Responsável da instituição fala sobre o escândalo e o futuro

É a terceira mulher a dirigir a Casa Pia de Lisboa na era pós-escândalo, depois de Catalina Pestana e Joaquina Madeira. Cristina Fangueiro garante que instituição está a renascer das cinzas sem perder o espírito de missão de há dois séculos.

Está ultrapassado o estigma do escândalo?

Sim. A imagem da Casa Pia de Lisboa ( CPL) junto dos seus parceiros da comunidade e das famílias dos nossos educandos e que conhecem o trabalho desenvolvido no quotidiano é reconhecidamente positiva. O nosso trabalho é o de, todos os dias, garantir melhores condições de vida, acompanhamento e educação para as crianças e os jovens que nos são confiados, quer pelas suas famílias quer pelos tribunais.

Carlos Silvino, " Bibi", é um fenómeno com explicação?

Não vivi a CPL dessa época, nem conheci o sr. Carlos Silvino, pelo que não considero correto falar sobre este ex- colaborador.

Conseguiu perceber o que se passou?

Não conhecia a cultura desta casa à época dos factos. O que lhe posso dizer é que à luz dos conhecimentos que atualmente a organização domina, e também do conhecimento da restante sociedade, é que o segredo, o sentimento de culpa, a vergonha e a proteção da boa imagem do abusador, são comportamentos facilmente assumidos pelas vítimas de abuso sexual. Recordo que faz parte do comportamento do abusador tornar- se uma pessoa próxima, amiga, simpática e de comportamento afável junto de potenciais vítimas até conseguir os seus intentos.

Pode garantir que os abusos sexuais deixaram de acontecer na CPL?

Nenhuma instituição do mundo que acolha crianças consegue garantir que não existe a ameaça do abuso sexual, mas posso garantir que neste momento somos uma das instituições mais preparadas para minimizar a possibilidade dessa ocorrência. A CPL está particularmente sensibilizada para esta matéria, e é detentora de mecanismos preventivos e de controlo.

As vítimas de pedofilia foram indemnizadas em 50 mil euros, muitas das quais "estouraram" o dinheiro num ápice e sem critério. A CPL deveria ter acompanhado mais de perto este processo?

A Casa Pia acompanhou, desde sempre, os educandos envolvidos no processo prestando- lhe apoio psicológico, social e jurídico. Tendo em conta a idade destes jovens, a instituição não pode interferir diretamente na gestão do seu património, embora, sempre que o solicitassem, tivessem sido acompanhados e orientados no sentido da melhor gestão dessas indemnizações.

Até quando vai a CPL pagar a advogados para defender os assistentes no processo?

Até quando for necessário.

Acredita que por detrás do escândalo poderá ter estado um ataque ao património de valor incomensurável que detém a CPL?

Este processo judicial tão complexo e que abalou a sociedade portuguesa alimentou inúmeras especulações. Do meu ponto de vista não acredito que este processo tenha ligações a essa matéria.

Dez anos de processo é muito tempo? Até que ponto o alongar no tempo este processo judicial prejudicou a instituição?

Julgo que a demora de todo este processo prejudicou acima de tudo as vítimas do mesmo. Acredito que esta situação foi certamente mais penosa para eles. A instituição teve de virar a página, porque sempre teve crianças consigo que não merecem, nem precisam que fiquemos imobilizados no passado. O futuro é construído no presente e é com este princípio que todos os dias damos o melhor de nós mesmos.

Houve diminuição do número de alunos decorrente do processo de pedofilia?

Quando cheguei à Casa Pia deparei-me com uma instituição empenhada em provar à sociedade a sua capacidade de resposta para ultrapassar estigmas que eventualmente ainda prevaleciam. Confrontei-me com uma instituição que vivia um estado de espírito vigilante, mas muito confiante no valor do seu trabalho quotidiano. Mais, senti de uma forma inequívoca que a comunidade educativa e formativa estava unida em prol da missão da nossa instituição. Senti também que os colaboradores estavam fortemente empenhados no seu dia a dia em dissipar as repercussões negativas do processo e em restabelecer a imagem favorável desta instituição com mais de dois séculos e cujo pioneirismo nas áreas da educação, formação e acolhimento são umarealidade incontornável. O forte sentimento de pertença e a forte identidade institucional têm sido fator de empenho por parte de todos quantos estão ligados à instituição.

Quais as maiores dificuldades que encontrou quando assumiu o cargo de presidente do conselho diretivo?

Precisei de me adaptar à mudança de funções, pois passei de uma realidade nacional, cuja função assentava em propor medidas, regular e definir parâmetros a nível nacional para o cumprimento de normativos, com vista à execução das políticas de ação social, de combate à pobreza e de dinamização da cooperação com entidades do sector social, para uma realidade mais circunscrita. Esta requer de mim umaproximidade e um papel mais interventor e diretivo. Estou mais próxima das vulnerabilidades e dos problemas destas crianças e jovens, das suas famílias e também dos colaboradores.

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