"Um agarrado fica sempre assim... é macaco!"

Implicou quase todos os arguidos, depois desmentiu. Diz que um dia se saberá a verdade, mas não revela se recebeu dinheiro para mudar o depoimento. Já dormiu na rua e foi viciado em drogas, agora está em tratamento com metadona.

Ilídio Marques nunca abre totalmente o jogo. Talvez porque, como ele próprio diz, "um agarrado fica sempre assim... como é que hei de dizer... é macaco". A fazer um tratamento com metadona, já não está a consumir droga nem a dormir na rua como acontecia em novembro, quando em tribunal, na repetição de parte do julgamento relativa aos crimes alegadamente cometidos na casa de Elvas, desmentiu o que tinha dito durante o processo principal.

"Essa foi mais uma fase de merda da minha vida. Não queria saber de nada. Pus a cabeça na areia. Mas depois apareceu a S., [a namorada] a puxar-me para cima, e uma relação mais séria ajuda a gente a olhar de outra maneira para as coisas", diz à mesa de um café, perto de Belém, onde nos encontrámos. S., na cadeira ao lado, ouve e confirma em silêncio, enquanto acalma e desculpa a cadela que não para quieta: "É um bebé. Só tem nove meses", explica .

Desde a primeira vez em que foi à Polícia Judiciária, a 16 de janeiro de 2003, até às suas últimas declarações em tribunal, a 16 de novembro de 2012, Ilídio Marques mudou completamente o discurso. Nessa primeira ida à PJ nem sequer quis falar - numa altura em que apenas Carlos Silvino tinha ainda sido preso - e depois foi assumindo um papel de testemunha-chave em todo o processo, chegando a implicar todos os arguidos, com exceção de Gertrudes Nunes. E há pouco mais de três meses deu o dito pelo não dito e, em julgamento, afirmou nem sequer conhecer os arguidos - com exceção de Silvino - e que nunca esteve em Elvas.

Por isso, a pergunta impõe-se: afinal qual é a verdade, a das primeiras declarações ou agora? Sorri, olha para o lado, num movimento de corpo que repetirá várias vezes durante a conversa, como que a ganhar tempo e a arrumar as ideias para decidir qual a melhor resposta a dar. "Acho que um dia se vai saber toda a verdade", afirma de forma evasiva. É preciso insistir e então repete a sua última versão dos acontecimentos, relatada em tribunal, a 9 e 16 de novembro.

"Não conheço estes senhores, nunca estive na casa de Elvas. Esta é a verdade", conta. Então e os relatos pormenorizados, durante dez audiências de julgamento? "É complicado", começa. E antes de a conversa continuar, pede para irmos para outro local mais calmo, ali perto, e já sem a presença de S.. "Ela sabe de tudo, mas não precisa de ser mais envolvida do que já está", justifica.

É já num jardim que explica os nomes apontados no processo: "Foram surgindo na comunicação social e falávamos entre nós. Quando chegávamos da PJ, dizíamos uns aos outros 'olha que eu falei de ti nesta ou naquela situação'", conta.

"Dizer a verdade e ficar bem com a minha consciência" é a explicação que dá para a mudança de testemunho, primeiro numa entrevista que deu em março de 2011, numa altura em que estavam em apreciação no Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) os recursos dos arguidos relativos à sentença da 1.ª instância, e em novembro de 2012 em tribunal.

Silêncio é a única resposta quando se pergunta se recebeu dinheiro para alterar as suas declarações. Recorde-se que, além de Ilídio, também Carlos Silvino, em entrevista ao jornalista freelancer Carlos Tomás, publicada na Focus a 26 de janeiro de 2011, voltara atrás no seu testemunho, seguindo-se duas outras vítimas - Ricardo Oliveira e Pedro Lemos - em setembro de 2011.

Uma mudança criticada por ex-colegas da Casa Pia. Bernardo Teixeira, em entrevista à Lusa, disse só encontrar uma explicação para justificar a alteração de testemunho de Ilídio: "Recebeu dinheiro para falar em defesa de alguém que ele incriminou." "É evidente quem é. São só os que envolveram determinadas pessoas, como a figura mais mediática do processo que estão a ser contactados para mudar o testemunho", disse, garantindo que nunca foi contactado "por quem quer que seja" com esse objetivo.

Uma situação que Ricardo Oliveira reconheceu em abril de 2012, já depois da decisão do TRL, mas que Ilídio não confirma: "O que posso dizer é que destes crimes pelos quais foram condenados, eles não são culpados."

Desempregado e à espera de saber a decisão do tribunal em relação aos crimes alegadamente cometidos em Elvas, Ilídio Marques está a aproveitar o tempo para fazer umas pequenas obras na casa onde agora vive, fazendo uso do que aprendeu numa instituição da Santa Casa da Misericórdia onde fez o curso de pintura da construção civil e restauro de móveis.

Conhecimentos que, durante uma das boas fases porque passou nesta última década da sua vida, o levaram a criar uma pequena empresa de construção civil. "Mas agora não quero trabalhar por conta própria. É que se nos enganamos em alguma coisa ou se nos esquecemos de uma coisa no orçamento que damos às pessoas, depois já não podemos voltar atrás e dizer, ah, afinal, é mais X. E depois perde-se dinheiro. Já para não falar nos impostos." Por isso, e a curto prazo, prefere trabalhar para outros, em pequenos trabalhos e, ao mesmo tempo, ir-se dedicando ao restauro de móveis. A preencher-lhe o tempo tem também a filha, de um anterior relacionamento. "Quero ver se não faço os mesmos erros dos meus pais", diz.

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