A4), mil autocolantes". João Proença, que lidera a central, completa a informação: "Da nossa parte, estão envolvidos, seguramente, mais de mil activistas no apelo e preparação da greve." O secretário-geral disse ainda esperar "uma forte adesão, dependendo muito do grau de envolvimento do sector dos transportes". O arranque conjunto para a greve - com Carvalho da Silva e João Proença - acontecerá às 08.00 de dia 24, na fábrica da Autoeuropa, em Palmela.

O protesto de quarta-feira é contra um "mal maior", contra os efeitos da crise global e europeia, que estão a forçar uma redução brusca nos níveis salariais, nas prestações sociais, na capacidade de criar empregos e, no limite, uma nova recessão na sequência das políticas de redução do défice postas entretanto em marcha para aplacar a ira dos "mercados". Contra a lógica de que é preciso empobrecer e consumir menos para Portugal ser um país mais sustentável.

Crise também tira gás

Os especialistas explicam que a crise dá motivos para a greve, mas, "ironicamente", também tira fôlego ao protesto. Pedro Lains, investigador do Instituto de Ciências Sociais, considera que a greve geral "é, sobretudo, uma manifestação das pessoas que vão ter de pagar a crise a um preço que, podemos dizer, é injusto". Quem? "Os funcionários públicos, que estão bem representados nos sindicatos, os empregados que podem vir a ser confrontados com reduções de salários." Mas, claro, a crise atinge outros grupos, menos visíveis e com menos acesso a esta forma de protesto: "Os desempregados não fazem greve, os precários podem ter receio, os pobres não sei", refere.

De há poucos anos a esta parte, os mais precários organizaram-se em estruturas próprias e agora participarão na primeira greve geral.

Pedro Adão e Silva, politólogo, também repara que "a crise não é só económica e social, é a crise da falta de confiança das pessoas na mobilização e do facto de não se reverem nos discursos, é a crise dos próprios sindicatos que representam sobretudo trabalhadores com vínculos mais estáveis ao emprego, pessoas mais velhas". E diz que a greve de dia 24 é só portuguesa. "Se há um problema global e europeu gravíssimo, como se explica que esta greve geral não seja europeia ou, pelo menos, comum aos países da Zona Euro?", interroga-se. "Isto faz com que a mobilização tenha um misto de irrelevância e impotência face à situação", lamenta.

A CGTP e a UGT não faziam uma greve geral juntas desde 1988. Independentemente da adesão dos trabalhadores, na quarta-feira, o evento já é histórico: será a quinta da democracia portuguesa e a sétima do Portugal republicano. Entre 1935 e 1982 houve um longo vazio neste tipo de protestos que coincidiu com as quatro décadas da ditadura do Estado Novo.

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