Saltaram muros e fizeram dos dormitórios salas de música

Agora são metade dos alunos, também são menos procurados, sobra-lhes os casos mais problemáticos. O ensino é mais diversificado e individualizado. O acolhimento deixou-se de fazer intramuros, o que merece críticas. A Casa Pia não consegue apagar a imagem de abusos sexuais provocada pelo processo.Mas quem lá trabalha garante que não há casa mais segura.

Os edifícios são monumentais, as salas são grandes e há espaço a envolvê- las. O ensino, diz- se sobretudo do profissional, é de qualidade. Ao serviço de quem não nasceu num berço de ouro, dando- lhes, até, teto e comida. Património e créditos assombrados por crimes sexuais quando quem frequentava antigos palacetes e conventos decidiu falar, contrariando práticas e regimes antigos que ditavam: "Ouve e cala." Está gravado na parede do colégio D. Nuno Álvares Pereira. Depois de "porta roubada" desmassificaram o ensino e acabaram com os dormitórios intramuros. Mas a imagem da pedofilia colou- se há 10 anos como segunda pele e não há meio de cair. Quem ali trabalha e estuda acredita que sim. Quando?

"Essa imagem vai acompanhar- nos durante duas a três gerações, mas acredito que vai desaparecer. Pensava que a Casa Pia se resolvia rapidamente e ainda não se resolveu, mas isso é um bocado o que acontece em Portugal com as políticas educativas. Vão- se fazendo aos bochechos e sem avaliar. O que se fez na Casa Pia foi um corte a X- ato e, até hoje, não se fez uma avaliação profunda das alterações", explica José Laje, professor de Música e coordenador da área.

Fala com um misto de raiva e de orgulho sobre a instituição onde trabalha, aquela que o formou a partir dos seis anos, como aluno externo por a mãe ali ser funcionária. Tem 46 anos e é professor desde os 21.

Professores, alunos e funcionários querem ser conhecidos pelos bons motivos e enumeram os prémios ganhos na fotografia ou na moda; a mestria no ensino da relojoaria; a formação de profissionais qualificados na hotelaria e na restauração; as oportunidades na aprendizagem da música, entre outros méritos. É preciso contrapor que não podem varrer para debaixo do tapete os aspetos negativos. "Fui professor da maioria dos alunos envolvidos no processo, nunca tive conhecimento de tal situação. Quando pensam que todos sabiam e que era uma prática normal, é mentira. É isso que custa!", responde José Laje. À conversa numa sala do Centro de Educação e Desenvolvimento D. Nuno Álvares Pereira, em Belém, que já foi dormitório e é agora utilizada para a prática de instrumentos de cordas friccionadas. Treino diário que inclui fins de semana. Os alunos levam os instrumentos para casa. O professor reconhece que é difícil concorrer com a PlayStation e lamenta que antigamente os interessados eram muitos e que agora sobram violinos, violoncelos e violas. Mas há sempre alguém talentoso e que faz da música profissão.

Os "gansos", nome pelo qual eram conhecidos os meninos e as meninas da Casa Pia e que se devia à farda de cor cinzenta, começaram por ser os órfãos e abandonados em Lisboa depois do Terramoto de 1755. Transformou- se numa instituição de solidariedade, alargando mais tarde o âmbito à população em geral, embora sem esquecer a vocação social. O processo Casa Pia afastou candidatos da classe média que a procuravam pela qualidade da formação. Mas os "gansos" respondiam, também, por uma filosofia de vida, seres que progrediam a nível pessoal e académico em bando, fazendo da união a força ( o voo dos gansos). E que procuravam que o que ali se passava não transbordasse para o exterior.

É passado, garante a presidente do Conselho Diretivo, Cristina Fangueiro, escolhendo o adjetivo "transparência" para caracterizar a gestão atual. Têm muito menos alunos, a população estudantil dos sete colégios é igual à do Pina Manique do antigamente. E as camaratas foram transformadas em salas de música e de oportunidades. Esforços para se descolarem da imagem de pedofilia e prevenir futuros casos. Mas Cristina Fangueiro reconhece que não pode prometer que não aconteçam. "Não há casa mais segura do que esta, estamos mais preparados e sensibilizados para nos defendermos. Ponho as mãos no fogo? Não, mas ponho para garantir que vamos até às últimas consequências se houver suspeitas. O problema é que nos abusos as pessoas não estão identificadas. Cada um de nós tem de estar preparado e atento."

