"Prefiro roubar a deixar um filho numa instituição"

Os seus depoimentos levaram à condenação de todos os arguidos. Durante três anos, chegou a ter três agentes da PSP 24 horas por dia como seguranças. David trabalha numa discoteca, namora com uma 'stripper' estoniana e aprendeu a defender-se com o 'thai boxing'

"Não tenham vergonha de dizer que são alunos da Casa Pia. Eu tenho orgulho de confessar que fui um 'ganso'. A instituição poderia ter-me protegido melhor, mas não me obrigou a fazer o que fiz. O que me faltou foi a família." David, como quer ser conhecido, faz questão de lembrar que foi o rapaz - hoje "homem de 26 anos" - que contou à polícia histórias de abuso sexual que sofreu dos 12 aos 14 anos, por parte de Carlos Silvino, Manuel Abrantes, Carlos Cruz e Ferreira Diniz.

Os seus depoimentos foram considerados credíveis e resultaram nas condenações dos arguidos. "Sou uma peça fundamental no caso", observa David, que no início do processo era acompanhado por segurança pessoal. "Cheguei a ter quatro agentes, 24 horas por dia. Não podia sair sozinho. Esta situação durou cerca de três anos."

David - ou "LN" como sempre lhe chamaram durante o processo, ou ainda "Quaresma", futebolista português com quem às vezes é confundido - não chegou sozinho ao local combinado com o DN, os jardins de Belém. "É a Olga, a minha namorada, fala só inglês, mas podemos estar à vontade porque conhece todo o meu passado. Comigo é assim, se gosta de mim aceita a minha vida, senão cada um segue para seu lado."

Com Olga, natural de Talin, capital da Estónia, caminha de mão dada. Ela é uns centímetros mais alta. Vistosa e bonita, com uns olhos verdes que encantaram "LN" quando a conheceu há cerca de dois meses, à porta de uma discoteca em Lisboa onde ele trabalha. Ela, que tem o curso superior de Design e Restauro, é stripper também num bar lisboeta. Ri-se dos gestos do namorado português, que "parece estar sempre a lutar", exibindo as artes que aprende no thai boxing, que pratica três vezes por semana no Belenenses. E quando a conversa se desenrola em português, Olga, de 21 anos, põe um ar sério como que se entendesse as palavras agrestes que David atira quando se fala nos acusados do processo. "Sinto pena, raiva, mas sobretudo desprezo."

Não permite que o questionem sobre a veracidade do que disse durante a investigação. É que só na terceira vez que foi prestar declarações à PJ é que confessou os abusos sexuais. Antes até tinha dito que Carlos Silvino era um "gajo porreiro". Medo, falta de coragem e cumprimento de uma das regras sagradas dos casapianos, "não bufar", foram as razões para o silêncio inicial.

"Depois mentalizei-me de que tinha de os enfrentar e contei tudo à judiciária. A partir desse dia e da altura em que decidi ir à sala de audiências olhá-los de frente senti-me a pessoa mais forte e, interiormente, pus uma pedra neste assunto. Psicologicamente, está tudo arrumado", afirma, contrariando uma das conclusões do exame clínico e psicopatológico de David, feito durante o processo, quando tinha 16 anos. "O seu comportamento dá conta da existência de defesas do tipo maníaco, de fuga para a frente e com recurso a situações de humor", lê-se no relatório da psicóloga, que examinou a maioria dos vítimas do processo.

Já se passaram dez anos e "tudo é diferente, sou um rapaz normalíssimo", atira David, que foi abandonado pela mãe aos cinco anos, não conhece o pai e entrou na Casa Pia com 11.

Garante que também os relacionamentos sexuais são "normais", gosta de "mulheres" e nunca evitou o contacto físico.

"Sexualmente? O meu livro de reclamações está vazio", diz, soltando uma gargalhada que leva a namorada a pedir a tradução. Em resposta recebe um sorriso trocista, acompanhado de uma palmada na mão: "É o meu grande vício, estou sempre a roer as unhas!"

Bebidas e drogas foram vícios que garante nunca ter tido, nem mesmo quando tinha os bolsos cheios da indemnização do Estado. "Os 50 mil euros foram gastos em três anos: aluguei uma casa, comprei mobília, eletrodomésticos, um computador, telemóveis. Esbanjei tudo. Se algum dia receber as indemnizações dos arguidos [perto de 90 mil euros], vou investir para poder dar uma vida digna aos meus filhos."

E planos não faltam. Apesar de ser um namoro de dois meses, já têm nomes os dois filhos que pretendem ter: "Vitória ou Cassandra se forem meninas, Santiago ou Alexander se forem rapazes." Certeza mesmo é que nunca irão para uma instituição. "Quero ser melhor pai do que foram para mim, preferia deixar de comer ou mesmo ir roubar para lhes dar. Farei tudo para que os meus filhos tenham sempre a família com eles, nunca os deixarei ir para uma instituição, sei o que passei por não ter família comigo. Se não tivesse sido assim não estaria aqui a falar. A culpa não é da Casa Pia, que foi a minha casa."

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