Um processo 'escrito' por três mulheres

Felícia Cabrita, jornalista, Teresa Costa Macedo, antiga secretária de Estado da Família, Catalina Pestana, professora e ex-provedora da Casa Pia. Por ordem de entrada em cena, estas três mulheres ergueram o processo. O contributo de cada uma foi diferente. Mas todas assumiram a pedofilia como causa de combate.

Casa Pia, o escândalo nasce de uma investigação jornalística. O nome de Felícia Cabrita ficará para sempre ligado ao jornalismo de investigação e, em particular, a este caso.

Mas o alerta de que por trás de Carlos Silvino estaria uma rede de pedofilia com gente famosa foi fundamental para impedir o silêncio da notícia. Graças a Teresa Costa Macedo, que deu o mote, a dita rede abriu telejornais, alimentou especulações, trouxe para a praça pública nomes insuspeitos. A "rede" - cuja existência nunca foi demonstrada e foi considerada um dos mitos deste processo - é o contributo da consultora do Papa Bento XVI para a mediatização do caso.

Quando o "monstro" já crescia, fazendo mossa em vários meandros políticos, sobretudo no Partido Socialista, eis que surgiu Catalina Pestana, professora que já fora responsável pela direção de um dos colégios da Casa Pia, a jurar que "as crianças não mentem". A sua voz juntou-se à de Teresa Costa Macedo e a credibilidade da rede consolidou-se.

Catalina Pestana assumiu a postura de defensora, advogada, protetora e até de acusadora. A sociedade portuguesa depositou nela toda a confiança, sobretudo quando se colocou ao lado dos jovens, vítimas de abuso, contra Paulo Pedroso. A "mãe" dos Gansos (alcunha dos casapianos) mostrou sempre que acreditava, incondicionalmente, naqueles que protegia. Mesmo quando os via a acusar o membro do PS, assim como outras pessoas ligadas à política, à cultura e aos meios da alta sociedade. E era do conhecimento geral a proximidade de Catalina aos irmãos Pedroso, João e Paulo.

A voz da mulher que depois assumiu o cargo de provedora da Casa Pia, a convite de Bagão Félix, então ministro da Segurança Social e do Trabalho, voltou a ecoar com uma força tremenda quando exclamou no semanário Expresso: "Quando se souber tudo vai haver um terramoto de grau sete na escala de Richter." Catalina Pestana colocou-se por inteiro ao lado das vítimas, e sentindo a proteção e a simpatia dos portugueses, ia atiçando o monstro do processo que, com o seu empenho, crescia todos os dias.

Felícia foi a cara da notícia e deu a cara. Foi entrevistada por colegas, assumiu a defesa das vítimas, tornou-se, a certa altura, como que um ícone no combate à pedofilia. E tornou-se também uma personalidade mediática, embora já antes, sobretudo no seu meio profissional, fosse muito conhecida por outras investigações e reportagens. Felícia Cabrita, de repente, passou de profissional respeitada a profissional temida.

Teresa Costa Macedo surgiu no processo pela "mão" de Felícia Cabrita. A jornalista teve conhecimento, através de ex-alunos, nomeadamente de Pedro Namora e Adelino Granja e de funcionários antigos (como, por exemplo, o mestre Américo), de que a pedofilia na Casa Pia era uma velha questão.

A jornalista, atualmente no semanário Sol, também soube que, a certa altura, os responsáveis da instituição de ensino levaram o caso à tutela governamental, em 1982, depois de ocorrido um episódio em que um casal de namorados, casapianos, fora apanhado em casa do embaixador Jorge Ritto. Na tutela, à época, encontrava--se Teresa Costa Macedo que, confrontada em 2002 por Felícia Cabrita jurou que tudo fez para denunciar o caso.

A partir daquele momento deu a cara como heroína que já nos anos 80 tinha denunciado o que Felícia Cabrita acabara de revelar no Expresso.

E na explosão do escândalo, Catalina Pestana visitou Bagão Félix no seu gabinete e ter-lhe-á dito: "É preciso fazer alguma coisa."

Estas três mulheres foram a voz das vítimas, assumiram as suas dores, e nelas a opinião pública confiou a condução deste megaprocesso.

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