Disciplina e concentração

É quarta-feira, aula de orquestra do professor Carlos Gomes, jovens que atuam com a Orquestra Metropolitana de Lisboa. Repetem as notas vezes sem conta, o que exige disciplina e concentração. Os alunos fazem parte do curso ( 3. º ciclo) de Ensino Integrado de Música, criado há quatro anos no D. Nuno Álvares Pereira. Muitos são oriundos de famílias carenciadas e desestruturadas e necessitam de aprender métodos de trabalho. Existe, ainda, as atividades extracurriculares de música e que resultam em grupos de percussão, de gaita de foles, na Oficina dos Malucos e no coro.

No mesmo colégio e à mesma hora, os mais pequenitos preparam- se para almoçar ( pré- escola), os alunos de Pastelaria acabam os bolos e as sobremesas que são servidos num espaço destinado ao ensino das técnicas de bar. "Devo o que sou hoje à Casa Pia e, apesar do escândalo, se um aluno nosso chegar com um certificado de nível 2 [9.º ano] consegue logo trabalho", assegura Eduardo Martins, 28 anos, chefe de cozinha e professor, também ele um casapiano. Os formandos têm sonhos altos. "Gostava de trabalhar no Hotel Miragem, fica perto de onde moro e é um bom hotel, cinco estrelas", confessa o Fábio Nunes, 17 anos. Tem vivido em lares de acolhimento e a escolha do curso de Técnico de Bar foi limitado pelas ofertas desses lares, agora acredita que pode fazer disso profissão.

Tamires Silva, 20 anos, Ângelo Mestre, 16, e Liliana Santos, 19, preparam uma aula de step. São alunos do 2.º ano do curso de Desporto e Condição Física com equivalência ao 12.º ano, no CED Pina Manique, que só administra o ensino profissional. O estabelecimento onde trabalhava Carlos Silvino e residiam muitas das vítimas de pedofilia. Já não existem dormitórios, acabaram há quatro anos em toda a Casa Pia, são agora ateliers para pessoas com deficiência e para projetos de novas oportunidades.

Os três jovens distanciam-se do principal motivo pelo qual a Casa Pia é notícia. Vieram de sítios diferentes, aconselhados por um amigo, um professor e um psicólogo, que viram neles características que não se adaptavam ao ensino regular e os condenava ao insucesso escolar ."É o único curso de Desporto em Lisboa, temos muita prática e eu quero dar aulas de fitness, justifica Tamires, que vem de Cascais. "Tem muita prática, é disto que gosto, quero trabalhar num ginásio", sonha o Ângelo, de Odivelas. "O meu objetivo é ir para a faculdade", acredita Liliana, de Sintra.

O curso de Técnico de Relojoaria é a carta de apresentação dos cursos do CED Pina Manique. Quem aqui se forma tem trabalho garantido, muitos na Suíça, país com cujos profissionais a instituição tem acordo. Mesmo assim, não chegam a dez por ano os novos candidatos. Mestre Anastácio (Paulo Anastácio), há 25 anos a ensinar, justifica que é um curso muito específico, exige maturidade e, sobretudo, minúcia e paciência. Daniela Rebelo, 22 anos, trabalha nos tempos livres numa relojoaria, e Raquel Oliveira, 17, tomou o gosto através da mãe, também ela empregada de relojoaria. Já Pedro António, 19 anos, inverteu a direção dos estudos para aprender uma profissão. "Fiz o 11. º ano, mas queria algo mais prático. Procurei a Casa Pia porque é conhecida pelos cursos e saídas profissionais." Lamentam que quem sabe do ofício não seja reconhecido quando trabalha num espaço comercial. O mais certo é emigrarem.

As residências estão espalhadas pela cidade, albergam menos alunos e há uma equipa de profissionais em cada lar, quando antigamente eram os alunos mais velhos que vigiavam os mais novos. Recebem crianças e jovens (não se separam irmãos) enviados pelos tribunais ou pelas comissões de proteção de menores. As opiniões dividem-se quanto à decisão de os acolher fora dos estabelecimentos de ensino. Isabel Arruda de Sá, diretora do D. Nuno Álvares Pereira, é uma das vozes discordantes. "O internamento fora dá mais transtorno, é mais caro e não sei se é a melhor solução. Bastaria alterar a forma de atuação."

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